“- O que é que esse tipo queria agora?” Pergunta o Paulo.
“- Nada. Só chatear-me!” Respondi eu, demonstrando incómodo pela
pergunta.
“- Acho que é mais do que isso. Mas tu é que sabes o que queres.”
E voltou-me as costas, ostensivamente.
Eu nem lhe liguei. É que as últimas
palavras do meu ex continuavam a ecoar no meu coração, forçando-o a bater mais
depressa. Desconfiada que estava bastante afogueada e corada, meto-me na
casa-de-banho para me acalmar.
É verdadeiramente impressionante o poder de um único e inocente telefonema,
e como esse aparentemente simples ato corrói de uma forma poderosa a harmonia
de um casal, especialmente se o telefonema for de um ex, cada vez mais presente na
minha vida.
Na verdade, não era incómodo nenhum receber telefonemas dele. Antes pelo contrário. E finjo nem saber porquê. E outro prazer em crescendo é de irritar o Paulo. Adoro o seu mal-estar, cada vez mais presente. E os
seus ciúmes, tão mal disfarçados.
Assim, e com uma única ligação telefónica do meu ex, obtenho um duplo
prazer, tal e qual como o anúncio daquele gelado com dupla cobertura de
chocolate. E nem eu própria sei qual me sabe melhor. Por não saber, delicio-me
com ambos.
Saio da casa-de-banho já refeita dos calores mesmo a tempo de ver o
Paulo a olhar para o ecrã do meu smartphone, que apitando, sinalizava a
entrada de uma mensagem. Fico bastante apreensiva, gelada até.
“- Que estúpida fui em deixar a
merda do telemóvel em cima da mesa. E onde estava eu com a cabeça para as
mensagens aparecerem mesmo com o ecrã bloqueado?” Pensei em voz alta. Tremia.
Ao sentir-me aproximar, o Paulo olha para mim nitidamente perturbado
e, branco com a cal da parede, pega nas chaves e sai do apartamento. Eu fico
sem reação e sem forças para ir atrás dele. E muito menos de ler a mensagem que tinha
recebido no meu smartphone.
Recordo que até há uns dias atrás tinha uma relação estupenda com o
Paulo. Até lhe tinha dito que ele era o homem da minha vida. Mas tudo veio a
mudar rapidamente com o a estúpida insistência do Fernando. Mas porque raio é
que a natureza humana tem a tendência para destruir as coisas boas?
O meu ex, o Fernando, é aquele tipo de homem que, ao passarmos por ele
na rua, nos atrevemos a olhar segunda vez, nem que seja para apreciar quem
estaria a usar aquela esplendida e caríssima fragância.
Ele é de sorriso fácil, charmoso, bonito, sedutor, e que quando se cai nos seus encantos, somos transportadas para uma nuvem cor de rosa a mil metros do chão. Se a vida fosse feita exclusivamente de sonhos
irreais, ele era o homem ideal.
Na realidade, o Fernando apenas tem para oferecer esse tipo de sonhos.
E ele é muito bom vendedor, pois esse “produto”
foi comprado por muitas mulheres. Porém, estas, depois de aterrarem da sua
viagem de sonho, nunca mais querem saber dele, porque rapidamente descobrem que
a sua (quase) exclusiva atividade é de “pinga-amor”.
Já o “meu” Paulo é o tipo
de homem trabalhador, estudioso e esforçado, e cujo amor por mim é como ele:
honesto, sereno e confiável. Por vezes tenta ser romântico, mas coitadito, não nenhuma
queda para aquilo, especialmente para mim, habituada que estava aos grandes rebates
românticos do Fernando.
Eu e o Fernando acabámos tudo por causa das suas traições, cada vez
mais descaradas. E sabe Deus como eu gostava dele. Mas estava a fartar-me dele com uma rapidez demasiado grande, pois estava a ficar muito incomodada com os seus esquemas de engate.
Num último esforço para que ele me desse mais atenção, convidei-o a
jantar fora, no “nosso” restaurante.
Afinal, pensava eu, gostávamos muito um do outro, apesar de desconfiar
que estava quase a ser descartada, pois deixara de ser a novidade mais recente.
No jantar não contava que ele viesse atrasado, e que durante o
repasto estivesse mais atento às mensagens que ia recebendo e respondendo que a mim, e que antes da sobremesa, ao atender uma
chamada, me fizesse o sinal de que “é só
um instante”. E não o vi mais nessa noite.
Chorei bastante durante semanas, e ele nem me
atendia às chamadas nem me respondia às mensagens. Continuava a gostar dele, mas
cada dia menos um bocadinho, até mais nada restar, achava eu.
Passados uns largos meses, o Fernando, talvez por estar sozinho ou por
ter ganho alguma coragem, ligou-me. E eu, ao contrário das suas ex, atendi.
Nessa altura, claro, já não tínhamos nada, mas ficou a amizade, que se
fortaleceu ao longo dos tempos.
Entretanto, o Paulo surgiu por acaso, como é normal nestas ocasiões. Apareceu
sem promessas vãs, nuvens cor-de-rosa ou poemas declamados, e o nosso amor foi
surgindo, crescendo, infiltrando-se por todos os poros, até não conseguirmos
passar um sem o outro. Mas com o Fernando cada vez mais presente.
Com alguma frequência, o Fernando ligava-me e eu ficava deliciada com
as suas histórias rocambolescas sobre as suas inúmeras conquistas. Sempre o considerei
emocionalmente imaturo, e que jamais passaria desse estado. Era uma criança
grande, sem credibilidade.
Mas uma bela manhã, o Fernando convida-me para almoçar. E eu,
inocentemente ou talvez não, aceitei. Mas que mal poderia haver? Eu estava bem
resolvida, tinha uma excelente relação, era feliz. E ele, apesar de ser um ex,
era apenas um amigo.
Mas ter tantas certezas é tentar o Diabo. E isso nunca é aconselhável,
pois como sabem, ele é sujo. Uma coisa é ouvir a voz do Fernando ao telefone,
outra completamente diferente, é estar com ele, e ver o seu sorriso cativante,
com charme a escorrer pelos poros.
Esse almoço fez-me lembrar as poucas coisas boas da relação com o
Fernando. E se pensasse nas más, decerto diria para mim mesma que: “Ele
está um novo homem” ou “Decerto que aprendeu com os seus erros”.
E não demorou muito para irmos “errar” para casa dele.
Só caí na realidade neste preciso momento, gelada de medo com o que
estava a acontecer. Ver o homem que eu amo, o homem da minha vida, a abandonar
o nosso lar e os nossos sonhos a desaparecerem. E é tão triste, mesmo
desesperante ver o meu porto seguro a fechar-se perante mim.
Toda a minha doce e boa realidade estava agora destruída, por causa
de uma ilusão estúpida, com uma pessoa que já me tinha enganado por
diversas vezes, e que sei não querer mais de mim a não ser usar o meu corpo.
É que tentar o Demo paga-se caro, especialmente se tiver o smartphone à
vista. O Fernando tinha escrito o que já me tinha dito ao telefone, momentos
antes: “Querida, adorei a nossa tarde de amor. Repetimos amanhã? Beijos!”