quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Tânia (1 de 3)



Boa tarde meus Caros.
Decidi contar-vos a minha história. Mas aviso desde já que esta não é alegre, muito antes pelo contrário. Pelo menos os recentes episódios não o são.

Por alguma razão nunca gostei de filmes que fossem descritos como dramas. Não iria imaginar é que a minha vida se iria transformar num. E dos piores.

Hoje regresso a casa, após um extenuante dia de trabalho e meto a chave à porta e.....

Mas que faço eu? Que tremenda falta de educação da minha parte!

Antes de mais tenho de fazer um pequeno interregno para vos situar, especialmente para quem ainda não me conhece bem ou nunca ouviu falar de mim.

Sem desvios chatos para não vos maçar demasiado,  digo-vos que me chamo Raúl e tenho 43 anos. Sou separado de facto e tenho um filho de 12, que verdade seja dita, pouco ou nada me liga.

Ao ficar livre que nem um passarinho, comecei a ter diversos relacionamentos. Relacionamentos? Bem, na verdade, eu era o Rei do Tinder, de tal forma que essa aplicação era a minha segunda casa.

Confesso que quando comecei a dominar os truques dessa aplicação de encontros, raro era o dia em que não “sacava” uma nova miúda ou não saía com alguma que entretanto tinha conhecido.

No principio julgava que tinha verdadeiros relacionamentos, afirmava para mim mesmo que os tinha, mas apenas para me convencer disso. E principalmente para as convencer disso. Nessa altura julgava que era preciso. Agora penso que é uma tolice.

Eu confesso que não sabia, mas agora considero que a maioria das mulheres que utilizam o Tinder não pretendem um relacionamento estável. E nisso estão em pé de igualdade com os homens que utilizam essa aplicação. Adiante....


Mas afinal o que é que eu queria? Não sabia, pois imperava a confusão nos meus sentimentos. No íntimo queria encontrar alguém que pudesse ocupar no meu coração o lugar da mãe do meu filho. Mas por outro lado tinha a esperança que esse lugar jamais seria ocupado.

Assim, e enquanto estivesse nesse impasse, assumi que não ia ter relacionamentos sérios. E naquela altura, sérios seriam os que durassem mais que uma semana. E afinava com todas as que tentavam deixar alguma coisa em minha casa, para marcar território. Nem que fosse uma simples escova de dentes!

No íntimo sabia que me queria testar. Desejava saber se alguém conseguiria romper as muralhas do meu coração empedernido. Para conseguir isso, pensava eu, essa mulher teria de ser muito espacial.

Reparou bem, meu caro. Escrevi espacial. É que não bastava ser especial. Tinha mesmo de vir de outro mundo.

Mas não imaginava que quem me apareceu pela proa não seria espacial. Nem sequer especial.

Já estou a ver o que está a dizer. “É sempre assim”. Colocamos a fasquia muito alta, dizendo que só queremos uma Sara Sampaio e no fundo sai-nos sempre uma Betty Feia.

Sim, ela era uma mulher absolutamente banal. Mas digo-o agora, pois antes não dizia.

É que depois de ter conhecido muitas mulheres, um dia conheci a Tânia. Mais uma, julgava eu, pois já tinha uma colecção de Tânias.

A Tânia era o que eu na altura chamava de espertalhona. Confesso que sempre cataloguei as mulheres por tipos. Eram as malucas, as pudicas, as mamãs, as intelectuais, as atletas, eu sei lá…. E, claro, as espertalhonas. Eram aquelas que me agradavam mais, porque me davam mais luta.

As espertalhonas incluíam todas aquelas que se armavam em espertas, ou cujas palavras tinham sempre mais do que um significado, ou que queriam sempre mais do que estava disposto a dar. Gostava dessa espécie. Provocavam-me por vezes brutais descargas de adrenalina.

A Tânia era uma provocadora, não só com as palavras, mas principalmente com os olhos. Os seus olhos eram malandros, pois riam-se de uma forma especial. Ela podia estar a dizer a coisa mais séria do mundo mas o seu olhar parecia gozar-me. Os seus olhos pareciam rios de mel derretido. E derretido fiquei eu....

Com isto tudo fiquei de quatro. E ela viu logo isso, a espertalhona. E gostou do que viu.

(continua...)