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terça-feira, 3 de dezembro de 2024

O Comboio do Amor

 

Antes, amavam-se uns muito poucos e gostava-se de muitos, mas agora, Todos são Amados! São os do núcleo familiar, são os primos de terceiro e quarto grau, os tios da sobrinha, os amigos chegados, os que se conheceram ontem e também o gato da filha e o periquito perneta da mãe.

Ao se amar tanta gente, é natural que se tenham de estabelecer hierarquias, pois isto são como os Santos nos altares: nem todos podem estar no pedestal mais elevado, pois não há espaço, e uns têm de ficar mais abaixo. Faz parte da vida.

Assim, e de forma a ajudar quem tanto Ama a distribuir os Amados por Intensidade (Muito Forte, Forte, Médio e Fraquito), sugiro a criação de uma solução baseada no sistema ferroviário, com quatro Carruagens, que denomino de “Comboio do Amor”.

Carruagem Presidencial – Bancos forrados a couro de qualidade, com criados fardados a rigor a servir caviar e champagne Möet & Chandon. Esta carruagem está destinada aos que são VVIP (Very Very Important Person). São os amados incondicionalmente. Exclusivo família chegada. São a Realeza do Amor.

Carruagem de 1ª Classe – Bancos forrados a couro simples, com criados a servir paté de ganso e champagne Raposeira de Lamego. Esta carruagem está destinada a todos os que são VIP. São amados condicionalmente. Exclusivo família ou relacionados com ela. São a Alta Nobreza do Amor.

Carruagem de 2ª Classe – Bancos forrados a tecido, com serviço de self-service. Esta carruagem está destinada às pessoas pelas quais a pessoa que ama tem dívidas de gratidão ou parecidas. Exclusivo não família. São a Baixa Nobreza do Amor.

Carruagem de 3ª Classe – Bancos de madeira, e os passageiros têm de levar marmita. Está destinada aos Outros, classe ainda assim amada, mas se houver perturbação na relação amorosa, saem pela janela antes mesmo do comboio parar na próxima estação. São o Povo do Amor.

E tu? Em que Carruagem do Comboio do Amor estás?

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

O Atual Significado da Palavra Amor

 


O significado da palavra “Amor” mudou. Tornou-se uma palavra popular, quando antes era seleta. Agora é dita por todos e a todo o momento, quando antes esta só era dita a pessoas realmente especiais, e em ocasiões excecionais.

Sim, é verdade. A palavra “Amor” tornou-se vulgar e banal. “Amamos” a nossa série favorita, o nosso clube, os nossos amigos e os nossos familiares. Antes “gostávamos” ou “gostávamos muito”, mas agora já não gostamos, nós “amamos”.

Como não foi criada outra palavra para definir o sentimento de “muito mais do que gostar”, a palavra “Amor” está ainda em vigor. Só não sei por quanto tempo é que esse superlativo vai continuar a liderar as cotações das frases românticas.

Tal e qual como a inflação come o nosso poder de compra, com o dinheiro a valer cada vez menos, a importância da palavra “Amor” tem decrescido ao longo dos tempos, e agora vale realmente muito pouco.

Antes “gostávamos” dos amigos, tínhamos “paixões” fortes e passageiras, e “amávamos” o/a consorte. Tudo isso é passado para o léxico atual. Agora “Amamos” todos, sejam eles familiares, consorte, amigos, animais de estimação e músicas. Acabou o “gosto” ou a “paixão”. É só Amor!

Foram criados os diversos “Tipos de Amor”, como sejam o Amor incondicional, o Amor condicional, o Amor passageiro, o Amor rápido, o Amor lento, o Amor platónico, o Amor clubístico, o Amor um bocado falso, o Amor quase quase, entre outros.

E tipificaram-se os “Amados”, agrupados pelos diversos destinatários, sejam eles os familiares, o/a consorte, os amigos, o treinador e jogadores do clube favorito, Deus, Anjos, e assim por diante, numa mole imensa de pessoas e coisas.

Somados os “Tipos de Amor” com os “Amados” surge uma “Pirâmide do Amor”, em que no topo fica, por exemplo, o Amor incondicional aos familiares, ou ao clube do coração, e que acaba no amor foleiro, que aparece e desaparece numa noite bem bebida...

Assim, o Amor não desapareceu, apenas se transformou, popularizou-se, banalizou-se, é de todos e para todos, e não é só para alguns, poucos, eleitos, como dantes. É só mais um sinal dos tempos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Amar

 

Amar é das palavras mais utilizadas, mas realmente nunca me questionei sobre realmente o que Amar significa.

Eu Amei e Amo muitas coisas, como livros, filmes, quadros, esculturas, músicas, estilos, tendências, ideias, ideais, lugares, cidades, e também algumas pessoas.

E também poderia amar animais de estimação, como tantos fazem, mas ainda não me deu para isso...

O meu Amor por tudo o que não são pessoas é de sentido único, pois amo e não espero retorno. E nem sequer sou ciumento, pois gosto muito que outras pessoas amem o que eu amo.

Amar pessoas, a maior parte das vezes, é extremamente complicado, muito mais do que amar simplesmente coisas materiais ou imateriais. Ou animais.

