segunda-feira, 13 de julho de 2015

Velocidade Furiosa 0:O Ínicio


A "nossa" Terra gira sobre o seu próprio eixo à velocidade de 1.700 quilómetros por hora (movimento de rotação); gira ao redor do Sol à velocidade de 107.266 quilómetros por hora (movimento de translação) e gira à volta do centro da Via Láctea à velocidade de 1.000.000 quilómetros por hora.

Sempre me interroguei porque raio não sentimos essas velocidades todas (especialmente a rotação), mas a explicação cientifica para esse facto é simples: quando a velocidade é constante (sem aceleração ou desacelaração) só seria possível perceber o movimento se olhassemos para um referencial externo parado, ou que se movimentasse a uma velocidade diferente. Esse fenómeno poderia ser observado nas estrelas, mas como elas se situam todas muito longe, esse efeito perde-se.

Estamos todos, portando, numa nave espacial redondinha, apenas achatadinha nos polos, a viajar a uma velocidade brutal, e não me parece que:
  • O condutor (caso exista e tenho dúvidas sobre isso) tenha carta de condução dentro da validade
  •  Exista sistema de travagem em caso de necessidade
  • Que saibamos para onde vamos
  • Que haja necessidade de tanta pressa


Comparemos então esta velocidade (Velocidade Furiosa 0: O Ínicio, por exemplo) com outras situações. Como a nossa Vida. Sentimos sua velocidade?

Sim, respondemos em unissono. Sentimos e muito. E porquê? Mais uma vez há uma explicação cientifica:
  • Porque a velocidade da nossa Vida não é constante: ou está parada paradinha ou de repente começa a mover-se a uma velocidade vertiginosa, muitas vezes nem sabemos porquê, nem para onde vai
  • Porque conseguimos ver a velocidade dos outros em relação à nossa (e olhando para o nosso Facebook, há sempre alguém que está a fazer alguma coisa que adoramos, ou num lugar paradisíaco, ou seja, está a andar muito depressa em relação a nós

É assim a Vida…. resta desejar a todos uma excelente continuação de viagem

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Estrelas e Escorpiões


Num impulso, um pequeno escorpião percorreu uns metros, afastando-se de mim. Observo-o pelo canto do olho. Era negro e tinha o seu espigão levantado. Se não soubesse ser impossível, diria que ele estava assustado. De certeza que esteve a observar-me, pois para ele sou um bicho estranho e grande, que tinha invadido o seu território.

Ignoro-o por uns momentos. No frio da noite, e perante o tremular das chamas da minha pequena fogueira, tudo fica aos meus olhos irreal, excepto as estrelas.
Deito-me de costas na areia. O céu subjugava-me com a sua imensidade de pontos estrelados, de diferentes cores, tamanhos e luminosidades. Por vezes, como se não bastasse já o magnifico espectáculo presente, estrelas cadentes atravessam o meu campo visual. Tento mas não consigo saber a razão por nunca mais me ter maravilhado com este espectáculo. A não ser viver numa cidade cheia de luzes e de prédios, onde, mesmo que olhe para o céu, não vejo as estrelas: Não como as vejo aqui.
Fecho os olhos por momentos mas as estrelas continuam numa dança íntima e sensual em fundo aveludado. O meu corpo parece flutuar e subir, em direcção ao abismo luminoso, adoptando posições de flor de Lotus ou de Esfinge. Percorro o Universo em pensamento, maravilhando-me com os seus mistérios.
Quando retorno à Terra vejo o meu querido escorpião negro a olhar para mim, curioso, como a questionar-me “Então gigante, ainda não te foste embora?”Sento-me. Não sinto repulsa nem medo daquele escorpião. É estranho, porque sempre foi esse o meu sentimento perante este tipo de animal. Mas não com aquele e não sei dizer porquê. Talvez porque ainda estou sob o efeito da beleza do espectáculo proporcionado pelas estrelas. Talvez por ele ser a minha única companhia.
Os escorpiões são destituídos de medo, excepto talvez, do fogo. E pouco mais se sabe deles, a não ser que são tão velhos como o mar, das mais antigas espécies a vogar neste Mundo, como se fossem fósseis vivos. Tenho a certeza que quando o último Homem cair, ainda cá andarão escorpiões. A olhar pelas Estrelas.


