quarta-feira, 4 de maio de 2016

Através dos teus Olhos


Vejo a vida de uma forma diferente desde que te conheço.
E como é diferente esta minha nova vida....
Num instante ficou repleta de novas cores, cheiros, luz e ritmos.
Através dos teus olhos consigo ver um mundo que nunca tinha visto, nem sequer imaginado.
Vejo a vida desta forma porque és diferente de mim, eu sei-o. E ainda bem que o és.
Ver a vida através dos teus olhos faz-me sentir singularmente distinto de quem eu era, como se de outra pessoa se tratasse.
Via a vida como me disseram que era. E era, realmente. Mas já não é. E nunca mais será.
E para isso bastou apenas tirar as vendas que cobriam os meus olhos. Para tudo mudar. Para melhor.
Agora vejo um mundo onde o Amor vale a pena ser sentido e onde a Beleza vive em todas as Almas que a queiram acolher.
Desta forma vale a pena ver a Vida.
Desde que a veja através dos teus olhos....

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O Cata-Vento



Hoje venho prestar uma justa e sentida homenagem a um dos maiores esteios da nossa sociedade: o Cata-Vento, campeão da maioria silenciosa!

A sua maior qualidade é a de mudar de ideias, ideais e de opiniões conforme a direcção do vento, ou melhor dizendo, das posições das pessoas que com se cruza.

E consegue executar essa brilhante dança contorcionista várias vezes ao dia, e sem nunca perder a face!

Com este posicionamento (muito manhoso por sinal) pretende garantir presença no grupo que considera mais numeroso e mais influente, no momento...

Por vezes dá-se ao luxo de participar activamente nas iniciativas, como se realmente tivesse mesmo convicções. Assim, se todos vão para a rua gritar, ele berra. Se todos se calam, nada diz.

O pior é quando lhe pedem a sua opinião.
Aí ri-se de nervoso, fica vermelho como pimentão, as palavras recusam-se a brotar da garganta e em desespero olha para todos os lados para ver se aparece alguém para o safar desse aperto - o que raramente acontece porque os cata-ventos costumam andar como rebanho sem pastor.

Por vezes rodeia-se de amigos que são os maiores machistas que Deus já pôs na Terra, e estes dizem sempre pérolas tipo "as mulheres são feitas de barro de segunda" e "deveriam andar açaimadas para não dizerem tantos disparates".
E ele acena com a cabeça em plena concordância, qual boneco que enfeitava a parte de trás dos automóveis do antigamente.

Mas no recato do lar e na presença da “sua senhora”, pia fino e fica sereno, pois sabe o risco que corre, e dormir no tapete é mal menor pois até já conhece bem o cheirinho do pó rente ao chão.

É que o seu pior receio é o de sentir, uma vez mais, o sabor da madeira amarga do rolo da massa… e isso acontece quando a sua opinião do momento não é inteiramente coincidente com a da sua “patroa”… e por aí sopram ventos tempestuosos!

Mas apesar de tudo o Cata-Vento é extremamente feliz consigo próprio, pois passar uma vida inteira sem tomar qualquer posição ou decisão de vulto é-lhe de um alívio inimaginável.

Mas o ponto alto é quando se aproximam eleições. Ele vai acompanhando as sondagens, apoia e vota invariavelmente em quem vai à frente, e deste modo “vence” todos os escrutínios, festejando rijamente o seu grande sucesso pessoal!

Por estas e por outras é que o considero um dos grandes pilares da nossa sociedade (democrática), pois ironicamente é ele que tudo decide…. sem nada decidir!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Depois... logo se vê!

 
Sabemos bem que a Vida nunca oferece qualquer tipo de segurança, mas como sonhadores que somos, ansiamos sempre pelo certo, seguro e perene.

Coitados de nós de quem o Destino e o Universo se riem perdidamente, pois sabem que a segurança é pura ilusão e sonho inatingível.

Quando nos sentimos seguros de algo é porque estamos apenas distraídos, e que o nosso “karma” se irá encarregar de colocar tudo nos eixos. Neste caso, fora deles.

Em resumo, a Vida é um Caos e que nada é o que parece, e os chamados valores seguros são tudo menos isso.

Mas será a insegurança necessariamente algo mau? Eu considero que não!

A segurança leva ao relaxe, ao confiar nas situações em demasia. E quando se constata a mudança é tarde de mais.

Quantas relações conhece que se desfizeram por haver demasiada segurança? Por terem deixado de lutar um pelo outro? Demasiadas, não?

E estas situações acontecem por julgarem que nada mais há para ser feito, para ser dito, para ser conquistado….

Esquecem-se que tudo na vida tem de ser permanentemente alimentado para poder sobreviver!

É a insegurança e inquietude que nos permite estar atentos e aos primeiros sinais, agir em conformidade.

Melhor é antecipar a mudança, acompanhá-la ou inovar, desbravando novos caminhos, liderando o processo.

Se a insegurança nos leva à ação, a arriscar, a lutar por mais e melhor, a segurança conduz-nos à estagnação e à entropia.
 
