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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sob um Céu Cor de Chumbo

O céu avisava-me que não estava para brincadeiras, ameaçando ruir. Ribombos ouviam-se ao fundo, alertando que os deuses, de tão doidos, atiravam raios para os incautos que por baixo deles, fugiam.
Eu continuei deitado de barriga para cima, olhando desafiante para as nuvens ameaçadoras, que furiosas pela minha audácia, segredavam umas para as outras, juntando-se cada vez mais. E o ribombar cada vez mais próximo.
Via pelo canto dos olhos o intenso brilho dos relâmpagos a varrerem a planície, lançados pelos insanos deuses, cujo riso se confundia com o troar dos trovões. "Malditos", pensei eu, "Sempre a mesma coisa. Os fortes brincam com a fracos". E desafiante, continuei deitado, olhando as nuvens.
Animais passavam por cima de mim, desesperados de medo pela fúria dos elementos, mal sabendo que eram os deuses os verdadeiros causadores. Aqui e ali focos de incêndio iam surgindo, tal a proficuidade de raios que iam varrendo tudo ao seu redor. "Malditos", pensei eu.
De súbito, um deus menor olhou para mim e mesmo antes de lançar um raio, perguntou-me quase incrédulo “Mas tu não tens medo de mim?” pelo que respondi, apenas com o olhar “Não, não tenho medo nenhum de ti”. E continuei deitado de barriga para cima, olhando desafiante.
Os deuses foram parando de atirar raios, perguntando uns aos outros e às nuvens quem era eu, que fazia ali, e porque não tinha medo deles. E mesmo por cima da minha cabeça espreitavam pelo céu abaixo, para mim. E eu olhava para eles, desafiante, sem medo.
O deus menor colocou uma escada e quando esta tocou no chão desceu, indo ter comigo. Olhou para mim e depois olhou para cima, para os outros deuses e nuvens. Acenou para eles e estes responderam. Tudo estava em silêncio, aguardando.
O deus menor deitou-se ao meu lado, olhando nos olhos para os outros deuses, e parecia mesmo que lançava, como eu, um olhar desafiante. Os outros, lá em cima, estavam atónitos com tamanha audácia. E debandaram de onde estavam.
Julgava eu que os outros deuses se tinham ido embora, que tinham ido infernizar outros, mas não, desciam vagarosamente a escada e encaminhavam-se para mim. E eu olhava desafiante para eles, desta vez junto à ceara. E o mesmo fazia o deus menor.

E findou-se a tarde, comigo a olhar para um céu sem nuvens, completamente rodeado de deuses, todos deitados de barriga para cima, e que deliciados, viam um mundo como nunca imaginaram que fosse.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Andreia


Andreia estava estirada ao sol em cima de um penedo, gozando os últimos raios solares daquele dia. Sabia que daqui a pouco teria de regressar a casa, para junto dos seus. Mas enquanto aí estava conseguia libertar-se de tudo e de todos, e de si também. Sonhava acordada. Vogava por aí, em pensamentos. Era o que lhe restava. E que significava muito para ela. Era livre.
Desde criança que vivia naquela aldeia. Austera como todos lá, rodeada de montes e fetos. E de cabras. Apesar do que diziam os seus habitantes, não era bonita. Nem ela nem a aldeia. Sabia-o. Mas que é a beleza afinal? Era assim tão importante? Vital? Pensava que não. Sabia que não. Ao contrário da maioria dos seus amigos, Andreia não sonhava com a vida nas grandes cidades. Era uma jovem simples, sem grandes ambições, muito menos de viajar e conhecer outras pessoas ou outras terras.
Do alto do seu penedo avistava outros montes, outros penedos, salpicados de verde aqui e ali, predominando o cinzento, escuro, austero. Mas belo aos seus olhos. Nada mudava naquela aldeia. Nem as pessoas, nem a paisagem. Nada. Acima dela o Sol e as nuvens brincavam, felizes. Pássaros esvoaçavam sem rumo, como os seus pensamentos. Mas apenas o seu corpo estava presente. Recordava...
Ela era diferente. Nunca o tinha admitido perante quase ninguém. Brincava com as restantes crianças da aldeia, mas sentia que esse não era o seu mundo, a sua terra, a sua época. A única pessoa a quem teve coragem de dizer o que sentia fora a sua avó paterna, mulher forte de sentimentos e de crenças, que dos netos a escolheu para partilhar algo. Já tinha partido mas a sua presença nunca se tinha desvanecido.
Andreia recordava tempos idos, felizes ou não, mas diferentes, idos. O que tinha na alma era tristeza de não pertencer ali, como os outros, mas por outro lado, alegria por se recordar, com vigor, das suas memórias, não só de outra vez miúda mas também de mulher.
Josefina, a sua falecida avó, tinha vivido largos anos na vila próxima com o seu marido, Joaquim. Juntos tinham tido uma “venda”, pequena loja onde se vendia de tudo, como era costume de então. Criaram a custo mas com amor os filhos, entre eles Alexandre, pai de Andreia. Como mulher de armas, como se dizia na época, Josefina não era apenas esposa e mãe, mas a força da família e do negócio. Nada normal na altura, digamos. Alturas houve em que amigos do marido o criticaram por “quem estar a vestir as bragas era ela, e não ele”. Nada que o importunasse. Não queria estar com uma mulher que não fosse lutadora. Não queria que ela mudasse. Amava-a também por ela ser assim.
Porém, Josefina era mais do que parecia. Sentia. Sentia que o mundo era mais do que via, mais do que o padre da aldeia lhes transmitia, do que os outros lhe diziam. Sentia forte o coração do mundo. Havia sempre algo mais. Uma educação rígida e não o temor dos outros impediam-na de questionar, de procurar saber mais. De procurar as respostas às questões que lhe afloravam o espírito, sempre. Acreditava em Deus, mas à sua maneira. Que Deus era a fonte de toda a energia que fluía. Não o via nem sentia nem como o castigador nem como o redentor. Era mais. Era tudo.
Anos passaram. A velhice trouxe-a à aldeia natal do seu Joaquim, para ai ficar a tomar conta dos seus netos e viver em paz os seus últimos tempos. A sua energia vital esfumava-se mas os seus sentimentos permaneciam os mesmos. A energia de Deus acompanhava-a, e sentia, sempre.
Estranhamente ou não, uma das suas netas uma vez olhou para ela e reconheceu-a. Não como se reconhece um ente querido com quem privou toda a sua curta vida, mas de modo diferente. E Josefina reconheceu o olhar. Já o vira antes. Sabia o que era. Sabia o que significava. Ela sabia. Ela via. Sabia quem ela era. Ou foi. A partir daí tudo se transformou na vida das duas. Não eram necessárias palavras ou actos, mas apenas olhares. Cúmplices, serenos, sabedores. Representavam tudo para elas. Sentiam-se exultantes nesses breves momentos. Sentiam que afinal havia muito mais do que parecia, do que lhes diziam.

Andreia estava agora apenas acompanhada de penedos, fetos, cabras, pelo sol e pelas nuvens. Porém, não estava sozinha. Estava com o Mundo. Feliz.