sábado, 21 de abril de 2018

O Último Romântico (A Paragem de Autocarro)

"Caraças, que vou ficar todo encharcado!" e ali estou eu, nesta manhã cinzenta, a correr para a paragem de autocarro, tentando escapar às grossas pingas de chuva. Ao chegar, deparo com um monte de gente que ocupa quase por completo o resguardo da paragem.
Ao olhar em redor, em busca de algum rosto conhecido, deparo com uma linda jovem, não daquelas voluptuosas que fazem parar o trânsito, mas sim daquelas belezas simples com traços de exotismo, misturada com serenidade e irreverência. No fundo, estranhamente atraente.
Começava eu a apreciar a beleza da jovem quando um vistoso carro pára junto da paragem, e sem sequer se dignar a sair da viatura, o seu condutor faz sinalética para a jovem, oferecendo-lhe boleia, ao que ela fingiu não reparar. Pelo que percebi, eles já se conheciam e talvez por isso estava a recusar a boleia.
Entre as várias pessoas presentes na paragem de autocarro, estava um homem, que apercebendo-se tardiamente da situação, dá um toque no cotovelo da jovem, dizendo-lhe “Menina, parece que aquele senhor ali do carro está a falar consigo”, e logo uma idosa simpática diz alto e bom som filha, se não quiseres a boleia diz ao teu amigo que aceito eu”, e todos nos rimos, até os jovens borbulhentos que com os olhos a brilhar dizem uns para os outros que “quando for grande quero ter um carro assim. E sacar as gajas todas”.
E ali estava eu, cada vez mais revoltado com o machismo do individuo, a insistir junto da jovem, numa sinalética tipo “entra no carro e deixa-te lá de coisas”, pois com o barulho da chuva era impossível ele fazer-se ouvir. Odeio os homens que ostentam riqueza para atrair as jovens bonitas, mas odeio ainda mais os insistentes, e que nunca aprenderam a saber ouvir um simples “não” da parte de uma mulher.
Ao chegar o autocarro à paragem, o caos instala-se, pois o estúpido do condutor do carrão está tão focado na jovem que nem repara na chegado do transporte público. O condutor do autocarro, ao ver o seu lugar ocupado, buzina com força, os utentes, indignados por terem de caminhar desde a paragem até ao autocarro sob forte chuva, protestam violentamente, e tudo culmina com um valente murro no carro, dado por um dos jovens, assustando e irritando o dono da viatura.
Este, que devia amar mais o seu carrão do que a sua própria integridade física, sai da viatura, pronto a enfrentar os “ferozes meliantes”, aproveitando a idosa, irritada por não ter boleia e ter de a andar à chuva sem necessidade, para lhe bater com o seu guarda-chuva, ao mesmo tempo que grita “Vai-te embora daqui, malandro, que ela não te quer para nada”, ao que o dono do carro, furioso, reage imprudentemente “Mas o que é queres ó velha? Nem sabes do que se passa!
Ao ouvirem esta grosseira ofensa à vetusta senhora, alguns utentes, já indiferentes à chuva que caía cada vez mais grossa, começam a ofender o homem e a maltratá-lo, e a situação começa a descontrolar-se, chegando rapidamente às “vias de facto”.
Entretanto, a jovem e atraente mulher, que por querer livrar-se do “chato” tinha sido das primeiras pessoas a entrar no autocarro, apercebe-se do que estava a acontecer no exterior, e dirige-se para uma das saídas do autocarro com o propósito de se meter no meio do tumulto. Antecipo, pelo seu comportamento, que ela estava, inexplicavelmente, pronta para ir defender o condutor do carrão.
E eu, que já estava prestes a entrar no autocarro, fico muito indignado com esta postura, e num assomo de coragem, agarro-a pelo braço, tanto para a impedir de se dirigir para o meio da confusão - com receio de ela se ferir - como para mostrar a minha revolta, e digo, com a voz mais grossa que consegui “Não posso permitir que vá ter com aquele bruto! Merece é alguém que a respeite, não que a humilhe!
Ela olhou para mim incrédula, e só não se riu porque a situação já se tinha tornado grave, pois alguns populares estavam entretidos a esbofetearem o condutor do carrão. E ela, libertando-se de mim, grita a plenos pulmões “DEIXEM O MEU PAI EM PAZ!” E entrando no automóvel, lá seguiram os dois, deixando-nos a todos totalmente aparvalhados…..
Soube depois que era só um pai que insistia em levar a sua filha de automóvel até à universidade por estar a chover muito, e ela recusava porque as relações entre eles estavam um pouco azedas. Mas eu já tinha feito um filme repleto de coisas menos próprias, e tirei conclusões muito precipitadas.
Mas, acreditem, nem este episódio me serviu de emenda, conforme poderão constatar no próximo episódio.