segunda-feira, 16 de maio de 2016

Oh Madalena!


A sensação martelava-lhe a cabeça há semanas, e por causa disso andava completa e irremediavelmente passado!

A dor que isso lhe causava era grande demais, até para ele, batido na vida e na má-vida da grande cidade e arredores.

Sim, caramba, até mesmo para ele, que julgava já ter passado por tudo e mais um par de botas, e que sempre se sentiu capaz de enfrentar este mundo e o outro. Menos isto!

É que tinha a sensação que a sua mulher, a sua musa, o grande amor da sua vida, tinha outro homem!

Os indícios andavam lá há mais tempo que o tempo lhe poderia contar. Mas como acontece amiúde, o que os olhos viam o cérebro não queria ver!

E nesta sua cegueira mental ia aguentando mais uma hora, mais um dia, mais uma semana de negação, de sofrimento…. até chegar à perfeita agonia em que se encontrava.

A ideia que a Madalena, a sua Madalena, andava com outro tipo, ressoava forte na sua caixa de pirulitos….

Só essa simples ideia o repugnava atrozmente. Se bem que ultimamente ele lhe fosse tudo menos fiel, a perspectiva da sua Madalena pagar-lhe da mesma moeda deixava-o sem pinga de sangue.

Já se conheceram tarde, e não na noite, através de amigos em comum. Um verdadeiro clássico! Jantar a quatro, vinho tinto, risos e sorrisos….

E na opinião de quem os juntou a relação tinha tudo para dar certo. E tinham.

Ela tinha medo de finar-se numa relação de conveniência, com alguém que nada lhe dizia… e ele queria alguém que ficasse na sua cama pelo menos três noites seguidas….ou seja, um recorde absoluto!

Ela ansiava por alguém experiente de vida e não só, que lhe desse luta, adrenalina, paixão. Um homem experiente que a ensinasse a viver a vida e não um pateta qualquer que depressa desprezaria.

Ele queria amar verdadeiramente alguém, que lhe desse estabilidade emocional, e que fosse bonita e fogosa. Mas no íntimo que lhe pudesse dar alguma da liberdade a que estava habituado, mas com regras rígidas, senão, já sabia, abusaria.

Depois de se conhecerem nunca mais se largaram como se a sobrevivência de ambos dependesse disso. Estavam apaixonados um pelo outro e nada mais contava.

Nessa altura o mundo poderia começar a girar ao contrário que eles nem se aperceberiam.

Ele largou as noitadas, os copos e as amigas e ela o Facebook e as novelas. E viveram felizes para sempre….

Mas para ele a palavra “sempre” significava uns seis meses. E para ela significava a eternidade e mais além!

Vistas bem as coisas, até correu tudo muito bem!

Durante bastante tempo saíram sempre só os dois, juntos, juntinhos. Jantares românticos, escapadelas cheias de amor, juras de amor eterno, convívios com as famílias, datas festivas.

Eram dois sonhos unidos numa única realidade!

Mas mesmo os sonhos mais felizes tendem a esfumar-se perante certas realidades….

Ambos sabiam que ele era um lobo, um feroz predador da noite, e que o disfarce de ovelha só lhe iria servir por uns tempos….

Depressa veio o menu típico do chegar tarde do trabalho, do ir ao ginásio todos os fins-de-semana, de ter dois telemóveis, sendo o outro “só para o trabalho”.

Mas mulher que é mulher não se fecha nos seus problemas, e foi aconselhar-se com uma sua prima que já tinha travado batalhas daquelas.

E “na Guerra e no Amor vale tudo”, tinha ouvido dizer. E a Madalena foi à luta!

Era o jogo do gato e do rato. Das certezas e das negações. Do “amo-te muito” e do “odeio-te tanto”. Mas sempre juntos, amantes e  casal. Até agora. Até a Madalena ter arranjado outro homem.

“A Madalena tem outro homem? Impossível! Tens a certeza, meu? Estás a brincar. A Madalena? Ela ama-te, meu. Ela ama-te!”

“Só podes estar a brincar. A minha irmã não é dessas, se bem que tu sabes que já mereces um belo par daqueles.”

“Eu tenho outro homem? Eu? Mas tu és estúpido ou quê? Agora inventaste isto para te safares do que andas a fazer, e à vista de todos? Anormal. Julgas que sou como tu?”

Desesperado e confuso, descobriu que nada do que tinha aprendido na sua experiência de vida o podia ajudar.

A ideia de não ter nunca mais a sua Madalena aterrorizava-o. Ela afinal representava muito mais do que sequer ele podia imaginar.

A Madalena era a sua rocha, a sua âncora, a sua casa, a sua família. Ela era ele. Ela era dele. Até agora.

Do alto da sua auto-estima, do seu pedestal, nunca lhe tinha ocorrido que o amor era um sentimento tramado. E com duas faces bem distintas…..

 “Oh Madalena. O que é que me foste fazer?”

“Oh Madalena. O que é que eu fui fazer?”

“Oh Madalena…..”