sexta-feira, 31 de março de 2017

EU SEI - ANDRÉ Capítulo II (2 de 5)


Abracei-o fortemente como manos que fomos e que talvez voltássemos a ser. “André, então, como é que é? Voltaste quando?”, atirei. “Ontem à noite”, respondeu-me no mesmo timbre jovial. “Já estava para vir há uns meses mas a minha mãe ficou pior da gota e fiquei mais uns tempos. Que tal estás tu?
Estivemos à conversa durante um bom bocado, e habilmente não tocámos no tema Lúcia! Mas notei claramente que ele queria muito saber dela.

No fundo ele estava mortinho por saber o que te acontecido ao seu grande amor. Notava nele tal curiosidade que o tornava inquietante. E inquietou-me a mim.
Soube então que inocente André tinha desaparecido de vez. E eu não sabia bem o que lhe tinha sucedido!
Só voltei a ver o André umas semanas mais tarde.
Entrei na florista do bairro e lá estava ele, a comprar um vistoso buquê de rosas vermelhas. O André estava todo janota e catita, e já não me parecia o mesmo do nosso reencontro.
Fiquei mesmo contente de o ver daquela forma, pois a impressão que fiquei dele no outro dia não augurava nada de bom. Só me lembrava dos seus olhos cansados de alma….
Agora não. Os olhos dele estavam radiantes como os de uma criança feliz. Meti-me com ele…. “Quem é a felizarda?
Ele olhou surpreendido por ouvir a minha voz, e disse num tom rápido “Ainda não sei se é ela a felizarda ou se sou eu!”, acompanhado de um sorriso de orelha a orelha. Estava feliz!
Fiquei contente por ele, pois tinha sabido que nos primeiros tempos desde que tinha regressado, André andou completamente obcecado à procura da Lúcia.
O André não tinha sabido nada da Lúcia durante estes anos todos, mas nem por um dia tinha deixado de pensar nela.
Mas ao regressar passou por um calvário para saber alguma coisa dela. Ninguém estava disposto a revelar fosse o que fosse, e o seu desespero crescia dia para dia.

Parecia que toda a gente tinha feito um pacto inquebrável de silêncio!
Mal ele sabia que efectivamente foi isso que aconteceu….
Rapidamente ele passou para o Plano B, e se não conseguia nada através dos contactos pessoais, dedicou-se aos telefónicos.

E assim, recorrendo às agendas antigas, começou a telefonar para toda a gente que podia, tentando resolver o quebra-cabeças.
E foi num desses telefonemas que algo sucedeu. André ligou para um telefone fixo e um jovem atendeu, bastante surpreendido por aquele telefone ter tocado.
André apresentou-se e explicou que pretendia falar com a D. Alzira, mas qual quê, a vetusta senhora estava acamada num lar, pelo que estava a falar com o seu sobrinho Tomás.

(continua)

quarta-feira, 29 de março de 2017

EU SEI - ANDRÉ Capítulo II (1 de 5)


Sempre conheci o André confiante e positivo!
Apesar da sua vida ter sido por vezes madrasta, ele sempre achou que eram apenas momentos um pouco menos felizes, mas que a sorte grande estava ao virar da esquina.
É que mesmo nas situações mais aflitivas ele conseguia manter a calma e a confiança.

Mas centremo-nos na sua vida amorosa....
Sempre o conheci com Lúcia, a sua namorada de longa data. Só que volta não volta, ela desaparecia do radar dele.
E se a Lúcia desaparecia do radar do André, aparecia no sonar do seu melhor amigo, José de seu nome.

Mas o André era o único que não desconfiava de nada. Eu sei que fiz o que me competia, pois avisei-o diversas vezes. Ele confiava nela e pronto. E foi assim até ao fim.
Quando se espalhou que a Lúcia andava com o José, já ninguém mostrou surpresa. Afinal, já se desconfiava fortemente, e alguns afirmavam que já os tinham visto juntos.

Fui ter com o André a casa dele e encontrei-o catatónico, com os olhos parados, raiados de sangue. Aquela situação tinha-lhe batido forte, ainda mais do que imaginava.

A mãe dele fez-me um gesto de “anda para aqui”. Em surdina pediu-me silêncio e eu não falei. Não era preciso.

