quinta-feira, 15 de abril de 2021

A Felicidade



Na sociedade digital e das redes sociais do século XXI, estabeleceu-se a ideia que o único objetivo da vida é o de se alcançar a Felicidade.

Mas para isso tens de ser jovem, bonito, corpo perfeito, rico, simpático, famoso, e estares acompanhado de pessoas como tu, e sempre a divertirem-se em lugares paradisíacos.

Por isso, só podes ser verdadeiramente feliz se estiveres com pessoas lindas, num resort de cinco estrelas e exclusivo nas Bahamas, a beber Champagne Cristal e a comer lagosta suada ou trufas.

Imprescindível é publicares tudo o que deliciosamente fazes no Instagram, apenas e só para chatear os invejosos e para eles terem a real ideia da vida que tu tens, e que eles não têm e que nunca terão.

Também importante é que, depois de teres atingido a felicidade suprema, tens de garantir que esta será eterna, como nos contos de fadas, que terminam com a frase “e foram felizes para sempre…

É evidente que, com este conceito de felicidade verdadeiramente inatingível, criou-se uma geração de pessoas frustradas e sem autoestima, que, vivendo a felicidade dos outros à distãncia de uma rede social, nem sequer tentam ser felizes, apenas sonham sê-lo.

Eu, porém, só consigo atingir a felicidade se estiver verdadeiramente bem comigo próprio, pois é dentro de mim que tenho de encontrar o que realmente me faz feliz.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Revelações

 


Considero o ato de Pensar como algo maravilhoso, especialmente quando desse ato consigo obter revelações acerca dos verdadeiros significados sobre situações e sentimentos.

Depois desses exercícios mentais, fico a chamar-me de estúpido, pois estas revelações estiveram sempre ali, pacientemente à espera que eu as descortinasse.

Mas porque é que estou a obter esse tipo de descobertas tão tarde? É que se tivesse obtido essas respostas mais cedo, teria tomado outras opções e a minha vida teria sido outra!

Mas como as revelações estão a ser tardias e a conta-gotas, só me permite dizer “se eu tivesse sabido disto mais cedo, teria agido ou decidido de outra maneira!

Sei que o tempo não volta atrás, que as situações ocorridas já fazem parte do passado, e “não adianta chorar sobre o leite derramado”.

Na realidade, nunca escutei os mais velhos, e decerto que cada um deles devia ter tido também as suas revelações, mas que nunca mas transmitiram. Mas agora sei a razão.

É inútil e escusado transmitirmos revelações, pois cada de nós é que deve obter os conhecimentos, pois estes são adaptados à realidade de cada um de nós.

Cada ser humano é único e irrepetível, fruto da sua genética e de percursos pessoais, moldados através da educação, das relações e dos conhecimentos.

No entanto, malditas revelações, que chegam apenas no balanço da vida, quando já é demasiado tarde para poder mudar seja o que for.

Mas é assim a Vida. E nada mais me resta senão aceitá-la tal como ela é.

quarta-feira, 3 de março de 2021

A Minha Pandemia Privativa

 



Até finais de 2019 a maioria das pessoas nunca tinha ouvido falar da palavra pandemia. Eu já sabia o que era, mas só de ler nos livros de história.

Nas descrições da história da humanidade, há sempre menos referências às pandemias do que à vida dos poderosos.

Vê-se bem que a doença, a fome e a morte das pessoas comuns nunca mereceu destaque, pois sempre foi a regra, nunca a exceção.

Tenho atravessado esta pandemia de uma forma quase singular, pois tenho ido trabalhar todos os dias, estando fisicamente no mesmo local de trabalho, a fingir que nada se passa.

Ver a sala sem colegas, os edifícios desertos, os passeios sem pessoas e as lojas e restaurantes encerrados, mexe comigo, e não há maneira de me habituar.

Confesso que por vezes sinto-me, no meu local de trabalho despido de pessoas, como se fosse “o último homem na Terra”, e acreditem, não é uma boa sensação…

Acredito que as pessoas que estão fechadas em casa, por razões inversas às minhas, também estão mexidas. E algumas, mesmo muito.

Pergunto-me se os confinados estão desejosos de sair ou, inversamente, vão continuar com receio de estar com outras pessoas.

Dizem que é para breve que vamos todos sair de casa, respirar sem máscara, viajar, abraçar e falar de outros assuntos.

O que não dizem é que bastará um boato de que anda outro vírus a circular para que todos se voltem a refugiar nas suas casas, em pânico.

É que se “gato escaldado de água fria tem medo”, os humanos são muito piores que os gatos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A P*ta da Vida (2)



SEGUNDA REFLEXÃO SOBRE ESSA RAMEIRA

Estou entre a espada e a parede, com a ponta da lâmina a furar-me o peito, e a começar a doer bastante.

