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sexta-feira, 6 de abril de 2018

No Fim da Linha

Estou com uma tensão nervosa própria de um condenado à morte, pronto a explodir à mínima provocação. Aliás, anseio mesmo que alguém me diga algo menos próprio para poder ter uma justificação. Mas ninguém me dirige a palavra. Cobardes. Espertos.
Sinto-me como um animal enjaulado, um gigantesco tigre encarcerado num local exíguo, e isso enfurece-me a cada segundo, desejando fazer em tiras quem me aqui pôs, e de arrasto, todos os outros. Mas ninguém se aproxima. Cobardes. Espertos.
Os meus olhos ou semicerram-se ou abrem-se completamente, conforme o meu estado de espirito, como se quisessem determinar se odeio ou intimido. Eu quero ambos. Quero odiar tanto quanto possível e amedrontar. Mas ninguém sequer me olha. Cobardes. Espertos.
Olho para o ecrã do computador pela enésima vez nos últimos minutos, e o meu trabalho não aparece feito como queria. Enfureço-me. Ao soar o telefone, atendo e começo aos gritos com quem quer que me esteja a interromper. Era engano. Cobardes. Espertos.
Estou muito irritado por no final do dia não ter feito nada do que queria, mas custa-me sair daqui pois o trânsito para os fundos dos Infernos onde moro deve estar, obviamente, infernal. E os outros condutores devem estar todos parados, só à minha espera. Cobardes. Espertos.
Resolvo enfrentar o trânsito na esperança que me dêem razões para explodir, gritar, buzinar, ofender e, com um pouco de sorte, bater nalgum chico-esperto que me tente fazer o mesmo. Mas chegado a casa reparo que não houve um único que ousasse. Cobardes. Espertos.
Chego a casa e sinto que não há vivalma à minha espera. Percorro as parcas divisões na vã esperança de lá ainda estar alguém, escondido, para me assustar, mas nada. Tinham já ido todos às suas vidas. E partiram já lá vão uns anos. Cobardes. Espertos.
Choro de raiva e de frustração por não conseguir atingir os meus intentos, de não ter ninguém perto o suficiente para descarregar as minhas fúrias, de não ter ninguém a quem culpar, pois a culpa é sempre dos outros, nunca minha. Cobardes. Espertos.

Adormeço com um esgar cínico, pois sei que amanhã será um novo dia, um recomeço, uma nova esperança não de que tudo corra bem, pois, como estou, apenas (sobre)vivo de ódio, rancor e desgosto, desejando apenas o mal para mim e para os outros. Cobarde. Pouco esperto

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crónica de um Fim Anunciado (1 de 2)

Mas afinal o que é que se passa, Cristina?” Perguntei-lhe num tom que sabia ser tudo menos amigável. “Porque é que ainda não estás pronta? Sabes bem que combinámos estar em casa da Célia e do Pedro daqui a meia hora.

Estúpido! Pára de me chatear. Olha, por tua causa agora já não quero ir. Vai sozinho!” Respondeu num tom de irritação e de desprezo, calculado ao milímetro.

Já sabia perfeitamente que ela não queria sair comigo. Eu não deito cartas do tarot nem nunca ganhei nada nos jogos da Santa Casa, mas esse sentimento era-me tão evidente que só faltava colocar-lhe legendas.

Rebobinei a “fita” e revi que, numa única e simples frase, ofendeu-me, culpou-me de ter perdido a vontade de sair e ordenou-me que saísse de casa. Maravilhoso….

Claro que utilizei a pressão para que ela anunciasse ao Mundo e de uma vez por todas o que queria ou não fazer. Hoje não me apetecia jogar jogos longos e complicados, cheios de sinais difusos e contraditórios, e que não levam a lado nenhum.

Apesar de ser homem também sei ler sinais, e ajuda muito haver um histórico. Sei que em circunstâncias normais a Cristina já estaria despachada e a pressionar-me para sairmos. Como tudo muda na vida, especialmente na de um casal….

Sabia que não adiantaria demovê-la, porque a Cristina já tinha antecipado mentalmente ter a casa só para si, e só o facto de eu ficar lá (mesmo quedo e mudo numa divisão longe da sua vista) a ia tirar do sério, e começaria uma querela qualquer.

Nos últimos tempos ela começou por diversas vezes discussões violentas e (aparentemente) sem sentido, e eu tinha respondido saindo porta fora.

Como se estivesse a seguir um guião de um filme, logo que saio, invariavelmente Cristina aparentemente cai num calculado e fingido pranto interminável, telefonando a toda a gente descrevendo-me como uma besta insensível, distribuindo pérolas como “Já nem dá para falar com ele. Estávamos só os dois a falar….. Eu assim não sei se aguento mais…

Cristina está a executar o crime perfeito: Quer acabar com a nossa relação, mas atribuir-me as culpas por inteiro! E pior, pois sabe que eu sei o que ela está a fazer.

Mas afinal porque é que ela não diz simplesmente “Já não quero mais, por mim acabou. Já não te amo!”?

Sou um optimista. Claro que todas as relações sofem algum desgaste, mas para mim quase todas têm conserto. Agora esta já não tem, pois acabou um dos itens fundamentais: o Respeito. E isso acaba com o Amor….

Mas não paro de pensar no mesmo. Porque é que a Cristina tem de nos arrastar para uma situação destas?

Porque temos de desgastar a relação até ao limite, desgastar-se a ela própria, a mim, as nossas famílias, amigos e colegas de trabalho?
(continua)