Triste e revoltado, fui-me embora. Nada podia fazer.
Mãe e filho abalaram para a terra dela, lá para os lados de Mirandela. Afastá-lo daquele ambiente era uma medida sensata, pensei. E nunca mais o vi.
Até hoje!
Estava no café quando o vejo a chegar rua acima.

Tinham-se passado uns oito anos desde que ele partiu, mas por cima dele nem um ano passou, isso posso mesmo garantir.
O André tinha voltado à cidade e tinha-lhe voltado também a confiança e o sorriso fácil e cativante de outrora.
Mas ao observar melhor os seus olhos, como espelhos de alma que são, vi sem surpresa que a sua inocência e esperança tinham desaparecido.

As agruras da vida modificam as pessoas, e André não era excepção.

Mas gostei que ele tivesse voltado! Faltava era saber a razão do seu regresso.....
(continua)

segunda-feira, 27 de março de 2017

EU SEU - IVO Capítulo I (8 de 8)


Vocês sabem. O que é inevitável acaba sempre por acontecer!
Eu e a Andreia começámos a sair novamente, os tios regressaram a casa deles, e a coisa estava a compor-se. Mas ai do homem que julga que uma mulher se esquece de alguma coisa. Está desgraçado. E eu estava desgraçado em dose dupla, e nem sequer sabia.
Como se estivessem combinadas, no mesmo dia a Sónia perguntou-me “E a tua amiga? Quando é que eu a conheço?”, e poucas horas depois a Andreia perguntou-me “E quando é que me apresentas a tua ex?”. É que eu já não me lembrava de nada. Juro!
Deixei passar. Burro!
As duas, ao notarem o meu silêncio, apertaram o cerco. E eu farto de estar tanto em casa como no trabalho a ouvir o mesmo, disparei para as duas ao mesmo tempo uma sms: “Sábado ao jantar. Pode ser?
Não é que as duas me enviaram o mesmo como resposta? Um Smile. Um desgraçado de um boneco amarelo sorridente!
Sim. E é verdade que fiquei Amarelo ao ver o boneco, e se tinha um sorriso na face, era bem amarelo. Mas no fundo concordo. O Smile era mesmo muito apropriado para esta ocasião.
Disse logo para mim que ali havia história! Mas também podia ser a minha mania da perseguição a manifestar-se....
Claro que era a minha mania de perseguição a funcionar. Mas ela já me tinha alertado bastas vezes e com razão. Mas por vezes não lhe ligava pevide.
E se tinha enviado a sms na quarta-feira, dei por mim sábado de manhã sem ter nada pensado nem preparado. As duas donzelas eram minhas convidadas e eu tinha de fazer tudo (mesmo tudo). E nem sequer ideia do que ia cozinhar (ou comprar feito).
Confesso que fiquei nervoso. A Sónia andava por casa mais que meio despida, e pelos olhares dela só assim estava para me provocar, mesmo para eu lhe dizer “Mas tu não te vais vestir? Queres que a moça chegue e te veja nesses preparos?” Resisti ao máximo e só lhe disse isso umas três ou quatro vezes!
E ela, feita dondoca, sentava-se no sofá dizendo “Já vou…”.
Foi só ao cair da noite que a campainha tocou, e eu e a Sónia já estávamos todos aperaltados, e fui logo acender as velas. E depois abrir a porta.
E não era a Andreia!
Era um tipo todo cheiroso e bem vestido, com um enorme ramo de flores na mão, a perguntar se ali era a casa da Sónia. Disse que sim e ao avistar a Sónia, esgueira-se e entra em minha casa, sob o meu mais atónito olhar.
Vou à sala e vejo que em vez dos três lugares na mesa que tinha tido tanto esmero em arranjar, estava colocado mais um!
De súbito a Sónia agarra-me os ombros por detrás e diz baixinho “Surpresa”.
E antes que pudesse pensar, agir ou dizer algo, a campainha toca novamente, e nesse instante juro que pensei no logo livro “O Hobbit”, na cena em que o Bilbo recebe sucessivas visitas de inúmeros anões.
Mas para meu grande alívio, desta vez era mesmo a Andreia.
Abracei-a carinhosamente e disse-lhe ao ouvido “A Sónia trouxe um tipo que deve ser o namorado dela. Eu não sabia de nada e ainda nem mo apresentou”.
Ao que ela me respondeu, também ao ouvido...
- Eu sei…

fim do capítulo I
(continua)

sexta-feira, 24 de março de 2017

EU SEI - IVO Capítulo I (7 de 8)


