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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Trevas na minha Alma

Talvez pela influência das histórias que ouvi e li em criança, a verdade é que desde sempre as florestas densas e escuras me fascinaram, mesmo aquelas que não permitem nem que os próprios raios de sol entrem nos seus domínios de trevas.
O autor que melhor descreveu um tal ambiente foi J. R. R. Tolkien, em “O Hobbit”. Nessa obra, os personagens perdem-se numa gigantesca floresta, cheia de aranhas gigantes e de elfos fugidios.
A riqueza de pormenores é tal que o leitor comum aflige-se verdadeiramente, tantas são as desventuras sofridas pelos personagens, perdidos num mundo de eterna escuridão. Eu, estranhamente, invejava-os.
Realmente, não sei o que consigo encontrar de tão fascinante um lugar sem luz e cheio de perigos ocultos. Talvez por ser um mundo completamente diferente daquele a que estou habituado.
Sei, no entanto, que este é um dos lugares preferidos da minha Alma, pois sabendo que aí os sentidos como a visão são inúteis, e imperando apenas as sensações, ela seria Rainha incontestada.
Assim, quando penetrar numa dessas florestas negras, e de tão cego ficarei de sentidos, que não me restará outra opção senão deixar-me levar pela minha Alma, rumo ao desconhecido, rumo às minhas mais profundas trevas.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

DARK SOULS 1 Joaquim I

Escurece e vejo as sombras a galgarem os passeios, importunando os incautos transeuntes, que de soslaio evitam encarar tais negrumes.
Estou completamente só na longa noite escura, e atento a tudo, especialmente aos movimentos ou sons que apenas no negrume conseguem existir.
Sob o céu chumbado que me cobre nada parece se passar, mas tenho a sensação que bandos de conspiradores se aglomeram atrás de cada esquina ou porta fechada de prédio.
Estou só na noite como na vida, observando, sorvendo o que se passa apenas pelo tacto, pelo cheiro, pelos sons, pois a visão de pouco ou nada serve.
Ali, na noite escura e tenebrosa, parecem irreais e longínquas as imagens de praias com areias douradas, águas tranquilas e pejadas de sol.
Sento-me na beirada da janela, olhando para baixo, para os seres vivos que fazem da noite o que é, prevendo as suas acções, os seus intentos, os sons e movimentos daí resultantes.
Estudo a noite como se esta fosse algo palpável, vivível, previsível, como se esta possuísse vida, alma, querer e vontade própria.
Recolho-me para a minha própria escuridão, pois as sombras ameaçam-me lá de baixo, por não gostarem de ser observadas.
Não me importo de deixar de ver as sombras da noite, pois por vezes são muito perturbadoras. Prefiro a minha escuridão, a sua serenidade e silêncio.
As minhas sombras não galgam passeios nem importunam ninguém, e apenas se escondem de mim por vergonha e timidez.
Antes de fechar os olhos à escuridão, sou atraído pela Lua branca que me banha a face, e lembro-me do uivo dos lobos. Como eu os compreendo….e invejo!

De súbito, pelo canto do olho, noto uma sombra a ganhar vida, algo inimaginável no recato da minha própria casa!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O 150º POST

Hoje pretendo partilhar convosco algo diferente. Não vou escrever sobre um tema ou sobre uma personagem. Antes quero partilhar convosco um marco importante para mim: a publicação do 150ª Post no xabiverde.blogspot.pt!
Para mim, escrever é fácil e agradável, pois é um exercício de libertação. Deixo apenas fluir livremente a palavra e a ideia, e é a própria alma que se solta das angústias, desesperanças, medos, ódios, paixões e sonhos.
Questionam-me se sinto tudo o que escrevo, e a resposta é: por vezes. Dias há em que todo o meu ser está na palavra, e esta precisa de sair, sob risco de intoxicar tudo o resto.
Outras vezes há em que temo encarnar demasiado outros, tal o sentido de dever que tenho de contar as suas histórias, recheadas de fortes sentimentos e de personalidade. Ainda me lembro a alegria que senti ao contar as histórias do Zé do Tuk-Tuk ou do Mongas, o Submisso.
Assim, e depois de ter escrito 149 posts desde 2014, tendo resultado em mais de 53.000 visualizações lidas lá pelos 4 cantinhos do mundo (confesso que relativamente a esse ponto fiquei bastante surpreendido), e de ter (re)começado a desenhar rabiscos para acompanhar os textos, cheguei a uma encruzilhada criativa.
Obviamente poderia continuar na mesma linha, mas achei seria mais do mesmo, uma não inovação e de redescoberta. Achei que com estas marcas, uma mudança impunha-se.
Comecei com textos de meia dúzia de linhas, abordando com ligeireza temas e pensamentos. Aos poucos introduzi-lhe personagens. Estes textos ficaram um pouco mais extensos, alguns até com pequenos capítulos. E assim continuei, ganhando experiência, esperando por este momento.
E agora, com o 150º post, pretendo marcar uma viragem, e escrever um ContoE conto, claro, com todos vocês.

