terça-feira, 7 de julho de 2015

Bistek e o Raio de Sol


Numa sereníssima manhã de Outono, estando o gato da casa deitado no parapeito da janela do escritório, chegou de mansinho um raio de sol afoito, que quebrando as regras desse período chuvoso, resolveu entrar nesse mundo estranho.
Sem mover um único músculo, Bistek, o tal gato da casa, abriu um olho, apenas um, que era mais do que suficiente para se inteirar de que a ordem por ele estabelecida na divisão se mantinha respeitada.
Nada se passava, excepto a entrada do raio de sol, que liberto das suas amarras maternas, se entretinha numa juvenil e solitária dança, com voltas e piruetas, rodopios para um lado e para o outro.
Bistek estava agora com os dois olhos abertos. A cabeça pendia ligeiramente para a frente, plenamente absorto e interessado na frenética dança. Não parecia pronto a saltar para o parar, mas antes estava surpreendido pela ousadia daquele raio de sol. Mexeu as orelhas, em busca de um qualquer som. Nada. O visitante, apesar de contente, não falava nem cantava. Pior, mesmo com essa actividade física extenuante, não mostrava sinais de respiração ofegante. Bistek estava agora plenamente interessado. O corpo estava retesado, como uma mola pronta a saltar, as garras traseiras tocavam levemente o parapeito, prontas para o salto. O coração bombeava a adrenalina resultante da excitação do momento.
O raio de sol estava longe de saber das intenções de Bistek. Gozava a sua liberdade merecida após séculos incontáveis dentro da Mãe Sol. Lá, na sua casa, apenas havia um calor infernal e nunca se passava nada de extraordinário nesse mundo de raios vibrantes. Por isso, quando permitiram a sua visita à Terra, o seu rosto iluminou-se de felicidade, e partiu extasiado, rumo à Terra, à descoberta de novas experiências.
Nessa altura Bistek retesou ao máximo os seus músculos. Os seus olhos nada mais fitavam a não ser o raio de sol, que inocente, rodopiava ainda mais rápido. As fracções de segundo pareciam horas. Tudo se preparava para o inevitável….
Bistek saltou. A sorte estava traçada. O raio de sol ia ficar destroçado pelas ferozes garras assassinas. Num furor insano, o gato da casa aterrou….. não em cima do raio de sol mas do tapete. A sua presa fugira!? Que se passou? Perguntava Bistek. Para onde foi o raio de sol?

Num acto misericordioso, uma nuvem atenta resgatou no último instante o raio de sol do seu destino traçado! E este, sem saber do que tinha escapado, voltou serenamente para casa….