A resposta não podia ser mais directa: “Pois, mas eu agora já não confio em ti!
Bem-feita para mim, pois nunca lhe tinha falado da Sónia, com medo de me descaír da nossa situação de coabitação deveras sui generis.
Sabem, foi nesse preciso momento que deixei de considerar a Andreia uma mulher ultra mega fantástica!
Estando os dois a trabalhar na mesma empresa, nesses dias ela evitou-me, olhando para o lado quando nos cruzavamos nos corredores.
E rapidamente comecei a sentir que os meus colegas só falavam comigo em circunstâncias essencialmente laborais, não pessoais.
E eu sei a razão! É que a Andreia tem muitas pessoas que gostam dela na empresa, pois ela muito dada, simpática, prestável, apaixonada pela vida. E eu não sou nada disso.
Sisudo e fechado no ambiente laboral, eu sou a sua antítese.
Soube depois que ela tinha espalhado que eu a andava a enganar com a minha ex-namorada, que nós ainda vivíamos juntos, e que eu era apenas um mero “caso”, talvez até com o consentimento da Sónia.
Ao ouvir esta história da boca de um colega, pensei “Ridículo”, mas confesso que se não fosse o protagonista, diria que era perfeitamente plausível.
Então, pondo de parte o orgulho ferido, fui ter com a Andreia num final de dia, à sala dela. Ao ver-me, ela levantou a mão e fez sinal para me afastar, sem se dignar olhar para mim.
À frente dela, vendo essa reacção, não vi mais nenhuma forma de comunicar do que lhe enviar uma mensagem pelo telemóvel: “Vamos os dois ter com a minha ex, e podes ver pelos teus próprios olhos que não temos nada um com o outro
Sabia dos riscos. A Andreia não ia aceitar, ficaria ainda mais ofendida e eu iria perdê-la para todo o sempre. E perder dois amores num espaço de tempo tão curto parecia-me demais.
Vi que ela estava a ler a mensagem e não lhe vi nenhuma reação....

Estava eu então a preparar para ir me embora quando a Andreia levanta a cabeça e diz num tom rápido como se não estivesse a ligar nada ao assunto “E então quando queres combinar?

Nessa altura eu já estava morto de arrependimento por ter feito tal proposta.
Pode ser para a semana?” atirei, com um sorriso muito mas muito amarelo. Sinceramente não consegui que a minha expressão saísse melhor.
E saí porta fora, pois precisava de apanhar ar rapidamente....
É que não me sentia nada confortável com esta situação. E o pior é sabia que elas ias começar a falar! E como....

(continua)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Cápsula do Tempo


Adoro o conceito de Cápsula do Tempo!

A perspectiva de guardar propositadamente algo que só irá ser visto anos mais tarde, por mim ou por outrem entusiasma-me. E estou a planear o que irei fazer nesse sentido.

Já tenho em casa algumas cápsulas do tempo, na forma de garrafas de vinho. São autênticas cápsulas do tempo bebíveis, transpondo algo do ano em que foi produzido o vinho para o momento em que foi consumido. Não comento resultados. Experimentem.

Por vezes deparo-me com outras cápsulas do tempo, resultantes de arrumações ou de esquecimento, e são quase sempre acompanhadas por uma emoção forte ao lembrar-me das situações e pessoas envolvidas, que resultaram em momentos únicos e irrepetíveis….

Dadas as verdadeiras cápsulas demorarem muito tempo a ganharem algum significado, e por não ter certeza de que serei eu a abri-las, resolvi fazer batota, aldrabando o conceito!

Assim, escolho um ano e colecto fotos e ideias vigentes dessa época, acresço ou não algo meu e crio uma (falsa) cápsula do tempo. A emoção seguramente não é a mesma, mas a aprendizagem sobre essa altura aumenta muito. E por vezes uma ou outra surpresa!

Mostro, como exemplo, a Cápsula do Tempo (falsa) do Ano 1997.

Nesse ano o Presidente dos Estados Unidos era um tal de Bill Clinton, acabou oficialmente o Império Britânico, e morreu a Princesa Diana Gianni Versace.

Nokia apresentou o seu novo modelo de telemóvel, o inovador 1611...