Posso Amar uma figura pública por gostar do que faz ou como o faz. E amo-a até me fartar dela.

Posso Amar alguém da minha família apenas por ser do meu sangue.

Posso Amar uma pessoa, romanticamente, mesmo sabendo que essa pessoa não me ama, mas se não a conquistar, sei que vou sofrer, mas superarei o drama e vou partir para outra.

Posso Amar uma pessoa, romanticamente, acreditando que essa pessoa me ama, mas se afinal essa pessoa não me amar, ou deixar de o fazer, regresso ao parágrafo anterior.

Amar romanticamente é um ciclo sem fim de ilusão, desilusão, sofrimento e superação. E desiludam-se todos o que acham que Amar é um festival sem fim de caricias, carinhos, frases doces e sentimentos lindos.

Quem tinha razão sobre Amar era Vinícius de Moraes, que termina o seu Soneto de Felicidade com "Amor é Infinito enquanto Dure"!

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

O Acordar de um Sonho

Acordo a lembrar-me que sonhei, e o sonho era o de acordar de um sonho.
Confesso que quase nunca sonho, ou se sonho, nunca me lembro do seu conteúdo, tornando esta lembrança algo com um profundo significado. 
E se o sonho de acordar de um sonho significar o fim de uma paixão, visto ambos serem loucuras, irreais pensamentos e sentimentos muito intensos?
E esse final de paixão terá resultado em amor? Não sei a resposta, apesar de ter bastante curiosidade.
É que sendo a paixão um sentimento tão forte, o mais certo é que esse hipotético amor tenha perecido nas intensas chamas, não restando mais nada, nem mesmo uma Fénix Renascida.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O Segredo mais bem guardado

Será o Segredo do Amor maior do que o Sentido da Vida, da Origem do Universo ou para onde vamos depois de morrermos? Se é que vamos para algum lado!
Será o Mistério do Amor ainda mais complexo que o da Fé, da Vida e de tudo o que nos rodeia?
Para todas essas questões, a minha resposta imediata é Sim. E quanto mais penso no assunto, menos certezas tenho. E eu que já tive tantas sobre esse tema! Foram-se todas.
Será o Amor um Sentimento ou vários misturados? Será apenas uma Atração Carnal? Será uma Dependência Química? Será uma demonstração de Carência Afetiva?
Será o Toque, o Cheiro, o mergulhar nos olhos da Pessoa Amada? Será a forma de falar, de se movimentar, de estar sentada sem nada fazer? Não sei. E duvido que alguém saiba.
O Amor serve para quê, afinal? Rigorosamente para nada. Deve ser um vírus inventado por alguém perturbado e que, por pura maldade, não criou a vacina! E desta forma lixou toda a humanidade.
O Amor não alimenta ninguém, mas por causa dele perde-se o apetite. O Amor não ajuda ninguém, mas quando falta, não resta vontade de fazer nada, apenas de estar num quarto sozinho a olhar o vazio!
estudos sobre o Amor para todos os gostos, seja demonstrarem que quem Ama Vive Mais Tempo, ou que quem Não Ama Tem Mais Saúde (pelo menos mais Saúde Mental devem ter, digo eu)!
E eu, sem nada saber sobre o assunto, sinto que o Amor é Um Todo, mistura de mil e uma coisas, diferente para cada um, e que varia de acordo com a química da pessoa que amamos. Deve ser por isso que é tão Poderoso!
Por ser o Amor um tema tão Complexo e Fascinante, proponho que seja criada uma Cadeira num Curso de Áreas Sociais. Mas o melhor seria um Curso Superior de Amor. Isso seria verdadeiramente Divino!
Eu até poderia até pedir a Deus que me livrasse de vez do Amor, para bem do meu Coração e da minha Sanidade Mental, mas não peço, pois uma Vida sem Amor seria apenas um arrastar de dias. Até à Morte.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Relações "Fast-Food"

Quem nunca se questionou sobre como e porquê alguns casais estão juntos? É que não se compreende à primeira vista, nem sequer à segunda.
Esses casais poderão simplesmente estar juntos por promessa, teimosia, comodismo ou simples receio da mudança! O que é certo é que ainda não viram bem o que se anda a passar, mesmo ao lado….
O conceito de família tradicional desapareceu com as mulheres a trabalhar fora de casa e a ganharem independência perante os homens.
E (alguns) homens tornaram-se também autónomos e independentes, e deixaram de "precisar" das mulheres.
Até há pouco tempo, as relações eram "arranjadas" pelos pais. E tudo ia funcionando, e inclusive haviam muitos poucos divórcios (pudera, eram proibidos!)
No século XX surgiu o conceito de relação por amor, e os casais ficariam juntos enquanto estivesse acesa a “chama do amor”. O amor é, dizem, um ato de vontade, uma decisão, uma promessa, mais que um sentimento.
Tudo isto era muito lindo e romântico, mas as separações por (falta de) amor tornaram-se demasiado frequentes.
Mas a história não podia ficar por aqui, pois surge a moda da união por paixão! E há muito boa gente a afirmar que amor e paixão é a mesma coisa, e como os influencers do Youtub confirmam, tornou-se lei!
Porém, a paixão, por ser tão intensa e física, acaba muito rapidamente, e as uniões nela baseadas duram ainda menos do que as do amor!
Com esta rapidez, surgem relações de consumo rápido, e com troca instantânea de parceiros. Mas não deve ser mau, pois há cada vez mais pessoas a optarem por esta forma de se relacionar.
É a relação fast-food! Escolhes o que queres, comes e já estás pronto(a) para novo relacionamento!
Sem apego nenhum” parece ser a palavra de ordem desta tendência.
Assim, estamos numa sociedade cada vez mais egocêntrica, solitária e não solidária, baseada no prazer intenso e imediato, e em que impera a intolerância em relação ao outro.