Estou naquela idade em que sinto o tempo a fugir, mas ainda estou com muita vontade de poder fazer muita coisa.

Porém, tenho cada vez mais consciência que, por mais que me esforce, já não conseguirei fazer tudo o que gostaria.

Sinto pena, não de mim, mas por mim….

Eu até nem comecei tarde, mas por causa de ti, P*ta da Vida, parei, divergi, atalhei, e quando dei por mim, não estava a fazer nada do que tinha desejado e previsto.

E quando quis retomar o caminho original, vi surgirem todos os obstáculos possíveis e imaginários.

Agora, que ganhei consciência que, para fazer coisas que gosto, não é preciso estarem reunidas as condições ideais, já não tenho tempo para tudo fazer.

Estou a tentar retomar, mas sinto um amargo de boca pelo tempo de vida desperdiçado, pelas coisas que já não vou descobrir, pelos mistérios que nunca irei desvendar.

P*uta da Vida que não me avisaste que a Vida era tão curta, que passava tão rápido, e de que eram precisas duas ou três vidas para poder sentir que vivi em pleno.

E, sinceramente, porque raio não me deste tu um simples manual de instruções de “como viver”? É que sempre me terias poupado a muitas frustrações.



segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A P*ta da Vida (1)

 

PRIMEIRA REFLEXÃO SOBRE ESSA RAMEIRA

Uma grande amiga minha disse-me uma vez que por vezes não sabia o que queria, mas sabia muito bem o que não queria. Depois disso já ouvi essa pérola de sabedoria mais algumas vezes, mas isto é como tudo, pela primeira vez tem sempre mais impacto.

Realmente é fundamental sabermos o que não queremos aturar, o que não podemos permitir, o que não estamos dispostos a que nos façam. O resto torna-se mais fácil, pois ao traçarmos uma linha definida do NÃO, tudo o que fica do outro lado é SIM.

Mas a Vida, essa Gaja Insana, não facilita, e coloca entre o NÃO e o SIM uns “talvez”, “de acordo com as circunstâncias”, “se for assim não, mas se for de outra forma sim”, e assim por diante, que transforma o que era apenas branco ou preto num quadro com enormes manchas cinzentas.

P*ta de vida que tanto me lixas! Por que razão nunca me colocas em situações perfeitas ou perante pessoas perfeitas? É que para imperfeito já basto eu, e não preciso de mais. Mas assim seria demasiado fácil, e tu não estás para me facilitar nada, pois não?

É que se nem a mim próprio consigo entender, escuso de continuar a tentar entender os outros, tornando-se perfeitamente inútil estabelecer qualquer tipo de empatia perante pessoas que são tão doidas e incoerentes como eu próprio. Ou piores ainda, se fosse possível.

Cada vez tenho mais a certeza que nunca soube viver, e por isso invejo os outros que realmente o sabem fazer, facilmente. Sempre defendi a ideia que viver é fácil, mas que, muitas vezes, o pessoal é que complica.

Raios! O que é que se passa comigo, afinal? Terei faltado a uma lição importante de vida? Terei interpretado mal alguma coisa? Serei demasiado estúpido para perceber? Mas já não importa, pois estou resignado de que nunca saberei a verdade.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O Crápula (6 de 6) Epílogo

 

EPILOGO

Peguem num rapaz traumatizado por ter uma matrona como mãe, que teve de se assumir como adulto de um dia para o outro, que foi obrigado a casar porque tinha engravidado uma rapariga. Já não é pera doce.

Agora peguem nesse homem traumatizado, e revelem-lhe que a mulher com quem se casou, por estar grávida, afinal já estava nessa situação antes de o conhecer. É que a Rita se tinha perdido de amores por um vizinho, que a desvirginou e emprenhou, e que ela continua verdadeiramente apaixonada por ele.

Tudo isto fez com que o Hélder se transformasse num ser extremamente frio, calculista, cruel, que despreza finamente os outros seres humanos, principalmente as mulheres, que para ele, são a fonte de todo o mal, qual Eva, que fez entrar o pecado original no Paraíso.

Ele agora só está contente quando engana alguma mulher, quando a faz apaixonar perdidamente por ele, para depois a humilhar, a fazer sofrer horrores, de lhe dar uma réstia de esperança de entendimento, para logo de seguida mudar de ideias.

Quantas não vimos a chorar, desesperadas, depois de lhe irem bater à porta e ele nem se dignar a recebê-las? Quantas deixaram tudo para trás em busca do verdadeiro amor, e caíram? Quantas ele deixou desonradas perante as respetivas famílias?

O Hélder tornou-se assim no maior crápula de que já existe memória, mas, de quem lhe conhece a história da razão desse procedimento, o culpará verdadeiramente? Eu não, se bem que me arrepie sempre que me lembre do que lhe fizeram e do que anda a fazer.