Michael Jackson teve um filho nesse ano. Mas o que se destaca mais na é mesmo a expressão da mãe da criança. Mas aconselho a não olharem muito fixamente para a fotografia não terem insónias!


Donald Trump nesse ano decerto não imaginava o que seria hoje (mas o cabelo dele estava igualmente muito parvo).


Brad Pitt tinha mesmo cara de puto…. e nessa altura nem pensava na Angelina.


Nesse ano estreou-se o filme TITANIC....



… e na maioria dos computadores pessoais corria o mítico WINDOWS 95!


Mas se pensam que tudo mudou desde essa altura, enganem-se, pois nesse ano, os Globos de Ouro para Melhor Apresentador foram:

De Informação | José Rodrigues dos Santos

De Entretenimento | Herman José

quarta-feira, 22 de março de 2017

EU SEI - IVO Capítulo I (6 de 8)


Nessa noite, quase a cerrar os olhos pesados de sono, dei-me conta de estar a pensar no episódio. E sorri.
Sorri verdadeiramente, pela primeira vez em meses! E sorri ainda mais por isso. Adorei aquele olhar. Queria mais!
No fundo sempre soube que não tinha vocação nenhuma para ser Frade!
Eu estava vivo e bem vivo e sabia agora que a Sónia não era a última batata do pacote. Longe disso.
No entanto chegava-me aos ouvidos que a Sónia andava a cair nas graças de todos os disponíveis das redondezas, mas sem cair nos braços de nenhum.
Rapariga Esperta!
Entretanto eu já tinha saído várias vezes com a Andreia (a tal colega dos olhares). E estava já caidinho por ela. E julgo que ela está caidinha por mim.
Rapaz Estúpido!
Sem sequer desconfiar que a Sónia sonhava que eu estava com um “caso”, andei a recuperar o tempo perdido com a batina.
A Andreia era uma mulher fantástica, achava eu, e nem sei como, mas por vezes até já nem me lembrava da Sónia.
Mas quando eu (e com alguma frequência), comecei a chegar a casa mais tarde que a Sónia, um dia fingindo apenas estar a ver televisão, atirou-me, “Então, eu conheço a moça?
Um friozinho percorreu-me a espinha de cima a baixo. “Do que estás a falar?” respondi.

Mas com tanto engolir em seco nem sequer eu acreditava em mim próprio, quanto mais uma mulher esperta como a Sónia.
Ela riu-se da minha atrapalhação. Mas foi um riso estranho, forçado.

Eu, sentindo esse engasgar, encarei-a e disse “Noto algo diferente em ti. Serão ciúmes? Estás incomodada, Sónia? Estás?
Ela nem se me dignou a responder, e levantando-se do sofá foi para o seu quarto, batendo a porta.
Eu sorria, triunfante. Triunfante e Estúpido!
Eu e a Andreia volta não volta iamos para casa dela aos finais de tarde.

Um dia a Andreia disse-me que os tios dela vinham passar uns dias à casa dela, e por isso os nossos encontros de final de tarde tinham de ser noutro local… Sim, adivinharam, para minha casa!
A minha mente disparou logo. Ou dizia que sim e depois arranjava uma desculpa qualquer à última da hora, ou dizia logo a verdade. Foi o que fiz....
A Andreia primeiro ficou calada. Depois recuou e olhou para mim. Depois..... Explodiu!
Mas tu julgas que eu como gelados com a testa, Ivo?” gritou. “Tu vives mesmo na mesma casa com a tua ex?” perguntou incrédula.
“Diz-me, se eu estivesse a viver na mesma casa com um meu ex, o que pensarias tu, parvo de merda?”, explodiu, encarando-me com os olhos bem abertos.
Timidamente, respondi num tom que não enganava ninguém.... “Não, não pensaria nada de mal. É que eu confio em ti. Certo?”.
Errado. Não devia mesmo ter ido por esse caminho....

