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sexta-feira, 12 de julho de 2024

Da Perceção

Uma das caraterísticas marcantes como seres humanos é de gostarmos muito de ter certezas, de sentirmos o solo firme, palpável e confiável debaixo dos nossos pés. Neste contexto, adoramos ter a certeza de que conhecemos muito bem quem connosco priva diariamente.

Se perguntarmos a qualquer pessoa se conhece bem os seus pais, os seus filhos, os seus consortes, os seus amigos íntimos, a resposta é invariavelmente, sim, sem dúvida. Realmente, como não poderia conhecer extremamente bem qualquer uma dessas pessoas? Ridículo, não é?

O nosso cérebro não funciona bem com incertezas, com dúvidas, com o desconhecido. Ele gosta das coisas bem arrumadinhas, das certezas, do previsível.

Assim, se nos perguntarem como é a personalidade de determinada pessoa, dizemos sem qualquer dúvida, que “Essa pessoa é assim!” Sem dúvidas ou hesitações. Só certezas.

Porém, certezas não há, só a nossa perceção em relação a essa pessoa. Apenas conhecemos a forma como ela interage connosco, pois essa pessoa pode ter ou tem, para uma situação ou contexto análogo, um comportamento comigo e outro completamente diferente para com outra pessoa.

Então, como ficamos? Conhecemos muito bem ou não essa pessoa? O mais certo é que, no máximo, podemos supor! Não temos certezas, pois não o observamos a tempo inteiro e não estamos dentro da cabeça dele. Só da nossa.

Quantas vezes nos surpreendemos com a reação de uma pessoa, que afirmamos conhecer muito bem? Frases como “Não acredito que essa pessoa possa ter feito isso. Deve haver aqui algum engano”. Mas raramente há enganos. Ele fez mesmo isso pois, em parte, ele é assim, só que nunca tivemos essa perceção pois ele não o demonstrou.

Assim, apenas podemos prever uma resposta que alguém dará a um determinado estimulo e numa determinada situação, e apenas com base no histórico social comum. E isso não é conhecer bem ninguém. No fundo, só conhecemos o que o outro quer que seja conhecido por nós, e nada mais.

Já repararam que até os bebés têm comportamentos diferentes conforme as pessoas com quem eles privam? É que os humanos são verdadeiros mestres na adaptação, na camuflagem e no disfarce desde tenra idade!

E quantas vezes já ficámos surpreendidos connosco próprios, parecendo que não nos conhecemos, depois de termos nos observado a ter reações que consideramos esquisitas ou exageradas?

Assim, como podemos ficar admirados quando "descobrimos" que, afinal, não conhecemos verdadeiramente uma pessoa, se nem sequer nos conhecemos a nós próprios?

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Máscaras


Os atores gregos da Antiguidade utilizavam máscaras para que os espectadores pudessem ver qual o estado de espírito das respectivas personagens. Umas estavam a sorrir e outras estavam tristes. Os gregos antigos já sabiam que a vida era assim, sem lugar para o meio-termo.
O sim ou não, yin ou yang, bem ou mal, feminino ou masculino, positivo ou negativo são meros exemplos, mas significativos. O “talvez” e “deixa ver no que dá” são de evitar. As chamadas zonas cinzentas são temidas e evitadas por serem difusas e difíceis de interpretar. Nada como a clareza….

As culturas ancestrais acreditavam que a máscara dava poderes mágicos aos seus utilizadores. Estes ganhavam as propriedades do animal que representava. Deste modo, o seu utilizador ficaria com a força de um leão, a rapidez da chita ou a sagacidade da hiena. Assim, uma pessoa que estivesse triste, ao colocar uma máscara sorridente, ficaria alegre…. era tão bom que assim fosse….

As máscaras são bens preciosos. Permitem o fingimento. Permitem que os outros julguem que estamos a sentir algo que efectivamente não estamos. Podemos estar em êxtase e fingir que estamos no maior sofrimento. Ou o contrário. Podemos fingir até ser algo que efectivamente não somos. Como os banqueiros e administradores de grandes empresas que colocam máscaras de amnésicos e repetem até à exaustão perante as comissões do Parlamento “não me recordo nada disso…”.
As máscaras permitem o bluff, permitem o engano, permitem tudo, excepto… enganarmos a nós mesmos. Não mascaram a alma, os sentimentos. Apenas os tapam de olhares indiscretos, ocultam a realidade, por uns tempos.

Queremos mascarar tudo, e no final não mascaramos nada….. queremos enganar todos mas nem a nós o conseguimos fazer.

Então, para que servem mesmo as máscaras?