Ou seja, apaixonamo-nos cada vez mais e amamos cada vez menos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Renascer

O Sol está a desaparecer tão rápido do firmamento que até julgo que este tem pressa em abandonar a cena. Será que ele tem medo do escuro? Da escuridão, só tenho medo da que existe na minha alma, confesso.
O barulho das ondas a quebrarem, pesadamente, na praia, torna-se cada vez menos presente, enquanto o ruído dos meus pensamentos me enche a cabeça, até não saber, sequer, se é noite ou dia, se chove ou se faz sol, ou se as gaivotas, afoitas, já estão em cima de mim, em busca de qualquer resto de comida.
Os pensamentos tomam-me definitivamente de assalto e eu quebro, como as ondas. Por momentos ainda tento resistir, voltar atrás, concentrar-me na idílica visão do pôr-do-sol, sonhar acordado, mas tal já não me é possível. Estou perdido nas minhas dúvidas.
Como é que isto tudo aconteceu? Como é que a minha vida ficou assim? Como é que não dei por isso? Porque é que ninguém me alertou? Como me deixei transformar naquilo que mais temia vir a ser? Porque é que as coisas boas acabam assim?
As perguntas sucedem-se a um ritmo tal que não me deixam raciocinar, responder, argumentar, defender-me. Sou acusado por mim mesmo num tribunal que não admite defesa nem recurso. E as penas são todas cruéis, sendo a mais leve o degredo.
Sei que choro por dentro mas não tenho a certeza se choro por fora. Mas dane-se se quem me esteja a ver e que não goste de ver um homem feito nesses propósitos. Eu só choro com razão, e por fortes sentimentos. É que se não sabem ficam a saber, que mesmo homens feitos têm sentimentos. E choram.
Por ela estou a chorar pela segunda vez. E em ambas, pela ideia de a perder. Mas como tudo mudou. Na primeira vez chorei porque a ia perder, por sua decisão. E hoje choro porque a vou perder, mas por minha única e exclusiva vontade.
Se o sentimento mudou foi para ficar ainda mais forte, mais robusto, mais interligado. Mas, infelizmente só isso não chega. É preciso mais do que sentimentos. E sei agora que esse mais não está ao alcance de todos, só de alguns. Talvez esses tenham apenas mais sorte. Ou apenas mais bom senso.
Quantos têm sentimentos um pelo outro e não estão juntos? Serão tantos como aqueles que estão juntos e não têm sentimentos um pelo outro? A vida é injusta para com o Amor, pois muitas vezes junta quem não se quer, e afasta quem se quer.
Lentamente afasto a bruma dos meus pensamentos, das decisões e indecisões, dos sentimentos, das emoções, das relações, das gaivotas, da luz e da escuridão das almas, das questões, dos íntimos tribunais, das suas e penas e dos degredos.
Regresso a mim, como num longo acordar, e abrindo os olhos vejo o sol a renascer. Tal como eu….

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Felicidade, Amor & Paixão


Tenho-me apercebido que algumas palavras, por sinal muito importantes, possuem significados completamente diferentes, consoante a interpretação dada pelas pessoas.
Falo da FELICIDADE, do AMOR e da PAIXÃO.
Para alguns, Felicidade é algo muito raro, e que quando surge, é apenas por breves momentos, sendo um sentimento supremo e superlativo.
Já para outras pessoas (e noto isso especialmente nas mais novas), Felicidade é algo corriqueiro, normal, exigível que seja permanente. Se “estão” com a pessoa de quem gostam, são “felizes” (mesmo que a relação deles seja uma verdadeira trampa).
Para uns, Amor e Paixão são sentimentos / emoções completamente distintos. Amor é um sentimento adulto, maduro, sereno e quase sempre duradouro. Em contraponto, a Paixão uma emoção fortíssima, obsessiva e ciumenta, originando uma grande atracção sexual.
Para essas pessoas, a Paixão aparece poucas vezes na vida, e dura até três meses (um apaixonado não consegue aguentar mais, dado o estado de semi loucura em que se encontra), pois é como uma chama intensa que tudo consome com rapidez. E pode (ou não) resultar em Amor.
Já para outros, Amor e Paixão significa exactamente o mesmo. Se gostam de alguém (ou amam), estão “apaixonados” (mesmo que essa emoção seja tão "intensa" como comer um cheeseburguer sem sabor).
Assim, quando deixam os seus parceiros, alegam que já “não estão apaixonados”, e por isso “deixaram de estar felizes”. E cada um segue a sua vida, sem dramas. Mas também não deverá haver grande mal ao mundo, pois alegam que lhes é bastante fácil e frequente “apaixonarem-se”.
Como tudo na vida, os conceitos evoluem, os significados alteram-se e até as palavras mudam. Já os verdadeiros sentimentos nunca mudam, sejam eles muito ou pouco intensos ou duradouros.
Assim sendo, questiono-me é se alguma saberei, verdadeiramente, o que é a Felicidade, o Amor e a Paixão….