As histórias dele chegaram-nos aos ouvidos por muito tempo, e passado algum tempo já nem tinham interesse, pois eram meras repetições de um esquema de atração e de repulsa, e que já nem sentíamos pena das vítimas.

Deixámos de ver o crápula por uns tempos, e só pensámos que alguma já se vingou e o Hélder já deve estar ou no fundo de um ribeiro, com uma pedra ao pescoço a servir de gravata, ou sete palmos abaixo do chão num ermo qualquer.

Os próprios pais dele andavam muito preocupados, pois nem eles tinham quaisquer notícias da sua pérfida cria, e claro que temiam o pior. E as semanas passavam e nada do Hélder. E assim passou a Primavera, o Verão, o Natal, a Passagem do Ano e nada. Já quase nos esquecemos dele.

Antes do Carnaval, alguém apareceu a dizer que tinham visto o Hélder a caminhar na praia, e quando o saudaram, ele respondeu, muito bem-disposto. Estava, portanto, vivo e de boa-saúde. Mas nada de aparecer.

No Domingo de Páscoa, quando vínhamos da Missa, reparámos num táxi que tinha acabado de estacionar, e de lá saiu o Hélder, acompanhado de uma mulher. Estranhámos, pois ele nunca tinha trazido nenhuma para casa dos pais. Elas só iam bater-lhe à porta depois de descobrirem onde ele morava.

E para nosso espanto, nos braços dele carregava um bebé. Ele ia de mão dada com a mulher, que transbordava confiança. O crápula tinha desaparecido, e o Hélder tinha ressurgido. Graças ao Amor.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

O Crápula (5 de 6) História

 


HISTÓRIA

As discussões entre a Rita e o Hélder começavam todas as manhãs bem cedo. E com os gritos acordavam a D. Ermelinda, esta metia-se no meio para os calar. No início ainda conseguia impor alguma ordem, mas foi sol de pouca dura.

Todos nós percebíamos que o Hélder estava prestes a explodir, e que quando a “coisa estava quente”, ele ameaçava contar a todos. Nessas ocasiões todo o bairro sustinha a respiração para ouvir. Era a altura em que a Rita deixava de gritar e batia com a porta. E todos nós retomávamos o que estávamos a fazer.

Todos os dias era a mesma coisa. Gritos ao pequeno-almoço, porta do quarto a bater e a porta da rua a bater, pois o Hélder ia trabalhar. Passadas umas horas ele regressava do trabalho e havia mais gritos até ao jantar, porta do quarto a bater. E desta forma sabíamos as horas, pois eles eram muito pontuais na sua gritaria.

Tornou-se um hábito, uma rotina familiar. Não eram os únicos no bairro. Só se tornavam notados por serem quem são, pela sua história, e por sabermos que para além de se darem mal, ali havia história que fedia. E que todos queriam saber.

Claro que já lhes tinham tido várias vezes que não podiam andar nas discussões, pois a Rita estava grávida e que isso podia fazer mal à criança, mas era escusado. Parecia que eles adoravam aquilo, e até a D. Ermelinda já não conseguia parar as batalhas verbais dos dois.

Num sábado eles estavam, como habitualmente aos urros um com o outro. E foi quando a Rita bateu a porta do quarto que ele disse, numa voz rouca e mais calma que o habitual “Amanhã à noite os teus pais vêm cá jantar e vou-lhes contar tudo”.

Não se ouviram mais discussões, nem nesse dia, nem no outro. Aliás, não se ouviu um pio nessa casa. Só vimos a D. Ermelinda a comprar uns pargos muito jeitosos na peixaria, sinal que o jantar com a família da Rita era de importância.

Somos um povo curioso, demasiado até. Nunca tínhamos visto os pais da Rita, e queríamos saber quem eles eram, e por isso todos nós ficámos na rua ou na janela, a fingir que não era nada, quando vimos aparecer no principio da rua um casal bem-apresentado. Só podiam ser eles. Os pais da Rita chegaram.

Toda a rua estava parada a vê-los. E quando os pais da Rita notaram que eram o foco das atenções, assustaram-se. Estavam já a dar uma cautelosa meia-volta quando o pai do Hélder apareceu a saudá-los e os encaminhou para sua casa.

Quando por fim acabou o jantar, todos nós vimos os pais da Rita saírem, e com eles a sua filha, já com uma barriga que metia dó, com umas trouxas de roupa, sinal que a sua estadia em casa do Hélder tinha terminado.

O pai do Hélder saiu pouco depois, visivelmente abalado. Ia beber alguma coisa forte. E confidenciou a um amigo que o bebé afinal não era do Hélder. Ele tinha sido enganado por aquela putéfia. E o Hélder tinha descoberto a trama através de uma prima da Rita, que não gostava nada dela e sabia da história.