segunda-feira, 2 de maio de 2016

O Cata-Vento



Hoje venho prestar uma justa e sentida homenagem a um dos maiores esteios da nossa sociedade: o Cata-Vento, campeão da maioria silenciosa!

A sua maior qualidade é a de mudar de ideias, ideais e de opiniões conforme a direcção do vento, ou melhor dizendo, das posições das pessoas que com se cruza.

E consegue executar essa brilhante dança contorcionista várias vezes ao dia, e sem nunca perder a face!

Com este posicionamento (muito manhoso por sinal) pretende garantir presença no grupo que considera mais numeroso e mais influente, no momento...

Por vezes dá-se ao luxo de participar activamente nas iniciativas, como se realmente tivesse mesmo convicções. Assim, se todos vão para a rua gritar, ele berra. Se todos se calam, nada diz.

O pior é quando lhe pedem a sua opinião.
Aí ri-se de nervoso, fica vermelho como pimentão, as palavras recusam-se a brotar da garganta e em desespero olha para todos os lados para ver se aparece alguém para o safar desse aperto - o que raramente acontece porque os cata-ventos costumam andar como rebanho sem pastor.

Por vezes rodeia-se de amigos que são os maiores machistas que Deus já pôs na Terra, e estes dizem sempre pérolas tipo "as mulheres são feitas de barro de segunda" e "deveriam andar açaimadas para não dizerem tantos disparates".
E ele acena com a cabeça em plena concordância, qual boneco que enfeitava a parte de trás dos automóveis do antigamente.

Mas no recato do lar e na presença da “sua senhora”, pia fino e fica sereno, pois sabe o risco que corre, e dormir no tapete é mal menor pois até já conhece bem o cheirinho do pó rente ao chão.

É que o seu pior receio é o de sentir, uma vez mais, o sabor da madeira amarga do rolo da massa… e isso acontece quando a sua opinião do momento não é inteiramente coincidente com a da sua “patroa”… e por aí sopram ventos tempestuosos!

Mas apesar de tudo o Cata-Vento é extremamente feliz consigo próprio, pois passar uma vida inteira sem tomar qualquer posição ou decisão de vulto é-lhe de um alívio inimaginável.

Mas o ponto alto é quando se aproximam eleições. Ele vai acompanhando as sondagens, apoia e vota invariavelmente em quem vai à frente, e deste modo “vence” todos os escrutínios, festejando rijamente o seu grande sucesso pessoal!

Por estas e por outras é que o considero um dos grandes pilares da nossa sociedade (democrática), pois ironicamente é ele que tudo decide…. sem nada decidir!