quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A História a Preto e Branco


Todos nós aprendemos na escola que ao chegarem à Península Ibérica, os Celtas - povo do centro da Europa - encontraram os Iberos - povo proveniente do norte de África, e rapidamente se tornaram amigos e aliados. Mais. Da sua miscigenação resultaram os Celtiberos - base rácica da população ibérica.

Confesso que nunca acreditei muito nessa teoria. Soou-me sempre a propaganda dos anos 30 e 40 do século XX, pelo toque de povo escolhido. Aliás, esses anos foram férteis em situações dessas. Todos os povos eram especiais e únicos, e os seus líderes escolhidos por Deus. Isto não aconteceu só na Península Ibérica mas por todo o Mundo, em que a história era recontada vezes sem conta, sempre adequada ao momento político. Era a história ao serviço do poder vigente.
 
Estaline foi um mestre na arte de reescrever a história. Os seus antigos aliados políticos caídos em desgraça eram retirados dos livros de história e das referências escritas, fotográficas ou de filme. Ninguém poderia voltar a falar deles. Era como nunca tivessem sequer existido

No seu livro “1984” George Orwell retractou de uma forma magistral a necessidade das ditaduras de reescreverem a história. Neste livro as potências vizinhas, conforme fossem aliadas ou inimigas, eram representadas como anjos ou como demónios. Se a situação se alterasse, ou seja, se a potência aliada passasse a inimiga, o passado era reescrito de acordo com a nova situação. O anjo caído era agora um demónio. Os que eram povos irmãos até aquele dia tornavam-se inimigos desde sempre. Era o branco e o preto. Não havia cinzento.
 
Os Estados Unidos e Cuba estão agora mesmo a reescrever as suas respectivas histórias. Os americanos estão decerto a suavizar as frases sobre Cuba nos livros de história, de forma a que o antigo “feroz ditador Fidel Castro” seja agora retratado como um homem apenas ligeiramente obstinado. Politicamente convém não afrontar o ditador que seguiu a Fidel: o seu irmão Raúl.

Decerto que para os verdadeiros revolucionários cubanos (e um pouco por toda a América do Sul) também lhes soará mal a nova situação. Sem mais nem menos, o antigo “Grande Satã americano”, eterno inimigo da revolução castrista, abre embaixada em Havana. Como estarão a ser alteradas nos livros de história cubana situações como a Baía dos Porcos e Guantanamo? E qual será agora o novo inimigo da revolução cubana?

Li algures que Fidel Castro fez há uns anos uma profecia, referindo-se decerto ao impossível: “Cuba e os Estados Unidos só se aproximarão quando houver um Papa for sul-americano e os EUA tiverem um presidente negro.” E não é que o homem acertou?

Na minha opinião, esquisito mesmo é ver um líder de um regime comunista ter o dom de premonição!