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Eu, Platão e o Amor

Segundo Platão, o Amor é uma grave doença mental. Esse brilhante filósofo ateniense é autor de mais frases sobre o tema, mas nenhuma foi tão caustica.
Mas afinal porque é que uma das maiores mentes de sempre, tão brilhante, racional e avançada, pode considerar o Amor uma grave doença mental? Que forte razão teria ele para proferir uma tão afirmação destas?
Mais estranho ainda é constatar que, mesmo depois de tão brilhante pensador ter proferido a “Morte” ao Amor Romântico, todos continuaram a querer ficar com tal doença mental.
Mas será que ensandeceram de vez? Será que gostam de ser masoquistas? Não gostam de si próprios? O Amor valerá assim tanto para que se arrisquem a ficar tontinhos de todo, e para sempre?
Acho que Platão tinha toda a razão! De que serve o Amor, afinal? Come-se? Bebe-se? Livra-nos do frio? Defende-nos das doenças? É fundamental para a nossa reprodução como espécie? Não, pois não?
O Amor (aparentemente) não tem lógica nenhuma e por isso não serve para mais nada a não ser ficar definitivamente maluco, especialmente quando as relações amorosas correm mal. E aí tudo se tende a agravar ainda mais!
Só podem sofrer de uma grave doença mental aqueles que saem de uma relação frustrada para entrarem de cabeça numa outra, a maioria das vezes ainda pior.
Sejamos realistas. O Amor só serve para que comerciantes pouco escrupulosos possam ganhar uns cobres valentes no dia dos Namorados! E para mais nada. É apenas um mito e uma falácia!
Eu cá vou seguir o conselho de Platão e deixar o Amor de lado. E já e definitivamente. Para o meu próprio bem e de todos vocês que comigo privam.
Adeus Amor. Até nunca mais!

Nota da Editora: Este blogue irá ser interrompido por uns tempos devido ao espancamento sofrido pelo autor, alegadamente pela sua namorada, após ele lhe ter lido o conteúdo deste texto.
O autor ainda terá dito (antes de levar com uma panela na cabeça) “Amor, mas afinal tu estás com uma grave doença mental!, caindo depois inanimado no chão, com um estúpido sorriso na face).

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Na Corda Bamba

O significado de corda bamba é, entre outros, “situação instável” ou “difícil de controlar”. E é mesmo assim que me sinto!
Não sou nem nunca fui artista de circo. Nunca me vi a equilibrar-me num fio ou arame, e muito menos com aquela vara comprida nas mãos, como os equilibristas a sério.
Mas sinto-me numa corda bamba e sem nenhuma rede por baixo. Portanto, numa situação instável e difícil de controlar.
Mas passemos aos factos, pois só assim vocês me compreenderão. Ou não….
Tenho orgulho em afirmar que amo a minha cara-metade de uma maneira profunda. À séria mesmo, como dizem.
Mas, se gosto tanto dela, porque se sinto numa corda bamba? Falta de confiança na relação não é. Falta de sentimento também não. E ausência de objectivos comuns ainda menos.
Quando não havia amor na minha vida, sentia que tudo estava correcto e nos seus devidos lugares. Não havia lugar a dúvidas e as certezas eram a nota dominante. Orgulhava-me de ter os pés bem assentes no chão!
Mas quando surgiu o amor, e em quantidade suficiente para encher um camião TIR ou mesmo o MEO Arena, as certezas desvaneceram-se, como por milagre.
Paradoxalmente, é quando brota do meu coração amor suficiente até para enfrentar um touro bravo em pleno no Campo Pequeno, é quando sinto estar numa corda bamba.
Quanto mais amo, mais frágil o sinto!
O Amor é um sentimento precioso e mimoso, e mesmo crescendo, aos meus olhos está cada vez mais carente e frágil, a precisar de atenção constante.
E apesar de desejar ter uma relação cada vez mais forte e sólida, quero ainda mais ter um amor frágil. Para o proteger e acarinhar cada vez mais.
Assim, ao olharem para cima podem-me ver, na corda bamba, sem vara nem rede.
Mas Feliz!

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Relações no Século XXI (2 de 2)