terça-feira, 7 de julho de 2015

Bistek e o Raio de Sol


Numa sereníssima manhã de Outono, estando o gato da casa deitado no parapeito da janela do escritório, chegou de mansinho um raio de sol afoito, que quebrando as regras desse período chuvoso, resolveu entrar nesse mundo estranho.
Sem mover um único músculo, Bistek, o tal gato da casa, abriu um olho, apenas um, que era mais do que suficiente para se inteirar de que a ordem por ele estabelecida na divisão se mantinha respeitada.
Nada se passava, excepto a entrada do raio de sol, que liberto das suas amarras maternas, se entretinha numa juvenil e solitária dança, com voltas e piruetas, rodopios para um lado e para o outro.
Bistek estava agora com os dois olhos abertos. A cabeça pendia ligeiramente para a frente, plenamente absorto e interessado na frenética dança. Não parecia pronto a saltar para o parar, mas antes estava surpreendido pela ousadia daquele raio de sol. Mexeu as orelhas, em busca de um qualquer som. Nada. O visitante, apesar de contente, não falava nem cantava. Pior, mesmo com essa actividade física extenuante, não mostrava sinais de respiração ofegante. Bistek estava agora plenamente interessado. O corpo estava retesado, como uma mola pronta a saltar, as garras traseiras tocavam levemente o parapeito, prontas para o salto. O coração bombeava a adrenalina resultante da excitação do momento.
O raio de sol estava longe de saber das intenções de Bistek. Gozava a sua liberdade merecida após séculos incontáveis dentro da Mãe Sol. Lá, na sua casa, apenas havia um calor infernal e nunca se passava nada de extraordinário nesse mundo de raios vibrantes. Por isso, quando permitiram a sua visita à Terra, o seu rosto iluminou-se de felicidade, e partiu extasiado, rumo à Terra, à descoberta de novas experiências.
Nessa altura Bistek retesou ao máximo os seus músculos. Os seus olhos nada mais fitavam a não ser o raio de sol, que inocente, rodopiava ainda mais rápido. As fracções de segundo pareciam horas. Tudo se preparava para o inevitável….
Bistek saltou. A sorte estava traçada. O raio de sol ia ficar destroçado pelas ferozes garras assassinas. Num furor insano, o gato da casa aterrou….. não em cima do raio de sol mas do tapete. A sua presa fugira!? Que se passou? Perguntava Bistek. Para onde foi o raio de sol?

Num acto misericordioso, uma nuvem atenta resgatou no último instante o raio de sol do seu destino traçado! E este, sem saber do que tinha escapado, voltou serenamente para casa….


