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quinta-feira, 10 de maio de 2018

DARK SOULS 1 Joaquim I

Escurece e vejo as sombras a galgarem os passeios, importunando os incautos transeuntes, que de soslaio evitam encarar tais negrumes.
Estou completamente só na longa noite escura, e atento a tudo, especialmente aos movimentos ou sons que apenas no negrume conseguem existir.
Sob o céu chumbado que me cobre nada parece se passar, mas tenho a sensação que bandos de conspiradores se aglomeram atrás de cada esquina ou porta fechada de prédio.
Estou só na noite como na vida, observando, sorvendo o que se passa apenas pelo tacto, pelo cheiro, pelos sons, pois a visão de pouco ou nada serve.
Ali, na noite escura e tenebrosa, parecem irreais e longínquas as imagens de praias com areias douradas, águas tranquilas e pejadas de sol.
Sento-me na beirada da janela, olhando para baixo, para os seres vivos que fazem da noite o que é, prevendo as suas acções, os seus intentos, os sons e movimentos daí resultantes.
Estudo a noite como se esta fosse algo palpável, vivível, previsível, como se esta possuísse vida, alma, querer e vontade própria.
Recolho-me para a minha própria escuridão, pois as sombras ameaçam-me lá de baixo, por não gostarem de ser observadas.
Não me importo de deixar de ver as sombras da noite, pois por vezes são muito perturbadoras. Prefiro a minha escuridão, a sua serenidade e silêncio.
As minhas sombras não galgam passeios nem importunam ninguém, e apenas se escondem de mim por vergonha e timidez.
Antes de fechar os olhos à escuridão, sou atraído pela Lua branca que me banha a face, e lembro-me do uivo dos lobos. Como eu os compreendo….e invejo!

De súbito, pelo canto do olho, noto uma sombra a ganhar vida, algo inimaginável no recato da minha própria casa!

sexta-feira, 2 de março de 2018

Elsa (7) Final


Vejo a Vida a traçar o seu rumo sem se importar se a quero seguir ou não. Tenho vontade de a chamar, mas sei que ela nem me ouviria. E mesmo que ela parasse para me ouvir, realmente eu não lhe teria nada para dizer....

Julgava eu que estava bem, parado na minha Vida, a ganhar pó e mofo, admirado (e também assustado) a ver os meus amigos e familiares a acasalarem e a reproduzirem-se. Ou seja, a seguirem as suas vidas.

Sentia-me tão bem no metro, a ser levado para o meu Destino, sem tomar decisões nenhumas, a entrar e a sair das carruagens sem ser notado. Era só mais um corpo na imensa multidão.

Mas na realidade, eu estava era parado na estação do metro da Vida, a ver os outros a entrarem e a saírem das carruagens e a seguirem os seus caminhos. E eu limitava-me a olhar para a vida dos outros.

Não sabia que o Destino tinha planos para mim. Inversamente, eu não tinha planos nenhuns para o Destino. Até entrar no metro e deparar-me com a Elsa.

Será que foste tu, Destino, que a puseste na minha vida? Será que foste tu que decidiste por mim que eu não apanharia o autocarro nesse dia? Só assim não a teria conhecido, e não teria saído da minha querida rotina!

Sei perfeitamente que o meu percurso de vida não me levaria a lado nenhum. Uns esparsos amigos e familiares, e sem ninguém a quem deixar o pouco que poderia amealhar no resto da vida.

Sei bem que mais ninguém iria entrar na minha vida, pois estava a certificar-me que todas as portas que levariam ao meu coração estariam muito bem fechadas.

E sei que daqui para a frente iria chorar todas as noites do resto da minha vida por nenhuma Elsa ter entrado na minha vida. E chorar mais ainda por todas as oportunidades perdidas para ser feliz!

Mas aí seria tarde. Demasiado tarde.

Parece que já foi há anos que conheci a Elsa…. Parece que foi há muitos anos que deparei com ela no Metro. E realmente foi….

Acordo. Uma Elsa em miniatura estava sentada ao meu lado, olhando-me fixamente. Pergunto-lhe “Já são horas?” Ao que a Elsa em miniatura responde, com cara de fingida:


Avô, saíste-me cá um dorminhoco! Já vou chegar atrasada aos Escuteiros!

Obrigado Destino. Obrigado Vida. E obrigado Elsa. Quero que saibam que vos estou eternamente grato.

 (FIM)