Assim, e sem ler nem escrever, ali estava eu a falar com a Sandra. Ou melhor, falava ela e eu só dizia que sim com a cabeça, pois o som estava tão alto que só lhe via os lábios a mexer. E que lábios, senhoras e senhoras. Encheram logo ali o meu imaginário de sensualidade. Eu já estava de quatro por ela.
Não imaginava nada do que ela falava, pois eu só via aqueles lábios a mexerem e aqueles lábios mexiam comigo. E comecei logo a vê-la com outros olhos, a imaginá-la na minha vida, e a assumir cada vez maior importância.
Eu continuava a dizer que sim com a cabeça, como se fosse um boneco de mola, pois já estava noutra dimensão, apaixonado, mesmo sem lhe ter ouvido a voz. E se a minha cabeça dizia que sim, a minha alma, também.
Sim, eu sei. Agora sei. Sou “parvo até à quinta casa” e mais além, se fosse possível. Mas se isso era pouco, devo acrescentar ainda mais pormenores a esta história, que agora me parece surreal.
Na única ocasião que tive pedi-lhe o número de telemóvel. Mas ela fez melhor pois apenas pediu o meu (não deu o número dela, mas isso nem sequer notei). E. levitando, pedi-lhe o cartão do bar e paguei-lhe a despesa. Isto estava a evoluir bem, na perspectiva dos dois.
Claro que a Sandra não me ligou nos dias seguintes, mas eu não perdi a esperança. Assim, o meu elo de contacto para com a Susana passou a ser a sua amiga, Graça, e passei a ser ainda mais amigo do meu amigo P., pois sem ele passaria a estar perdido no mundo, pois nunca mais encontraria a Sandra.
E como fiquei animado quando soube que o P e a Graça se iam encontrar, no mesmo bar, e que ela ia levar a Sandra e o P me ia levar. Parecia que eles iam levar os cachorros a passear, mas eu não me importei. Não me importei mesmo nada.
Nessa altura, como bom cachorrinho, já tinha “fuçado” o Face do P à procura da Graça e o da Graça à procura da Sandra. Bem podia procurar, pois, soube depois, a Sandra tinha posto o seu segundo nome e com uma fotografia de quando era criança. Não achei estranho.
Claro que não se acha estranho a nada quando se é tão burro como eu. Essa noite foi fantástica, pois declarei o meu amor incondicional à Sandra, ao que ela me disse ao ouvido “Olha, não percebi nada do que disseste. Vou à casa de banho. Toma conta da minha bebida”.
Os nossos progressos como casal foram fantásticos. Após mais umas saídas a quatro, e enquanto o P e a Graça falavam no futuro, eu consegui que a Sandra me ligasse para o telemóvel para poder ficar com o número dela. E nem queria acreditar na minha sorte!
A partir daí, fomos os dois jantar fora inúmeras vezes. Ela recusava-se a ir a minha casa, e eu também nunca fui a casa dela. E nem sequer podia saber onde era. Achava eu que tínhamos começado a namorar, mas era um bocado estranho, pois perante os meus olhos e de quem nos visse, não havia nenhum indício disso.
Desde o início que me senti um bocadinho posto de parte, especialmente no mundo virtual, pois ela postava apenas fotos das suas saídas (sem mim, claro) no Facebook e no Instagram, especialmente com os seus amigos manhosos. De mim não havia o mínimo vestígio.
Quando falava com a Sandra acerca de nós, invariavelmente ela dizia que “Depois se vê, e agora deixa-me sossegada”, e voltava às mensagens e a rir-se sozinha. Mas eu estava cada vez mais caidinho por ela.
De repente, tudo mudou, pois a Sandra começou a ver-me com outros olhos porque os seus olhos viram-me com outra mulher. Era apenas a minha vizinha de baixo, que por acaso nos cruzámos na Av. de Roma, mas que para a Sandra passou a ser uma ameaça grave aos seus planos. Eu nem imaginava que ela tinha alguns....
A partir desse momento as coisas entre nós partiram para outro nível, e começámos a namorar mesmo a sério. Eu fiquei ainda mais entusiasmado, mesmo sem saber a razão de tamanha reviravolta. Só soube muito tempo depois, como é habitual na minha vida.
Se eu e a Sandra não tivemos nenhum futuro sério foi porque ela não quis. Ela dizia sempre que sabia que eu gostava muito dela, mas que ela não era mulher para casar e ter filhos, que gostava era de boa vida, de ter a sua liberdade, de sair sem dar satisfações a ninguém. Vocês sabem.
Devem estar a pensar “Coitado, tanto investimento passional para nada”. No fundo compreendi o que ela queria, e como gostava dela, fiz-lhe a vontade. Fiz-lhe mesmo todas as vontades. Até ao mínimo e ínfimo pormenor.
Bem, e rematando a história para não vos maçar mais, acabei por casar com a Graça e temos dois filhos, o Luís e a Filomena. E mais feliz não posso estar, pois tenho tudo o que sempre quis ter. Amor e estabilidade emocional.
Eu e o P continuamos a ser muito amigos, sendo ele visita muito assidua de minha casa, e inclusive é o padrinho do Luís. Nós escolhemo-lo por eles os dois serem muito parecidos fisicamente. Mesmo muito, e até me meter impressão. Estranhamente, a Graça não os acha nada parecidos.
E eu? Eu continuo a andar com a Sandra. E com a vizinha de baixo também, pelo menos até a Graça me desmascarar a sério e "pôr-me os patins", tal como fizeram todas as anteriores.
Ao contar-vos esta história fiquei seriamente desconfiado que é por eu ser assim que as mulheres da minha vida me deixaram sempre pendurado….

Estas mulheres são mesmo umas desgraçadas sem coração!!!

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A Pirâmide Humana


Já vi a Vida de muitas formas. Muitas mesmo! E agora vejo-a como um intrincado jogo de equilíbrio entre as pessoas.