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Andreia


Andreia estava estirada ao sol em cima de um penedo, gozando os últimos raios solares daquele dia. Sabia que daqui a pouco teria de regressar a casa, para junto dos seus. Mas enquanto aí estava conseguia libertar-se de tudo e de todos, e de si também. Sonhava acordada. Vogava por aí, em pensamentos. Era o que lhe restava. E que significava muito para ela. Era livre.
Desde criança que vivia naquela aldeia. Austera como todos lá, rodeada de montes e fetos. E de cabras. Apesar do que diziam os seus habitantes, não era bonita. Nem ela nem a aldeia. Sabia-o. Mas que é a beleza afinal? Era assim tão importante? Vital? Pensava que não. Sabia que não. Ao contrário da maioria dos seus amigos, Andreia não sonhava com a vida nas grandes cidades. Era uma jovem simples, sem grandes ambições, muito menos de viajar e conhecer outras pessoas ou outras terras.
Do alto do seu penedo avistava outros montes, outros penedos, salpicados de verde aqui e ali, predominando o cinzento, escuro, austero. Mas belo aos seus olhos. Nada mudava naquela aldeia. Nem as pessoas, nem a paisagem. Nada. Acima dela o Sol e as nuvens brincavam, felizes. Pássaros esvoaçavam sem rumo, como os seus pensamentos. Mas apenas o seu corpo estava presente. Recordava...
Ela era diferente. Nunca o tinha admitido perante quase ninguém. Brincava com as restantes crianças da aldeia, mas sentia que esse não era o seu mundo, a sua terra, a sua época. A única pessoa a quem teve coragem de dizer o que sentia fora a sua avó paterna, mulher forte de sentimentos e de crenças, que dos netos a escolheu para partilhar algo. Já tinha partido mas a sua presença nunca se tinha desvanecido.
Andreia recordava tempos idos, felizes ou não, mas diferentes, idos. O que tinha na alma era tristeza de não pertencer ali, como os outros, mas por outro lado, alegria por se recordar, com vigor, das suas memórias, não só de outra vez miúda mas também de mulher.
Josefina, a sua falecida avó, tinha vivido largos anos na vila próxima com o seu marido, Joaquim. Juntos tinham tido uma “venda”, pequena loja onde se vendia de tudo, como era costume de então. Criaram a custo mas com amor os filhos, entre eles Alexandre, pai de Andreia. Como mulher de armas, como se dizia na época, Josefina não era apenas esposa e mãe, mas a força da família e do negócio. Nada normal na altura, digamos. Alturas houve em que amigos do marido o criticaram por “quem estar a vestir as bragas era ela, e não ele”. Nada que o importunasse. Não queria estar com uma mulher que não fosse lutadora. Não queria que ela mudasse. Amava-a também por ela ser assim.
Porém, Josefina era mais do que parecia. Sentia. Sentia que o mundo era mais do que via, mais do que o padre da aldeia lhes transmitia, do que os outros lhe diziam. Sentia forte o coração do mundo. Havia sempre algo mais. Uma educação rígida e não o temor dos outros impediam-na de questionar, de procurar saber mais. De procurar as respostas às questões que lhe afloravam o espírito, sempre. Acreditava em Deus, mas à sua maneira. Que Deus era a fonte de toda a energia que fluía. Não o via nem sentia nem como o castigador nem como o redentor. Era mais. Era tudo.
Anos passaram. A velhice trouxe-a à aldeia natal do seu Joaquim, para ai ficar a tomar conta dos seus netos e viver em paz os seus últimos tempos. A sua energia vital esfumava-se mas os seus sentimentos permaneciam os mesmos. A energia de Deus acompanhava-a, e sentia, sempre.
Estranhamente ou não, uma das suas netas uma vez olhou para ela e reconheceu-a. Não como se reconhece um ente querido com quem privou toda a sua curta vida, mas de modo diferente. E Josefina reconheceu o olhar. Já o vira antes. Sabia o que era. Sabia o que significava. Ela sabia. Ela via. Sabia quem ela era. Ou foi. A partir daí tudo se transformou na vida das duas. Não eram necessárias palavras ou actos, mas apenas olhares. Cúmplices, serenos, sabedores. Representavam tudo para elas. Sentiam-se exultantes nesses breves momentos. Sentiam que afinal havia muito mais do que parecia, do que lhes diziam.

Andreia estava agora apenas acompanhada de penedos, fetos, cabras, pelo sol e pelas nuvens. Porém, não estava sozinha. Estava com o Mundo. Feliz.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Máscaras


Os atores gregos da Antiguidade utilizavam máscaras para que os espectadores pudessem ver qual o estado de espírito das respectivas personagens. Umas estavam a sorrir e outras estavam tristes. Os gregos antigos já sabiam que a vida era assim, sem lugar para o meio-termo.
O sim ou não, yin ou yang, bem ou mal, feminino ou masculino, positivo ou negativo são meros exemplos, mas significativos. O “talvez” e “deixa ver no que dá” são de evitar. As chamadas zonas cinzentas são temidas e evitadas por serem difusas e difíceis de interpretar. Nada como a clareza….

As culturas ancestrais acreditavam que a máscara dava poderes mágicos aos seus utilizadores. Estes ganhavam as propriedades do animal que representava. Deste modo, o seu utilizador ficaria com a força de um leão, a rapidez da chita ou a sagacidade da hiena. Assim, uma pessoa que estivesse triste, ao colocar uma máscara sorridente, ficaria alegre…. era tão bom que assim fosse….