Temos de estar permanentemente acordados para a vida e a lutar pelo que amamos!

E ainda bem que a Vida é assim….pois só desta forma merece ser (bem) Vivida!

terça-feira, 19 de abril de 2016

Fechar Portas


O termo “fechar portas” tem para mim um significado quase penoso: reconhecimento que uma determinada pessoa deixou de ter importância para mim…..

Por outras palavras é fazê-la desaparecer da minha vida, por minha única e exclusiva vontade.

Há quem realize esse processo de uma forma (para mim) espantosamente fácil. Assim, do nada. Puff… Simplesmente “já foste!”.

E fazem-no de uma forma rápida, consciente, limpa e firme. Sem remorsos. Sem segunda oportunidade. Nada.

Há ainda os que ciclicamente fazem uma renovação de amigos em tudo semelhante à rotação das estações do ano.

Para eles, amigo de Inverno não serve para o Verão!

Como devem já ter reparado, este processo custa-me. Só o faço quando perco totalmente a esperança.

Mas com o tempo estou a mudar. Estou a desligar-me de quem pouco ou nada representa na minha vida.

Mas desta vez sem dramas, remorsos ou hesitações. Chegou finalmente a minha hora de “fechar portas”….

Mas respeitando a ordem do Universo… fechadas umas…  abrem-se outras, como por magia…..

Talvez a próxima porta que irei abrir seja para ti… Quem sabe?

quarta-feira, 30 de março de 2016

O Armando



Armando Sousa Velasquez é um daqueles tipos “do antigamente”, como já não parece haver muitos. E um mulherengo como eu nunca vi!

Na sua cara há sempre um sorriso sedutor quando vê passar uma “carinha laroca”.

Seja numa festa ou num simples passeio, a sua indumentária é sempre absolutamente impecável. Tudo nele condiz na perfeição.
 
Ele é mesmo de outros tempos....

... em que cada fotografia era guardada com carinho, pois representava um momento único e irrepetível....

.... em que os homens abriam as portas às senhoras, que agradeciam gentilmente, sorrindo....

..... em que a conversa, falada ou escrita, era uma verdadeira arte, não uma troca de mensagens virtuais.

Gosto especialmente da forma como enfatiza a beleza e a simpatia das "suas" amigas. E como elas ficam embevecidas com as suas palavras....

Nunca casou. Diz que nunca conseguiria ser fiel a uma mulher só, no meio de toda esta beleza….

Sendo como é, namoradas ou amigas nunca lhe faltaram. Sempre o vi atrás de uma mulher, ou de várias, pois ele sempre gostou de ter um “cardápio” recheado, por onde pudesse escolher.

Armando era frequentemente perseguido pelas suas “namoradas”, especialmente quando elas sentiam a paixão dele a esmorecer…
 
Bastas vezes os perseguidores eram do sexo masculino! Maridos e namorados enganados que queriam obter satisfações. E alguns destes chegaram mesmo a “chegar-lhe” forte e feio....

E Armando, cheio de hematomas, justificava-se baixinho Escorreguei outra vez na banheira…"

Ao qual responde, com graça, a costureira do nosso bairro: “Então tem de ir comprar um tapete de borracha ao chinês. Ou então mais juízo. Mas acho que isso ele já não vende.”

Tudo muda. E nós mal ou bem vamos acompanhando os novos tempos. Mas não ele.

Recusa-se terminantemente a mudar seja o que for. É que quando cair, cairá de pé, igual a si próprio, pois afinal, ele é o Armando, o último gentleman!



terça-feira, 29 de março de 2016

Gatos Foleiros e Gatos com Muita Pinta



Vou à janela e vejo um pedante gato cinzento a caminhar nas telhas, ou melhor, a pavonear-se feito tonto, como se aquele telhado fosse dele. Ou se o mundo todo lhe pertencesse.

Confesso que nunca gostei de gatos cinzentos. São todos uns vadios, maus e vaidosos. E miam, bufam e bulham por tudo e por nada.

Ainda ontem ao entardecer ouvi tamanho barulho que fui a correr à janela. Até julgava que estava a acabar o Mundo, tal a miadeira que havia!

Era uma feroz luta entre dois gatos cinzentos e tudo por causa de uma gatita branca, por acaso muito linda, com pêlo longo!
No fim ambos ficaram todos arranhados e mordidos, só por causa de uma tipa que quando começou a bulha se pôs logo em fuga e nunca mais ninguém a viu.

Só gosto dos gatos cinzentos quando vou à janela e não os vejo! Raio que os partam. Que desapareçam de uma vez.

De gatos só gosto dos amarelos. São fofinhos e cheios de graça. O pelo deles parece algodão doce. Até apetece….
Eles nunca se metem em brigas desnecessárias, andam de um lado para o outro, mas não se passeiam e muito menos se pavoneiam.

Pode parecer esquisito, mas considero que os gatos amarelos são bem mais inteligentes que os cinzentos. Se puderem tirem a prova dos nove.

Os cinzentos até parecem que são arraçados de galinhas de tão estúpidos!

Os amarelos, pelo contrário, compreendem tudo quando falamos com eles. São mesmo muito espertos.