E nesta visão da Vida, somos todos artistas do Cirque du Soleil, em que cada um de nós ampara e é amparado por um conjunto de pessoas, uns mais próximos e outros mais afastados, mas todos igualmente importantes.

E na minha cabeça, esse jogo de equilíbrio toma a forma de pirâmide humana (por sinal muito popular na Catalunha), encontrando-se nesta estrutura as pessoas mais importantes da minha Vida.

Esta pirâmide, que à primeira vista é sustentada apenas com força muscular e tenacidade, na realidade está suspensa apenas pelo Amor que damos e recebemos dos nossos entes mais queridos.

Nesta estrutura há um acordo tácito de auto-ajuda. Se falhar a força a um, os outros amparam-no, mesmo sabendo que ficarão sobrecarregados e cansados mais rapidamente. Mas quem liga ao cansaço quando a força motriz é o Amor?

Mas que fazer quando sinto estar a ficar animicamente cansado? Que fazer da angústia que sinto por saber que, caso falhe, poderá alguém cair ao chão? Ou muitos até?

Será que apenas a força do Amor será suficiente para todos suster? Antes assim parecia, mas agora sinto que já não. A pressão já era grande e está a aumentar, levando as parcas forças que ainda me restam.

Aguento. Tento desvanecer da minha cabeça os pensamentos de desistência, mas sinto que o Amor que me chega já não me chega, Onde está quando mais preciso dele?


Aguento. Mais um dia. Pelo menos mais um dia. É que pensando bem, o Amor não desaparece assim. E por isso aguento. A bem de todos. A bem de mim!

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Crónica de um Fim Anunciado (2 de 2)

A ideia da nossa relação agonizar propositadamente punha-me louco! Tinha a certeza que ambos sabiamos perfeitamente onde isto tudo iria acabar. Só não sabiamos era quando. Eu pelo menos não sabia. Ela sabia, certamente.

Eu sei que não lhe posso dizer nada, caso contrário ela incendeia-se ainda mais. Nesse entretanto vai continuar a falar comigo num modo gélido, e apenas para me culpabilizar, ficando desta forma constrangido, frustrado e zangado com o mundo.

O mais difícil para mim é vê-la a interagir com outras pessoas de uma forma amorosa e queriduxa, enquanto que comigo é exatamente o oposto, roçando a brutalidade.

E mesmo que alguém visse a Cristina a tratar-me com a mais gélida frieza, iria sempre pensar que seria uma justa reação ao que eu lhe certamente tinha feito.

Sei que é assim porque já vi isso antes, nomeadamente em muitos casais. A maioria já se separou, mas alguns ainda moram juntos, mas estes, claro que não são casais. Já o foram. Agora são fantasmas.

É inegável que as mulheres são implacáveis quando querem acabar com as relações. Por isso quando o querem, iniciam “O Plano!

Quando penso nesse Plano vem-me à ideia aquele ditado brasileiro “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”…. Homem, nestes casos, faças o que fizeres estás sempre lixado! Basta o Plano começar. E eu estou no meio dele....

Chego a casa umas duas horas depois de ter saído. A Cristina está na cama a fingir que dormia, e sei antecipadamente o que vai fazer e dizer….

MERDA, ACORDASTE-ME!” grita, olhando-me com olhos cansados de ler, não de ter estado a dormir. “Podias ao menos ter feito menos barulho! Mas afinal que horas são?” pergunta a si própria em voz alta, como se não soubesse com precisão as horas.

Desculpa, ‘mor”, respondo com os olhos a rebentar de rir….. é que quando estamos a ver um filme pela centésima vez, antecipamos os diálogos, e nem sei porquê, dá-me vontade de rir, mesmo que a situação (já) não tenha graça nenhuma.

Deito-me sem lhe tocar e sem sequer lhe dar um beijo de boa noite, como dantes sempre acontecia. E sei que esse "esquecimento" será mais uma acha para a gigantesca fogueira onde estou a ser queimado.

Amanhã será um novo dia. Mais um dia na execução do maldito Plano. Mais um dia dos muitos que aí vêm, e em que tudo avança mais um bocadinho, inexoravelmente. Até ao FIM….

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crónica de um Fim Anunciado (1 de 2)

Mas afinal o que é que se passa, Cristina?” Perguntei-lhe num tom que sabia ser tudo menos amigável. “Porque é que ainda não estás pronta? Sabes bem que combinámos estar em casa da Célia e do Pedro daqui a meia hora.

Estúpido! Pára de me chatear. Olha, por tua causa agora já não quero ir. Vai sozinho!” Respondeu num tom de irritação e de desprezo, calculado ao milímetro.

Já sabia perfeitamente que ela não queria sair comigo. Eu não deito cartas do tarot nem nunca ganhei nada nos jogos da Santa Casa, mas esse sentimento era-me tão evidente que só faltava colocar-lhe legendas.

Rebobinei a “fita” e revi que, numa única e simples frase, ofendeu-me, culpou-me de ter perdido a vontade de sair e ordenou-me que saísse de casa. Maravilhoso….

Claro que utilizei a pressão para que ela anunciasse ao Mundo e de uma vez por todas o que queria ou não fazer. Hoje não me apetecia jogar jogos longos e complicados, cheios de sinais difusos e contraditórios, e que não levam a lado nenhum.