(continua)

segunda-feira, 20 de março de 2017

EU SEI - IVO Capítulo I (5 de 8)


Mas se a Sónia fazia vida de solteira, saindo livremente, eu fazia vida era de Monge, só fazendo o trajecto trabalho casa e casa trabalho. E se ela rejuvenescia, eu definhava a olhos vistos!
Passou algum tempo. Sinceramente nem dei pelo tempo a passar, pois os dias e as semanas sucedem-se a um ritmo galopante.
Está cada vez mais quente, convidando a sair de casa. Ou em casa a andar mais despido…… Hum....Isto promete!
Nessa altura a Sónia raramente passava um fim-de-semana em casa. E mesmo durante a semana por vezes não passava lá o serão....
E eu? Mantinha hábitos semelhantes aos Monges Franciscanos. Só faltava mesmo aprender Canto Gregoriano!
Já andava muito desconfiado que a Sónia tinha um "arranjinho", pois quando estava quase sempre à mesma hora tocava o telemóvel, e ela tratava logo de se fechar no quarto, escapando por vezes o ruido (delicioso) das gargalhadas dela.
E eu? Colocava uns headphones e ouvia Linkin Park até me ficar a doer a cabeça!
Desde o principio houve um acordo (tácito) de não levarmos ninguém lá para casa. Nunca o verbalizamos mas era óbvio que era isso que ambos queríamos. Amigos eram frequentes lá em casa. Mais que amigos, não.
Confesso que quando a Sónia teve “a conversa” comigo, julgava que se tinha apaixonado por outra pessoa, e que mais cedo ou mais tarde iriam viver juntos e ela sairia lá de casa.
Aparentemente não foi isso que aconteceu. E estranhamente essa situação deixou-me irritado durante bastante tempo, pois uma coisa é ser trocado por outro homem, outra bem diferente é ser trocado por coisa nenhuma!
Se os sentimentos da Sónia por mim era um caso arrumado, já os meus por ela teimavam em não esmorecer, dando razão ao velho ditado “longe da vista, longe do coração”. É que a via quase todos os dias! E como “o fruto proibido é o mais apetecido”…..isto prometia eternizar-se.
Um dia por puro acaso reparei no olhar atento de uma jovem colega. Ela apercebeu-se que tinha notado que eu era o centro da sua atenção, e mudou.
Mudou de olhar atento para…. o de despir completamente o hábito de Frade Franciscano.
Eu fiquei verdadeiramente escandalizado. Afinal, já quase que me sentia um Homem Santo!
Eu acredito que deve haver algures uma lei que proíba as mulheres giras como aquela, de lançarem olhares pecaminosos a homens que escolheram a via do celibato. Ou coisa parecida....
Apesar disso devia ser pecado, caramba. E dos bem grandes!

(continua)

quarta-feira, 15 de março de 2017

EU SEI - IVO Capítulo I (4 de 8)


Depois destas fases completamente ridículas, baseadas no sentimento, voltei-me para as questões práticas. E passei a observar as coisas à minha volta com mais atenção...
A Sónia, compreendi depois, já tinha passado a fase das questões sentimentais há meses, senão há anos. E assim teve mais que tempo para pensar nas tais questões práticas. E apareceu-me com a solução do partilharmos a casa mas não a cama. Só o espaço e as despesas. Mais nada.
Pelo que ambos sabíamos um do outro, nenhum dos dois tinha quaisquer hipóteses a nível económico e financeira de ficar com a casa sozinho. E pelo valor que cada um pagava por mês ao banco, nem um quarto alugava nas redondezas. E como voltar para casa dos respectivos progenitores estava fora de hipótese....
A Sónia propôs-me que mantivéssemos a fachada de casal maravilha que sempre fomos, excepto para um punhado de amigas dela, que alegadamente já sabia dos “nossos graves problemas conjugais”, e para as quais já não adiantava esconder nada, pois “soaria a estranho!”. Nem queria acreditar no que estava a ouvir!
Assim, os nossos pais continuariam a vir almoçar connosco, e tudo decorreria como até ali. No fundo, passaríamos a ser dois bons amigos, a partilhar casa. Tudo simples e civilizado. Dentro do fingimento, claro.
No fundo ela já tinha previsto e planeado tudo. E para cada questão minha dava uma resposta pronta, mesmo na ponta da língua. Língua de víbora, evidentemente, pois andou a orquestrar tudo durante meses sem me dar qualquer pista. E sem me dar qualquer oportunidade de a reconquistar.
Por fim aceitei o plano dela, mas com muitas reticências. No fundo não queria sair de casa (nem da vida dela). Mas com isto tudo tinha-me tornado num homem desconfiado. Muito desconfiado.
Os dias que se seguiram foram de um reajustamento brutal….
Vocês conseguem sequer imaginar o sofrimento que é estarem a viver na mesma casa com a pessoa que amam, sabendo que não lhe podem sequer tocar? Que dormem em quartos separados. Que as conversas estão limitadas às de “Amigo”?
Mas apesar do que tinha combinado, na primeira vez que a minha mãe veio almoçar cá a casa, a Sónia arranjou uma saída de última hora, inadiável e muito importante. Anotei.
Homens, a sério, não tentem enganar mulheres. A sério, deixem-se disso. É impossível!
À minha mãe bastou pôr os seus olhos sagazes em cima de mim para descobrir logo a verdade. E só perguntou “Porque é que não me disseste nada?” 
Eu encolhi os ombros, fazendo um trejeito com a boca. E nenhum de nós dois voltou a tocar no assunto. Não era preciso....
Os dias seguintes decorreram dentro da normalidade anormal em que estávamos.
Ela assumiu que morava com um amigo que por acaso era o ex-namorado, e voltou a fazer tudo o que fazia antes de me conhecer. E se me controlava, fazia-o de uma forma muito, mas mesmo muito subtil.
Já os meus dias eram mais complicados. Não tinha forma de estabilizar. Por isso ou ficava muito mais tempo no trabalho porque não tinha vontade de ir para casa, ou se batiam forte as saudades ia para casa a correr mal terminava a jornada de trabalho.