Volto à janela e lá está! Um gato cinzento a enxovalhar um coitadinho de um amarelo. Isso não se faz! Ele não estava a fazer nada. E nem se defende daquele brutamontes.

Estou mesmo enraivecido. Apetece-me atirar-lhe com uma bota à cabeça para ele ver quem manda aqui, mas.... o meu dono podia não gostar, e eu … também não consigo...
É que afinal, sou apenas um gatito… amarelo.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Cemitério de Elefantes


Sempre me questionei para onde iriam as pessoas que desapareciam da minha vida. Não me estou a referir aos que partem para sempre mas sim dos que deixei de ouvir falar.
 
Nasci e criei-me numa pequena aldeia perto da Serra da Estrela, na Cova da Beira, e toda essa minha vida decorreu numa pacatez impoluta.
 
Conhecia quase toda a gente com quem me cruzava, e todos os estranhos que encontrava me pareciam isso, estranhos. E perguntava-me também de onde viriam. Mas como apareciam desapareciam eu deixava de pensar nisso.
 
O mundo inteiro era-me desconhecido, tal o isolamento a que o meu mundo estava sujeito.
 
Só anos mais tarde conheci o básico, como electricidade, rádio, televisão, estradas alcatroadas e telefone. Luxos aos quais rapidamente intitulei de necessidades.
 
A minha vida e a minha visão do mundo alargou-se, pelo menos um pouco. Já me deslocava a outras localidades e aprendera a conduzir, pelo menos um motociclo.
 
Os namoros vieram, naturalmente. Não eram luxos, eram necessidades naturais e bem humanas. Casei. Nem sei porquê, realmente.
 
Para a maioria dos homens da minha geração, assim como para os mais antigos e lá para as minhas bandas, o casamento não era o que se via e ouvia na televisão. Era diferente.
 
A minha mulher tratava de tudo em casa e de mim, e eu provia do resto. E assim ela deixava-me sossegado no convívio na tasca do Zé, à beira da estrada municipal. Só tinha de estar em casa para a janta. O que poucas vezes acontecia.
 
Vocês sabem, um homem trabalha muito e precisa de estar com os amigos. E esses não têm problemas em chegar a casa quando querem. E nem precisam de dar satisfações.
 
Eu queria ter um casamento como o dos meus amigos, mas a minha mulher era teimosa. Já sabia que a mãe dela era assim, e julguei que a filha fosse diferente. Não era.
 
Os amuos eram frequentes, e os meus gritos e ameaças também. A coisa não correu bem. Quase desde o início. Devolvi-a à precedência. Tinha defeito.
 
Que se lixe. Mulheres há muitas, e de certeza bem menos chatas que esta. E nem precisei de esperar muito.
 
Fui a Espanha com amigos. Salamanca ali tão perto, cheia de guapas que adoram portugueses da Serra. Não devia ter ido, sei-o agora.
 
Encontrei uma rapariga que me devolveu o sorriso. Não o devia ter feito, ela sabe-o agora.
 
Era italiana e estava a tirar um curso sobre uma coisa esquisita. Rasmus ou parecido. Encantámo-nos um ao outro. Não sabíamos porquê mas há coisas que se explicam e outras que não.
 
Ia ter com ela todos os fins-de-semana, e estávamos perdidos. E nem o sabíamos.
 
Quando acabou o tal curso, do qual nunca soube o nome, pediu-me para ir com ela, para uma cidadezinha a sul de Roma. Que podia eu fazer? E foi o que eu fiz.
 
Embarcamos em Madrid para Roma, e gostei de andar de avião. A família dela estava à espera dela, e apenas dela. Senti-me a mais, mas ela lutou e conseguiu que me aceitassem. Fiquei feliz.
 
Descobri o erro mais tarde, mas pouco mais tarde. As nossas diferenças eram grandes. Idade, cultura, educação, perspectivas de vida. Há sempre uma hora em que tudo conta. Muito.
 
Trocou-me rapidamente por alguém que a entendesse de corpo e alma, e não apenas de corpo.
 
Fui fazendo de tudo, e fui ficando por uns tempos. Mas necessitava de ir para outro lado. E voltar não era opção.
 
Andei para sul, e as vistas eram boas. O trabalho rural não me assusta e era disso que sobrevivia. A custo.
 
Cheguei a uma aldeia onde a única tarefa que podia fazer era pastar gado nas colinas. E foi o que fiz.
 
Tão longe e tão perto. Lá estava a minha nova Serra para onde levava o gado, todos os dias.
 
Tenho Facebook. Toda a gente o tem. Quem não tem não existe. Ouvi dizer.
 
Desta forma consegui contactar muitos amigos de infância. Uns estão bem, e outros mais ou menos. Sinto-lhes a falta. E sinto que não sentem a minha falta.
 
Sinto que estou no fim da linha em muitas coisas. E que talvez nunca mais saia daqui. Com pena, pois descobri que há tanto mundo. E eu aqui.
 
Descobri agora para onde foram as pessoas que desapareceram da minha vida. Para o cemitério dos elefantes….