sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O Pilha-Galinhas 4 - O Gato Vadio (final)

Sem sequer ter dado pelos dias terem passado, numa bela manhã, ouço lá fora uma voz de homem “- Ó de casa”.
Espreito pela janela e vejo um jovem parado, para lá do portão. Desconfiei logo e nem queria acreditar no que os meus olhos viam.
Apesar de ter vontade de sair disparada de casa para falar com ele, armei-me em difícil e respondi “Que quereis?”
“- Queria dar-lhe uma coisa” respondeu ele de pronto, e acrescentou, num tom mais baixo, mas ainda audível “E pedir-lhe perdão”.
Dei por mim a sorrir, mas apesar do formigueiro que estava a sentir por todo o corpo, continuei no mesmo tom. E na mesma atitude  “- O que for que me quereis dar deixe aí à entrada. E o perdão vá pedir a Deus. A igreja é ao fundo da rua.”
E corri a cortina, mas não sem antes o mirar mais uma vez. Realmente ele não era nada de deitar fora.
Arrependi-me da minha arrogância imediatamente depois de sentir que ele se estava a ir embora, e saí disparada de casa, disposta a chamá-lo de volta.
Estava a imaginá-lo de cabeça baixa e passo arrastado em direcção à igreja, quando, para minha grande surpresa, deparo com um jipe a afastar-se.
“- Os pilha-galinhas agora andam de jipe??!!” Pensei. E vejo o veículo a descer a rua, em direcção à igreja.
Ele tinha-me deixado um pequeno pacote na entrada e tive de enxotar o meu cão, pois ele andava de volta do embrulho a abanar o rabo, contente por sentir o cheiro da sua “amada”. Sinceramente cão, desiludes-me cada vez mais!
Trouxe o pacote para dentro de casa e coloquei-o em cima da mesa da sala. Não ia abri-lo naquele momento, pois ainda estava com esperança que ele passasse por minha casa de regresso da igreja.
Passados três dias sentei-me numa cadeira da sala e ao encher-me de coragem, abri o pacote. Este estava embrulhado na perfeição, com excelente papel e amarrado com um bom fio. Lá dentro encontrei uma dúzia de ovos e uma carta! Ovos? Só podia estar a gozar comigo.
Li a carta. Mas que carta! Julgava eu que já ninguém escrevia assim, nesta era de sms e emails. À mão, com caligrafia inglesa, com caneta de aparo de um azul cativante. Senti-me nas nuvens com o que estava escrito.
Para além de rasgadas desculpas, o “pilha-galinhas”, de seu nome Pedro, alegava que não tinha necessidade económica nenhuma para andar a roubar criação, e que apenas o fazia pela emoção que isso lhe proporcionava. Mas que doentia justificação, pensei.
A missiva terminava com muitos agradecimentos por não o ter morto, e que agora dá outro valor à vida e que largou de vez o vício de adrenalina.
E acrescentou o seu número de telemóvel, dizendo que gostaria muito que eu lhe ligasse.
“- Mas o tipo é completamente doido varrido?” Pensei. Mas parte de mim ficou totalmente alvoroçada. Talvez fosse pela letra, pela educação, pela forma de abordagem ou simplesmente pela sua sinceridade. Fiquei desde logo tentada a enviar-lhe uma sms, mas contive-me a tempo.
“- Se ele estiver mesmo interessado em falar comigo, virá procurar-me outra vez. Eu sou uma mulher séria e não ando atrás de homem algum.” E continuei a minha vida.
Mentira! Ele não me saía da cabeça. Eu tinha de o conhecer pessoalmente. E comecei a engendrar um plano para o efeito. Ia começar a frequentar a feira da outra aldeia para o ver.
De sacola ao tiracolo lá comecei eu a comprar hortaliças e fruta no mercado da aldeia do lado. Mas dado o meu objectivo secreto de o ver, as compras demoravam sempre muito tempo a serem feitas.
Um dia pareceu-me vê-lo de relance, mas para meu grande azar, surgiu de repente um conhecido meu a cumprimentar-me, e quando despachei o “chato”, já tinha perdido de vista o Pedro.
Ele tornou-se uma obsessão para mim. Liguei-me a todos os habitantes da aldeia dele que tivessem Facebook, Instagram ou Whatsapp, no intuito de encontrar alguém amigo dele nas redes sociais. Mas não encontrei nada. Parecia que procurava um fantasma.
Comecei a frequentar todas as actividades possíveis e imaginárias nessa aldeia, e ninguém falava dele. Pensei mesmo que ele se tinha evaporado ou tinha sido engolido pelas entranhas da terra.
As pessoas dessa aldeia ao verem-me lá quase todos os dias, já gozavam comigo e perguntavam-me quando me mudava. E eu, cada vez mais desesperada, aguentava.
Li a carta dele vezes sem conta, à procura de mais pistas que me levassem ao seu paradeiro. Estranhamente ligar para o seu telemóvel ou enviar sms continuava a não ser opção para mim. Que justificação é que teria agora para lhe ligar?
E confesso que muitas vezes romanceei o “nosso primeiro encontro”. Estranhamente considerava que o Carlos era o homem ideal para mim.
E assim se passaram semanas. De grandes esperanças e de maiores frustrações.
Num belo final de tarde, a Berta, de quem nada sabia desde há semanas, entrou em casa minha casa muito contente. Contente demais para o meu gosto, pois sabia que quando ela andava nestes propósitos, coisa boa não era.
“- Mana, estou muito apaixonada!” Disse-me num repente, abraçando-me com força e emoção.
Ao ouvir essa frase, tentei com todas as minhas forças mostrar-lhe uma cara alegre, mas a minha inveja pela felicidade devia ser por demais evidente. 
E sentei-me, de braços cruzados. A Berta, a transbordar de felicidade e totalmente alheia aos meus sentimentos, começou a descrever o modo como se conheceram.
“- Semanas atrás, estava eu na igreja, quando entrou um homem…..”
E ao ouvir essa frase, desfaleci…..
Fiquei assim a saber que na vida temos de seguir os impulsos no momento certo, pois um único instante de hesitação pode ser demasiado tarde. Tarde demais até para arrependimentos.
 FIM