Assim, até breve. E boas leituras.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Don't get too close. It's dark inside


Nestas duas curtas frases da letra da canção “Demons” dos Imagine Dragons é mostrada a realidade nua e crua de todos nós: o lado escuro e secreto. “Não te aproximes demais. Dentro de mim está muito escuro.

Não estou a dizer que o nosso lado escuro é mau, cheio de ideias perversas e à espera de fazer más acções. Não, é mais como o lado oculto da Lua, inacessível, misterioso, invisível.

Temos sempre dentro de nós algo que não queremos mostrar aos outros, que fica aprisionado dentro da nossa cabeça, encarcerado na nossa alma. Que consideramos que é nosso, e por isso achamos que ninguém se deve aproximar demasiado. Ninguém o deve ver. Só nós.

Tenho a forte convicção de que nunca conhecemos verdadeiramente ninguém. Eu já fiquei surpreendido com reacções ou actos de pessoas que julgava conhecer. Para o bem e para o mal….. 

Preferimos mostrar o nosso lado politicamente correcto, cheio de boas maneiras, algumas vezes para quem não as merece de todo, mesmo que isso nos custe a bílis.

É um sinal de hipocrisia? Sim, claro, mas agimos assim pelas nossas exigências sociais e da educação recebida. Deste modo ocultamos o nosso lado negro a “bem da sociedade”.

A cultura milenar do extremo oriente mostra que o lado negro e o lado da luz fazem parte do todo, em partes iguais. É o Yin e o Yang, conceitos do Taoismo, que acreditam que existe uma dualidade em tudo.

O Yin é a escuridão e o Yang a luz. E ao complementarem-se, permitem a sua existência mútua.

Só mostrando algum do nosso lado mais escuro e mais secreto poderemos viver em equilíbrio e permitir que os outros nos conheçam, verdadeiramente.

Nós somos escuridão e luz ao mesmo tempo. E é o que somos, intrinsecamente!

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Máscaras


Os atores gregos da Antiguidade utilizavam máscaras para que os espectadores pudessem ver qual o estado de espírito das respectivas personagens. Umas estavam a sorrir e outras estavam tristes. Os gregos antigos já sabiam que a vida era assim, sem lugar para o meio-termo.
O sim ou não, yin ou yang, bem ou mal, feminino ou masculino, positivo ou negativo são meros exemplos, mas significativos. O “talvez” e “deixa ver no que dá” são de evitar. As chamadas zonas cinzentas são temidas e evitadas por serem difusas e difíceis de interpretar. Nada como a clareza….

As culturas ancestrais acreditavam que a máscara dava poderes mágicos aos seus utilizadores. Estes ganhavam as propriedades do animal que representava. Deste modo, o seu utilizador ficaria com a força de um leão, a rapidez da chita ou a sagacidade da hiena. Assim, uma pessoa que estivesse triste, ao colocar uma máscara sorridente, ficaria alegre…. era tão bom que assim fosse….

As máscaras são bens preciosos. Permitem o fingimento. Permitem que os outros julguem que estamos a sentir algo que efectivamente não estamos. Podemos estar em êxtase e fingir que estamos no maior sofrimento. Ou o contrário. Podemos fingir até ser algo que efectivamente não somos. Como os banqueiros e administradores de grandes empresas que colocam máscaras de amnésicos e repetem até à exaustão perante as comissões do Parlamento “não me recordo nada disso…”.
As máscaras permitem o bluff, permitem o engano, permitem tudo, excepto… enganarmos a nós mesmos. Não mascaram a alma, os sentimentos. Apenas os tapam de olhares indiscretos, ocultam a realidade, por uns tempos.

Queremos mascarar tudo, e no final não mascaramos nada….. queremos enganar todos mas nem a nós o conseguimos fazer.

Então, para que servem mesmo as máscaras?