terça-feira, 7 de novembro de 2017

Relações no Século XXI (1 de 2)

Se eu estivesse numa reunião estilo AA, levantava-me e diria “Boa noite, sou o Fernando e sou perito em relações falhadas”. E o grupo responderia “Boa noite Fernando”. E eu começaria a relatar a minha vida amorosa. E no fim, todos nós choraríamos.
Sim, sou um perito em relações falhadas. Posso mesmo dizer, sem qualquer ponta de orgulho, que sou um verdadeiro especialista mundial, com um curriculum recheado de experiências traumáticas.
Considero mesmo que já nasci com esse raro e precioso dom de escolher as piores mulheres para amar. Evidentemente que não as escolho por saber que são más ou vis. Muito antes pelo contrário, a meu ver são todas umas Santas!
A minha triste sina começou logo no jardim-de-infância, quando vi uma coleguita a sorrir para mim e instantaneamente ofereci-lhe o coração. Durante o tempo em que fomos inseparáveis sucedeu uma situação muito estranha.
As minhas chuchas, as minhas queridas Nuc, estavam a desaparecer a um ritmo alucinante, e eu não sabia como nem porquê. E os meus pais ameaçaram-me cortar o fornecimento desse produto de primeira necessidade.
Foi a partir desse dia que a Ansiedade me começou a dominar, e nunca mais me quis largar desde então. É a minha companheira inseparável, mais para o mal que para o bem, e que por vezes chama a sua irmã Desespero para, juntas, me azucrinarem a porca da vida!
Desabafava os desaparecimentos das chuchas à minha querida amiga Nuxa, que me ia dizendo que de certeza era o tal, ou a tal, ou mesmo a menina Rosa, a responsável da nossa sala, que mas andava a roubar. E eu sempre a acreditar nela.
Este estúpido que vos fala nunca desconfiou que era a minha querida Nuxa que as roubava, com total impunidade e descaramento, levando-as para o mercado negro existente nesse mesmo jardim-de-infância, que se chamava, ironicamente de “Chuchas e Companhia”!
Só muitos anos mais tarde é que a Nuxa me contou esse episódio, ainda por cima a rir. E aproveitou e acabou com a nossa relação porque a confrontei com umas supostas traições dela, relatadas pelo meu grande amigo Zé.
Claro que esse Zé apenas me confidenciou a traição da Nuxa com um tipo qualquer, porque ela o tinha trocado por outro, no fundo traindo a nós dois. Mesmo assim continuei a admirá-la por ela ser uma mulher muito dada. Mesmo muito dada.
Entre a Nuxa infantil e a Nuxa mulher sabida aconteceu-me um sem-fim de casos, paixões e paixonetas, de flirts e namoraditas, fossem grandes ou pequenas, branquinhas ou escurinhas, louras, morenas ou ruivas. Houve de tudo e se mais houvesse. Todas diferentes. Mas todas iguais.
A todas e a cada uma tratava como se fosse uma princesa, uma rainha, uma deusa que me punha a adorar. A todas coloquei no pedestal e a todas chamava “Amor”. E sentia-me feliz com todas e com cada uma.
E com todas e com cada uma sentia-me o homem mais feliz do mundo, atrevo-me a dizer. Dizia sempre para comigo “Esta é que é. Ainda bem que me livrei daquela outra”. Claro que não me tinha livrado de ninguém, pois tinha sido, mais uma vez, escorraçado!
Na verdade, todas elas me tinham dado com os pés, e a maioria com requintes de malvadez. Mas algumas tinham-me respeitado, pelo menos minimamente, talvez mais com pena do triste que sou, pois nem valia a pena fazer mais, não com medo de qualquer minha reacção brusca ou bruta.
Mas não vos quero maçar com as minhas muitas histórias, pois decerto que ultrapassaria as “Mil e uma noites”. Assim, só quero mesmo contar-vos a minha história com a Sandra.
Conheci a Sandra num bar na Av. 24 de Julho, em Lisboa. Bem, conhecer é força de expressão, pois eu limitei-me a estar lá, acompanhado por um amigo de longa data, o P, que com genes de engatatão, “sacou” a amiga da Sandra num ápice. E a esta veio de "brinde"....
(continua)