Apesar de ser homem também sei ler sinais, e ajuda muito haver um histórico. Sei que em circunstâncias normais a Cristina já estaria despachada e a pressionar-me para sairmos. Como tudo muda na vida, especialmente na de um casal….

Sabia que não adiantaria demovê-la, porque a Cristina já tinha antecipado mentalmente ter a casa só para si, e só o facto de eu ficar lá (mesmo quedo e mudo numa divisão longe da sua vista) a ia tirar do sério, e começaria uma querela qualquer.

Nos últimos tempos ela começou por diversas vezes discussões violentas e (aparentemente) sem sentido, e eu tinha respondido saindo porta fora.

Como se estivesse a seguir um guião de um filme, logo que saio, invariavelmente Cristina aparentemente cai num calculado e fingido pranto interminável, telefonando a toda a gente descrevendo-me como uma besta insensível, distribuindo pérolas como “Já nem dá para falar com ele. Estávamos só os dois a falar….. Eu assim não sei se aguento mais…

Cristina está a executar o crime perfeito: Quer acabar com a nossa relação, mas atribuir-me as culpas por inteiro! E pior, pois sabe que eu sei o que ela está a fazer.

Mas afinal porque é que ela não diz simplesmente “Já não quero mais, por mim acabou. Já não te amo!”?

Sou um optimista. Claro que todas as relações sofem algum desgaste, mas para mim quase todas têm conserto. Agora esta já não tem, pois acabou um dos itens fundamentais: o Respeito. E isso acaba com o Amor….

Mas não paro de pensar no mesmo. Porque é que a Cristina tem de nos arrastar para uma situação destas?

Porque temos de desgastar a relação até ao limite, desgastar-se a ela própria, a mim, as nossas famílias, amigos e colegas de trabalho?
(continua)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Acabou!


A mulher dos meus sonhos, a Tal, e com quem (tão tardiamente) fiz tantos planos para a vida, diz-me, num repente….
- Acabou!
E foi só. Ali ficou, a olhar para mim.
Não apontou razões nem prolongou o discurso. Não era preciso. Senti que tinha decidido e comunicado. E foi só.
Não discuti, não argumentei, não reclamei. Escutei-a e fiquei imóvel. Nem olhei para ela.
Entrei em transe, instantaneamente. Entrei no passado e no futuro ao mesmo tempo.
Senti-me transportado ao passado, recordando imagens e sentimentos de quando nos conhecemos, nos amámos, nos juntámos como um só….
E vi-me no futuro. Sem ela. E era uma sensação horrivel, pesada, demasiado cruel.
A minha expressão não mudou. Não disse nada. Só imaginava o meu futuro. Sem ela.
E foi aí que as lágrimas irromperam. Caíam como grossas gotas de chuva. Mas eu não as senti excepto quando me começaram a molhar as mãos, que prostradas, ali estavam….
Só pensava no meu futuro. Sem ela.
Pela primeira vez desde que falou, olhei para ela, pois num ténue vislumbre, reparei que tinha mudado subtilmente a sua expressão.
Os olhos dela sorriam.
E vi que os olhos dela sorriram um pouco mais ao ler os meus sentimentos.
E as minhas lágrimas continuavam a cair.
Pensamentos difusos e confusos percorriam velozmente a minha cabeça. Estará ela a gozar com o meu sofrimento? Será ela uma pessoa má, afinal?
O seu sorriso a despontar nos cantos dos lábios fez-me desconfiar, mas não ousei assumir que aquilo tudo estava a ser uma brincadeira.
Mas, e se não fosse? E se estivesse a perceber mal? Não podia arriscar.
Percebendo o que se passava, e já com um sorriso mais largo, ela disse:
- Amor, não acabou nada. Nunca vai acabar. Tu sabes que és o homem da minha vida.
- O quê? Questionei sem convicção, só para ela dizer algo mais. Só para ter a certeza absoluta de tudo o que tinha acabado de acontecer.
- É que eu queria saber mesmo o que sentias por mim. E agora tenho a certeza.
Confesso que fiquei alguns minutos a decidir se a beijava ou se a estrafegava, se gritava ou se ficava calado, se ficava ou se me ia embora…..
Abracei-a.
- Amo-te, mulher da minha vida.
- Também te amo, meu homem.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O Pilha-Galinhas 4 - O Gato Vadio (final)

