sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Eu Conheço-te. Desde Sempre



Displicentemente olho para o ecrã do computador e percorro rapidamente os nicks dos presentes. Famosos, conhecidos, outros nem por isso e alguns visitantes.

Imagino sempre este "mundo" como um conjunto de portais, como se fosse um FarmVille com pessoas em vez de vaquinhas, porquinhos e hortinhas virtuais.

Nestes portais reparo que há nicks que estão sempre lá, como se a sua vida fosse efetivamente essa. Cresce-me a sensação de ali não haver vida real e de nem me conseguir aperceber por vezes que são pessoas de verdade. Mas são. Pelo menos acho que sim.

Reconheço alguns nicks pela sua originalidade. Sim, que criar um nick decente e que fique na retina requer um conjunto de predicados que não está ao alcance de qualquer um. Fala a voz da experiência: bem tentei e não consegui.

Mas hoje vim cá porque estou com uma sensação diferente e não a sei explicar por palavras. Deixo-me ir. Normalmente quando o meu corpo pede um determinado alimento eu ouço-o e correspondo logo que possa. Essa comunicação é demasiado instintiva e animal para a ignorar. E a sensação de hoje tem fortes semelhanças.

Percorro novamente a lista de nicks, desta vez com mais atenção. Nada. Estou prestes a desistir mas algo me impede a mão de carregar no off do portátil. Estranho. Quase que ouvia “Olha a lista, olha a lista novamente, meu imbecil!”. Quase a contra gosto percorro mais uma vez a tal lista. “Imbecil porquê? Não há aqui nada!” Penso.

Olho novamente e vejo de repente um nick esquisito que nunca tinha visto e nem consigo descortinar o seu significado ou origem. Fico sem saber o que pensar.

Fiquei logo com a certeza absoluta de ter visto aquele nick na lista, uma e outra vez, tal como o vi agora, mas parecia diferente, como que escondido dos meus olhos porque ainda não estava na altura de reparar nele. Só quando fosse o momento. Que aconteceu agora.

Um sentimento único e novo percorre todo o meu ser. Surge um silêncio súbito - a minha voz interior cala-se, como que a dizer “Sim, é isso.” e reparo que o tempo entretanto pára e tudo fica em suspenso. Por quanto tempo não sei dizer mas nada ouço e nada se mexe. A sério.

Observo com mais atenção o nick. É-me completamente desconhecido mas por alguma razão imensamente familiar. Não consigo explicar essa incongruência, mas aceito-a. Só tive uma sensação semelhante e foi quando ouvi pela primeira vez um nome de uma cidade e ela soou-me como se fosse a minha terra natal. Não a fui visitar. Ainda.

Não sei o que escrevo. Talvez uma mensagem de boas vindas em marciano, ou então uma frase banal.

De Marte ou sei lá de onde a resposta não tarda. Aturdido abro os olhos de espanto. Garanto que não sei o que responderam de volta, mas não é importante. Sinto que nada mais importa pois o sentimento que me invade é intenso, envolvente, único, verdadeiro. Não consigo explicar nada. Decerto nunca o conseguirei.

Ela estava à minha espera do outro lado, e aguardava. Algo a impedia de se ir deitar pois as instruções que invadiam também a sua cabeça eram claras: “Aguarda mais um pouco. Tem paciência.” E estas eram para respeitar, talvez por serem tão inusitadas, ou por serem tão afirmativas.

Ela não viu o meu nick entrar. Ela não estava atenta às entradas e às saídas, nem se preocupava com quem lá estava, habitual ou não. Pediram-lhe para aguardar e não para agir. E ela esperava. Sim, esperava.

Quando a minha saudação inicial lhe apareceu no monitor, foi como se uma mensagem de completa serenidade e familiaridade se tratasse, não de uma intromissão de um desconhecido qualquer. Ela sentiu instantaneamente que era o que tanto esperava. És tu! Eu conheço-te e tu conheces-me. “Olá!”respondeu, de seguida.

Imediatamente tive a certeza do que já sabia no íntimo. Sim, és tu. Eu também te conheço, desde sempre. “Olá também para ti….. Amor. Até que enfim!”