As máscaras são bens preciosos. Permitem o fingimento. Permitem que os outros julguem que estamos a sentir algo que efectivamente não estamos. Podemos estar em êxtase e fingir que estamos no maior sofrimento. Ou o contrário. Podemos fingir até ser algo que efectivamente não somos. Como os banqueiros e administradores de grandes empresas que colocam máscaras de amnésicos e repetem até à exaustão perante as comissões do Parlamento “não me recordo nada disso…”.
As máscaras permitem o bluff, permitem o engano, permitem tudo, excepto… enganarmos a nós mesmos. Não mascaram a alma, os sentimentos. Apenas os tapam de olhares indiscretos, ocultam a realidade, por uns tempos.

Queremos mascarar tudo, e no final não mascaramos nada….. queremos enganar todos mas nem a nós o conseguimos fazer.

Então, para que servem mesmo as máscaras?

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Evolução



Como é sabido, os nossos corpos, mentalidades e sensações sofrem alterações substanciais ao longo das nossas vidas. Se esse facto é notório e visível no que respeita ao corpo, já a alteração das mentalidades e sensações é algo que tende a escapar mesmo a nós mesmos.

O meu cardápio foi durante muitos anos constituído por hidratos de carbono e proteínas. Dizendo melhor, massas, arroz e carne. Por mim o peixe podia ficar sossegado nas suas águas que se não me incomodasse, eu lhe faria o mesmo. A sopa também. De preferência a dar banho ao peixe....

A minha existência permaneceu assim alimentarmente estável e incorrupta. As minhas
bebidas de eleição sempre foram água, sumos, colas e cervejas premium. Claro que sabia da existência de "outras bebidas", consideradas mais nobres, mas por mais esforço que fizesse, não conseguia compreender o porquê da sua veneração, nem da existência de uma legião de adoradores.

Ao passar barreiras etárias, descubro com certo espanto que o meu palato estava a mudar. Já não exigia hambúrgueres e batatas fritas. Pior! Revoltava-se quando eu os impingia. À comida simples mandava-me passear. O meu palato estava pronto para a mudança. Eu não. Ainda.

O meu encontro com Baco surgiu, tal como algumas coisas na minha vida, bastante tardio.

Resumindo, com um grande amigo e após umas horas de trabalho, descubro que o melhor acompanhamento de umas pizzas congeladas era um simples.... JP Private Selection 2011, da afamada casa Bacalhôa. Isso dizia muito. Ou tudo.

Descobri aos poucos que vinho é cultura (acharia ridícula esta ideia há uns anos....), que é uma arte, que é uma ligação à terra, e que é, como ouvi no excelente filme Sideways (2004), "algo vivo".

Quem me conhece sabe perfeitamente que jamais faria apelo ao consumo de álcool.


Apenas faço um apelo a que libertemos as nossas sensações, deixando que nossas as papilas


 gustativas nos deliciem com o aroma e gosto de um bom vinho….

Bem dita evolução!



segunda-feira, 22 de junho de 2015

Procura Incessante

Sinto-me como os cavaleiros da Távola Redonda, que iniciaram uma busca importante, e que depois de muito tempo dedicado à causa, esta redundou em nada.
Procuro algo que não deve (ainda) existir. E mesmo que exista, não tenho capacidade de organização e principalmente de método para prosseguir com este propósito.
Quero uma aplicação informática que seja tudo num só: um calendário, um diário, um lembrete e uma folha de cálculo de gastos e receitas. E que seja seguro e que funcione em diversos dispositivos electrónicos.
Bolas que é demais. Não admira que não encontre!

Devo andar à procura de alguma muleta que me ajude na organização da minha vida, que me lembre do que tenho de fazer, que me lembre quem faz anos hoje, que me lembre do que gastei há duas semanas e que me lembre do meu estado de espírito naquele dia.
Eu sei que há um remédio para isso, e não tem nada de hardware nem de software: Memofante!