Sem sequer ter dado pelos dias terem passado, numa bela manhã, ouço lá fora uma voz de homem “- Ó de casa”.
Espreito pela janela e vejo um jovem parado, para lá do portão. Desconfiei logo e nem queria acreditar no que os meus olhos viam.
Apesar de ter vontade de sair disparada de casa para falar com ele, armei-me em difícil e respondi “Que quereis?”
“- Queria dar-lhe uma coisa” respondeu ele de pronto, e acrescentou, num tom mais baixo, mas ainda audível “E pedir-lhe perdão”.
Dei por mim a sorrir, mas apesar do formigueiro que estava a sentir por todo o corpo, continuei no mesmo tom. E na mesma atitude  “- O que for que me quereis dar deixe aí à entrada. E o perdão vá pedir a Deus. A igreja é ao fundo da rua.”
E corri a cortina, mas não sem antes o mirar mais uma vez. Realmente ele não era nada de deitar fora.
Arrependi-me da minha arrogância imediatamente depois de sentir que ele se estava a ir embora, e saí disparada de casa, disposta a chamá-lo de volta.
Estava a imaginá-lo de cabeça baixa e passo arrastado em direcção à igreja, quando, para minha grande surpresa, deparo com um jipe a afastar-se.
“- Os pilha-galinhas agora andam de jipe??!!” Pensei. E vejo o veículo a descer a rua, em direcção à igreja.
Ele tinha-me deixado um pequeno pacote na entrada e tive de enxotar o meu cão, pois ele andava de volta do embrulho a abanar o rabo, contente por sentir o cheiro da sua “amada”. Sinceramente cão, desiludes-me cada vez mais!
Trouxe o pacote para dentro de casa e coloquei-o em cima da mesa da sala. Não ia abri-lo naquele momento, pois ainda estava com esperança que ele passasse por minha casa de regresso da igreja.
Passados três dias sentei-me numa cadeira da sala e ao encher-me de coragem, abri o pacote. Este estava embrulhado na perfeição, com excelente papel e amarrado com um bom fio. Lá dentro encontrei uma dúzia de ovos e uma carta! Ovos? Só podia estar a gozar comigo.
Li a carta. Mas que carta! Julgava eu que já ninguém escrevia assim, nesta era de sms e emails. À mão, com caligrafia inglesa, com caneta de aparo de um azul cativante. Senti-me nas nuvens com o que estava escrito.
Para além de rasgadas desculpas, o “pilha-galinhas”, de seu nome Pedro, alegava que não tinha necessidade económica nenhuma para andar a roubar criação, e que apenas o fazia pela emoção que isso lhe proporcionava. Mas que doentia justificação, pensei.
A missiva terminava com muitos agradecimentos por não o ter morto, e que agora dá outro valor à vida e que largou de vez o vício de adrenalina.
E acrescentou o seu número de telemóvel, dizendo que gostaria muito que eu lhe ligasse.
“- Mas o tipo é completamente doido varrido?” Pensei. Mas parte de mim ficou totalmente alvoroçada. Talvez fosse pela letra, pela educação, pela forma de abordagem ou simplesmente pela sua sinceridade. Fiquei desde logo tentada a enviar-lhe uma sms, mas contive-me a tempo.
“- Se ele estiver mesmo interessado em falar comigo, virá procurar-me outra vez. Eu sou uma mulher séria e não ando atrás de homem algum.” E continuei a minha vida.
Mentira! Ele não me saía da cabeça. Eu tinha de o conhecer pessoalmente. E comecei a engendrar um plano para o efeito. Ia começar a frequentar a feira da outra aldeia para o ver.
De sacola ao tiracolo lá comecei eu a comprar hortaliças e fruta no mercado da aldeia do lado. Mas dado o meu objectivo secreto de o ver, as compras demoravam sempre muito tempo a serem feitas.
Um dia pareceu-me vê-lo de relance, mas para meu grande azar, surgiu de repente um conhecido meu a cumprimentar-me, e quando despachei o “chato”, já tinha perdido de vista o Pedro.
Ele tornou-se uma obsessão para mim. Liguei-me a todos os habitantes da aldeia dele que tivessem Facebook, Instagram ou Whatsapp, no intuito de encontrar alguém amigo dele nas redes sociais. Mas não encontrei nada. Parecia que procurava um fantasma.
Comecei a frequentar todas as actividades possíveis e imaginárias nessa aldeia, e ninguém falava dele. Pensei mesmo que ele se tinha evaporado ou tinha sido engolido pelas entranhas da terra.
As pessoas dessa aldeia ao verem-me lá quase todos os dias, já gozavam comigo e perguntavam-me quando me mudava. E eu, cada vez mais desesperada, aguentava.
Li a carta dele vezes sem conta, à procura de mais pistas que me levassem ao seu paradeiro. Estranhamente ligar para o seu telemóvel ou enviar sms continuava a não ser opção para mim. Que justificação é que teria agora para lhe ligar?
E confesso que muitas vezes romanceei o “nosso primeiro encontro”. Estranhamente considerava que o Carlos era o homem ideal para mim.
E assim se passaram semanas. De grandes esperanças e de maiores frustrações.
Num belo final de tarde, a Berta, de quem nada sabia desde há semanas, entrou em casa minha casa muito contente. Contente demais para o meu gosto, pois sabia que quando ela andava nestes propósitos, coisa boa não era.
“- Mana, estou muito apaixonada!” Disse-me num repente, abraçando-me com força e emoção.
Ao ouvir essa frase, tentei com todas as minhas forças mostrar-lhe uma cara alegre, mas a minha inveja pela felicidade devia ser por demais evidente. 
E sentei-me, de braços cruzados. A Berta, a transbordar de felicidade e totalmente alheia aos meus sentimentos, começou a descrever o modo como se conheceram.
“- Semanas atrás, estava eu na igreja, quando entrou um homem…..”
E ao ouvir essa frase, desfaleci…..
Fiquei assim a saber que na vida temos de seguir os impulsos no momento certo, pois um único instante de hesitação pode ser demasiado tarde. Tarde demais até para arrependimentos.
 FIM