(continua)

domingo, 12 de março de 2017

EU SEI - IVO Capítulo I (3 de 8)


Ela tinha saído da sala triunfantemente, deixando-me humilhado, zangado, entre outros sentimentos.
Reparei que todas as palavras terminadas em “do” me serviam como uma luva, naquele momento.
Os meus olhos estavam quase a saltar das orbitas! Senti-me com um pico de testosterona e como uma mola estava pronto para saltar para o terreiro da discussão quando a mão do meu anjo particular se colocou no meu ombro, dizendo “Não adianta. Agora não”.
Ele tinha razão. A batalha tinha terminado com a minha total e completa derrota!
Agora era tempo de limpar as feridas num qualquer canto. E limpar as armas.
É que as próximas batalhas iriam ser decisivas, e eu estava em clara desvantagem, pois tinha sido apanhado desprevenido.
A Sónia tinha tudo planeado. Assim, transformou o “nosso quarto” no “meu quarto”, tendo-se mudado para outra divisão. Evitou desta forma que dialogássemos sobre este assunto. Mais um ponto para ela.
Tinha então de fazer algo para me adiantar a ela, mas nem sabia o quê. Estava completamente desorientado.
O problema das relações é mesmo este. Quando estamos sozinhos dependemos de nós mesmos, e sabemo-lo. E quando surge alguém distribuímos as tarefas, resultando numa poupança de tempo e de recursos.
Quando o casal se desfaz, a maior dificuldade é mesmo recomeçar de novo.
E boa parte das pessoas fica tão habituada a contar com o outro que quando este lhe falta, faz-lhe mesmo falta. E impede-as de seguir em frente.
Algumas vezes nem é o Amor, nem a companhia, pois muitas vezes é inexistente. É mesmo o facto de se ter habituado a depender do outro que mais custa!
Em alguns casos a interdependência é tão grande que deixam-se ficar os dois na relação. Para sempre. E muitas vezes nem se suportando.
Sabem o percurso do Choque? Tive as fases todas!
Comecei com a Negação, “ela está a gozar com a minha cara. Deve ser um aviso para marcar a data do casamento”, à Revolta porquê a mim?” até à Negociaçãoquanto queres para me voltares a amar?”. Todas!

(continua)

quinta-feira, 9 de março de 2017

EU SEI - IVO Capítulo I (2 de 8)


O tempo gelou naquele preciso momento!
A Terra deve ter ficado parada durante uns bons segundos. Pelo menos a mim pareceu-me. A minha cara devia ter ficado com uma expressão engraçada, pois ela, mesmo tentando não o fazer, fê-lo: Sorriu.
Uma vaga de sentimentos estava a assolar-me, carregando-me os ombros, que notoriamente baixaram sob o enorme peso.
Entre o que devia e o que me apetecia fazer e dizer a distância era ínfima.
Tanto me apetecia deixar-me cair e ajoelhar-me de dor como fez o ex-treinador do Benfica Jorge Jesus no Estádio do Dragão, quando o Kelvin marcou o tal golo, como apertar-lhe o pescoço pelo sorriso irónico.
O meu diabinho particular lembrou-me que segundo o Tribunal de Relação de Évora apertar o gasganete não é considerada violência doméstica. Mas sinceramente, apesar da provocação do sorriso, não me apetecia mesmo nada tocar-lhe.
E como me repugnava sequer pensar em tocar-lhe!
Balbuciei então algo tão ininteligível, que ainda bem que ela não ouviu, pois entretanto tinha voltado à carga, retomando o discurso.

