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terça-feira, 7 de maio de 2019

O EX

- O que é que esse tipo queria agora?” Pergunta o Paulo.
- Nada. Só chatear-me!” Respondi eu, demonstrando incómodo pela pergunta.
- Acho que é mais do que isso. Mas tu é que sabes o que queres.” E voltou-me as costas, ostensivamente.
Eu nem lhe liguei. É que as últimas palavras do meu ex continuavam a ecoar no meu coração, forçando-o a bater mais depressa. Desconfiada que estava bastante afogueada e corada, meto-me na casa-de-banho para me acalmar.
É verdadeiramente impressionante o poder de um único e inocente telefonema, e como esse aparentemente simples ato corrói de uma forma poderosa a harmonia de um casal, especialmente se o telefonema for de um ex, cada vez mais presente na minha vida.
Na verdade, não era incómodo nenhum receber telefonemas dele. Antes pelo contrário. E finjo nem saber porquê. E outro prazer em crescendo é de irritar o Paulo. Adoro o seu mal-estar, cada vez mais presente. E os seus ciúmes, tão mal disfarçados.
Assim, e com uma única ligação telefónica do meu ex, obtenho um duplo prazer, tal e qual como o anúncio daquele gelado com dupla cobertura de chocolate. E nem eu própria sei qual me sabe melhor. Por não saber, delicio-me com ambos.
Saio da casa-de-banho já refeita dos calores mesmo a tempo de ver o Paulo a olhar para o ecrã do meu smartphone, que apitando, sinalizava a entrada de uma mensagem. Fico bastante apreensiva, gelada até.
- Que estúpida fui em deixar a merda do telemóvel em cima da mesa. E onde estava eu com a cabeça para as mensagens aparecerem mesmo com o ecrã bloqueado?” Pensei em voz alta. Tremia.
Ao sentir-me aproximar, o Paulo olha para mim nitidamente perturbado e, branco com a cal da parede, pega nas chaves e sai do apartamento. Eu fico sem reação e sem forças para ir atrás dele. E muito menos de ler a mensagem que tinha recebido no meu smartphone.
Recordo que até há uns dias atrás tinha uma relação estupenda com o Paulo. Até lhe tinha dito que ele era o homem da minha vida. Mas tudo veio a mudar rapidamente com o a estúpida insistência do Fernando. Mas porque raio é que a natureza humana tem a tendência para destruir as coisas boas?
O meu ex, o Fernando, é aquele tipo de homem que, ao passarmos por ele na rua, nos atrevemos a olhar segunda vez, nem que seja para apreciar quem estaria a usar aquela esplendida e caríssima fragância.
Ele é de sorriso fácil, charmoso, bonito, sedutor, e que quando se cai nos seus encantos, somos transportadas para uma nuvem cor de rosa a mil metros do chão. Se a vida fosse feita exclusivamente de sonhos irreais, ele era o homem ideal.
Na realidade, o Fernando apenas tem para oferecer esse tipo de sonhos. E ele é muito bom vendedor, pois esse “produto” foi comprado por muitas mulheres. Porém, estas, depois de aterrarem da sua viagem de sonho, nunca mais querem saber dele, porque rapidamente descobrem que a sua (quase) exclusiva atividade é de “pinga-amor”.
Já o “meu” Paulo é o tipo de homem trabalhador, estudioso e esforçado, e cujo amor por mim é como ele: honesto, sereno e confiável. Por vezes tenta ser romântico, mas coitadito, não nenhuma queda para aquilo, especialmente para mim, habituada que estava aos grandes rebates românticos do Fernando.
Eu e o Fernando acabámos tudo por causa das suas traições, cada vez mais descaradas. E sabe Deus como eu gostava dele. Mas estava a fartar-me dele com uma rapidez demasiado grande, pois estava a ficar muito incomodada com os seus esquemas de engate.
Num último esforço para que ele me desse mais atenção, convidei-o a jantar fora, no “nosso” restaurante. Afinal, pensava eu, gostávamos muito um do outro, apesar de desconfiar que estava quase a ser descartada, pois deixara de ser a novidade mais recente.
No jantar não contava que ele viesse atrasado, e que durante o repasto estivesse mais atento às mensagens que ia recebendo e respondendo que a mim, e que antes da sobremesa, ao atender uma chamada, me fizesse o sinal de que “é só um instante”. E não o vi mais nessa noite.
Chorei bastante durante semanas, e ele nem me atendia às chamadas nem me respondia às mensagens. Continuava a gostar dele, mas cada dia menos um bocadinho, até mais nada restar, achava eu.
Passados uns largos meses, o Fernando, talvez por estar sozinho ou por ter ganho alguma coragem, ligou-me. E eu, ao contrário das suas ex, atendi. Nessa altura, claro, já não tínhamos nada, mas ficou a amizade, que se fortaleceu ao longo dos tempos.
Entretanto, o Paulo surgiu por acaso, como é normal nestas ocasiões. Apareceu sem promessas vãs, nuvens cor-de-rosa ou poemas declamados, e o nosso amor foi surgindo, crescendo, infiltrando-se por todos os poros, até não conseguirmos passar um sem o outro. Mas com o Fernando cada vez mais presente.
Com alguma frequência, o Fernando ligava-me e eu ficava deliciada com as suas histórias rocambolescas sobre as suas inúmeras conquistas. Sempre o considerei emocionalmente imaturo, e que jamais passaria desse estado. Era uma criança grande, sem credibilidade.
Mas uma bela manhã, o Fernando convida-me para almoçar. E eu, inocentemente ou talvez não, aceitei. Mas que mal poderia haver? Eu estava bem resolvida, tinha uma excelente relação, era feliz. E ele, apesar de ser um ex, era apenas um amigo.
Mas ter tantas certezas é tentar o Diabo. E isso nunca é aconselhável, pois como sabem, ele é sujo. Uma coisa é ouvir a voz do Fernando ao telefone, outra completamente diferente, é estar com ele, e ver o seu sorriso cativante, com charme a escorrer pelos poros.
Esse almoço fez-me lembrar as poucas coisas boas da relação com o Fernando. E se pensasse nas más, decerto diria para mim mesma que: “Ele está um novo homem” ou “Decerto que aprendeu com os seus erros”. E não demorou muito para irmos “errar” para casa dele.
Só caí na realidade neste preciso momento, gelada de medo com o que estava a acontecer. Ver o homem que eu amo, o homem da minha vida, a abandonar o nosso lar e os nossos sonhos a desaparecerem. E é tão triste, mesmo desesperante ver o meu porto seguro a fechar-se perante mim.
Toda a minha doce e boa realidade estava agora destruída, por causa de uma ilusão estúpida, com uma pessoa que já me tinha enganado por diversas vezes, e que sei não querer mais de mim a não ser usar o meu corpo.
É que tentar o Demo paga-se caro, especialmente se tiver o smartphone à vista. O Fernando tinha escrito o que já me tinha dito ao telefone, momentos antes: “Querida, adorei a nossa tarde de amor. Repetimos amanhã? Beijos!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Relações no Século XXI (1 de 2)

