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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Acabou!


A mulher dos meus sonhos, a Tal, e com quem (tão tardiamente) fiz tantos planos para a vida, diz-me, num repente….
- Acabou!
E foi só. Ali ficou, a olhar para mim.
Não apontou razões nem prolongou o discurso. Não era preciso. Senti que tinha decidido e comunicado. E foi só.
Não discuti, não argumentei, não reclamei. Escutei-a e fiquei imóvel. Nem olhei para ela.
Entrei em transe, instantaneamente. Entrei no passado e no futuro ao mesmo tempo.
Senti-me transportado ao passado, recordando imagens e sentimentos de quando nos conhecemos, nos amámos, nos juntámos como um só….
E vi-me no futuro. Sem ela. E era uma sensação horrivel, pesada, demasiado cruel.
A minha expressão não mudou. Não disse nada. Só imaginava o meu futuro. Sem ela.
E foi aí que as lágrimas irromperam. Caíam como grossas gotas de chuva. Mas eu não as senti excepto quando me começaram a molhar as mãos, que prostradas, ali estavam….
Só pensava no meu futuro. Sem ela.
Pela primeira vez desde que falou, olhei para ela, pois num ténue vislumbre, reparei que tinha mudado subtilmente a sua expressão.
Os olhos dela sorriam.
E vi que os olhos dela sorriram um pouco mais ao ler os meus sentimentos.
E as minhas lágrimas continuavam a cair.
Pensamentos difusos e confusos percorriam velozmente a minha cabeça. Estará ela a gozar com o meu sofrimento? Será ela uma pessoa má, afinal?
O seu sorriso a despontar nos cantos dos lábios fez-me desconfiar, mas não ousei assumir que aquilo tudo estava a ser uma brincadeira.
Mas, e se não fosse? E se estivesse a perceber mal? Não podia arriscar.
Percebendo o que se passava, e já com um sorriso mais largo, ela disse:
- Amor, não acabou nada. Nunca vai acabar. Tu sabes que és o homem da minha vida.
- O quê? Questionei sem convicção, só para ela dizer algo mais. Só para ter a certeza absoluta de tudo o que tinha acabado de acontecer.
- É que eu queria saber mesmo o que sentias por mim. E agora tenho a certeza.
Confesso que fiquei alguns minutos a decidir se a beijava ou se a estrafegava, se gritava ou se ficava calado, se ficava ou se me ia embora…..
Abracei-a.
- Amo-te, mulher da minha vida.
- Também te amo, meu homem.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O Nevoeiro


De vez em quando sinto-me envolvido numa grande neblina, que tudo cobre, tudo envolve, não me deixando nada ver para além de um palmo à frente do nariz. E por mais que lhe tente fugir, ela estará sempre por cima de mim. Como um urubu!
Dado que não tenho nenhum farol que me alumie ou que emita sinais sonoros, avisando-me de iminente colisão ou encalhamento, nestas ocasiões não me resta senão viver de acordo com os marinheiros, ou seja, parado, aguardando que as nuvens baixas se dissipem para poder seguir a minha viagem.
Ao longo dos anos tenho aprendido que há sempre uma razão para tudo, há sempre um motivo para que determinada situação se nos depare na vida, mesmo que não desconfiemos qual é. Pelo menos nesse momento. E o nevoeiro não é excepção.
Tenho constatado que mesmo o que parece muito negativo normalmente tem um lado positivo. E não em raras ocasiões em que me deparei com situações desesperantes, e descobri que mais não eram que portas para momentos de paz e, por incrível que pareça, de felicidade.
Assim, e nessa perspectiva de haver um lado positivo no que surge como negativo, o nevoeiro traz-me, por exemplo, a vantagem de impedir que esteja demasiado exposto, escondendo-me do escrutínio público, e de estar permanentemente disponível.
É que se há alturas em que não me importo nada de estar sob os holofotes, outras há que necessito de recolhimento, de introspecção, de maior intimidade. Ciclicamente preciso de pensar na vida, no passado e principalmente no futuro, e no que realmente quero.

O nevoeiro traz-me de volta a mim mesmo….