É que aquela desgraçada ainda tinha mais para me dizer!
Sentei-me. Podia ser que assim ela não reparasse que as minhas pernas tremiam como varas verdes. Sou tão parvo.
Pus-me a pensar que se há anos atrás as relações muitas vezes construíam-se por interesse de ambas as partes, agora estão completa e irremediavelmente assentes no Amor....
E assim sendo, quando algum membro do casal anuncia que já não ama o outro, a única via possível é cada um seguir a sua vida. E é assim a vida.
A conversa subsequente já não me interessava. Estava feita. Sou um homem prático. Já nem a ouvia e nem a suportava ouvir.
Ela continuou a falar como se me quisesse ensinar algo, e só despertei dos meus próprios pensamentos quando me estalou os dedos à frente da cara num ofensivo “Está aí alguém? Alô. Acorda”.
Afastei-lhe a mão com cara de muito poucos amigos, e lancei-lhe “Mas resumindo, afinal quando é que te vais embora?

Ao que ela respondeu com um grito “EU?”, e gargalhou.

Eu não vou para lado nenhum. Tu é que vais, se quiseres”. E levantou-se. Aí sim, a conversa tinha terminado!
E eu? Eu estava lixado com todas as letras maiúsculas! Todas juntas.

(continua)

segunda-feira, 6 de março de 2017

EU SEI - IVO Capítulo I (1 de 8)


Cheguei a casa e ao vê-la atirei-lhe um “Olá Amor, hoje chegaste cedo”, ao que ela me responde com um “Sim, cheguei”, polido, educado e um tanto ou quanto frio. E sem me olhar uma única vez, desapareceu na cozinha.
Estava ainda a tirar as coisas dos bolsos, preparando para a cumprimentar devidamente, quando ouço a sua voz sem a ver “Olha, senta-te que temos de falar”. Mais uma vez aquela voz polida, educada, um tanto ou quanto fria.
Dizem que os homens não são sensitivos. Concordo com essa afirmação. Pelo menos não são como as mulheres. Os homens desenvolvem-se sem se preocuparem com a minucia das expressões faciais, corporais e vocais.
Mas mesmo o mais empedernido dos homens sabe o que pode querer dizer a expressão “Temos de falar” da boca de uma mulher. Ou pelo menos tem a obrigação de saber.
Sabem aquele sentimento que nos impede de “obedecer” ao que os outros nos dizem, quando achamos que algo está mal? Foi o que me aconteceu. Fiquei em pé, de braços cruzados, à espera.
Ela veio para a sala. Um pouco ansiosa. Disse-me gentilmente para me sentar, e quase estalou a fina superfície de um fraco verniz que trazia por cima de si quando me recusei. Vi que tinha toda a conversa pensada e treinada, inclusive onde estaríamos sentados.
Por momentos senti-me um “puto reguila”, mas já que tomei essa posição, mais valia mantê-la. Ceder seria pior, agora.
Como sabes, estamos juntos há cinco anos”, começou ela, num tom que já parecia de retrospectiva, “e deixámos as coisas arrastarem-se tempo demasiado…”.
De súbito, compreendi onde ela queria chegar com esta conversa tão solene! Que estamos juntos há tanto tempo que e nunca mais marcámos a data do casamento.
Era óbvio. Sempre nos quisemos casar, mas por alguma razão nunca mais nos decidimos. E há algum tempo deixámos de tocar no assunto. Sei que na última vez fui eu que toquei no assunto. E lembro-me que ela fugiu ao tema….
Os meus olhos começaram a brilhar e os meus braços começaram a descruzar-se para falar e dizer que marcamos já a data, quando ela, compreendendo que eu não estava a compreender nada, disse num tom apressado:

- Ivo, eu já não te amo!
(continua)