Se eu estivesse numa reunião estilo AA, levantava-me e diria “Boa noite, sou o Fernando e sou perito em relações falhadas”. E o grupo responderia “Boa noite Fernando”. E eu começaria a relatar a minha vida amorosa. E no fim, todos nós choraríamos.
Sim, sou um perito em relações falhadas. Posso mesmo dizer, sem qualquer ponta de orgulho, que sou um verdadeiro especialista mundial, com um curriculum recheado de experiências traumáticas.
Considero mesmo que já nasci com esse raro e precioso dom de escolher as piores mulheres para amar. Evidentemente que não as escolho por saber que são más ou vis. Muito antes pelo contrário, a meu ver são todas umas Santas!
A minha triste sina começou logo no jardim-de-infância, quando vi uma coleguita a sorrir para mim e instantaneamente ofereci-lhe o coração. Durante o tempo em que fomos inseparáveis sucedeu uma situação muito estranha.
As minhas chuchas, as minhas queridas Nuc, estavam a desaparecer a um ritmo alucinante, e eu não sabia como nem porquê. E os meus pais ameaçaram-me cortar o fornecimento desse produto de primeira necessidade.
Foi a partir desse dia que a Ansiedade me começou a dominar, e nunca mais me quis largar desde então. É a minha companheira inseparável, mais para o mal que para o bem, e que por vezes chama a sua irmã Desespero para, juntas, me azucrinarem a porca da vida!
Desabafava os desaparecimentos das chuchas à minha querida amiga Nuxa, que me ia dizendo que de certeza era o tal, ou a tal, ou mesmo a menina Rosa, a responsável da nossa sala, que mas andava a roubar. E eu sempre a acreditar nela.
Este estúpido que vos fala nunca desconfiou que era a minha querida Nuxa que as roubava, com total impunidade e descaramento, levando-as para o mercado negro existente nesse mesmo jardim-de-infância, que se chamava, ironicamente de “Chuchas e Companhia”!
Só muitos anos mais tarde é que a Nuxa me contou esse episódio, ainda por cima a rir. E aproveitou e acabou com a nossa relação porque a confrontei com umas supostas traições dela, relatadas pelo meu grande amigo Zé.
Claro que esse Zé apenas me confidenciou a traição da Nuxa com um tipo qualquer, porque ela o tinha trocado por outro, no fundo traindo a nós dois. Mesmo assim continuei a admirá-la por ela ser uma mulher muito dada. Mesmo muito dada.
Entre a Nuxa infantil e a Nuxa mulher sabida aconteceu-me um sem-fim de casos, paixões e paixonetas, de flirts e namoraditas, fossem grandes ou pequenas, branquinhas ou escurinhas, louras, morenas ou ruivas. Houve de tudo e se mais houvesse. Todas diferentes. Mas todas iguais.
A todas e a cada uma tratava como se fosse uma princesa, uma rainha, uma deusa que me punha a adorar. A todas coloquei no pedestal e a todas chamava “Amor”. E sentia-me feliz com todas e com cada uma.
E com todas e com cada uma sentia-me o homem mais feliz do mundo, atrevo-me a dizer. Dizia sempre para comigo “Esta é que é. Ainda bem que me livrei daquela outra”. Claro que não me tinha livrado de ninguém, pois tinha sido, mais uma vez, escorraçado!
Na verdade, todas elas me tinham dado com os pés, e a maioria com requintes de malvadez. Mas algumas tinham-me respeitado, pelo menos minimamente, talvez mais com pena do triste que sou, pois nem valia a pena fazer mais, não com medo de qualquer minha reacção brusca ou bruta.
Mas não vos quero maçar com as minhas muitas histórias, pois decerto que ultrapassaria as “Mil e uma noites”. Assim, só quero mesmo contar-vos a minha história com a Sandra.
Conheci a Sandra num bar na Av. 24 de Julho, em Lisboa. Bem, conhecer é força de expressão, pois eu limitei-me a estar lá, acompanhado por um amigo de longa data, o P, que com genes de engatatão, “sacou” a amiga da Sandra num ápice. E a esta veio de "brinde"....
(continua)