sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

D. Luisa (1 de 2)


O pobre automóvel andava à volta do bairro há bastante tempo, bufando, sem se decidir por um dos inúmeros lugares de estacionamento disponíveis.

Para a D. Luisa todos os lugares eram “demasiado estreitos”. Ou então “estacionar do lado esquerdo nem pensar”. Bem, se fosse do lado direito era igual.

É que a D. Luisa procurava o que chamamos de "um lugarão". Vocês sabem, daqueles que se estacionam de frente e com uns bons cinco metros entre o seu automóvel e os outros.

E, claro, mesmo dentro da sua praceta. E de preferência, junto à porta do prédio, para não ter de andar muito.

Como habitualmente nestas ocasiões a Proteção Civil, o INEM e a PSP estavam de prevenção, tendo já sido emitidos os alertas da praxe à população e as barreiras já estavam colocadas, estando os maqueiros dos Bombeiros nas suas posições habituais.

As saídas de automóvel da D. Luisa careciam de tantas prevenções e cuidados como as largadas de touros em Vila Franca de Xira. Aliás, eram consideradas bem mais perigosas.

E até tem sentido. É que nas largadas os habitantes dessas localidades já estavam prevenidos.

O pobre do automóvel continuava a dar voltas sobre voltas, e as ruas do bairro iam ficando cada vez mais vazias de transeuntes, acumulando-se no Centro Comercial ou fechando-se em casa, com tudo corrido.

Nem sempre foi assim naquele pacato bairro. A D. Luisa desde sempre teve licença para conduzir, mas felizmente para todos, teve sempre um receio quase patológico de conduzir.

É que tenho de olhar para tanta coisa que não consigo”. Dizia. E os seus vizinhos sorriam de evidente felicidade. Agora já não o fazem.

Realmente assim era. Conduzir um automóvel requeria colocar as mudanças, olhar para o espelho retrovisor do lado do condutor, do lado do pendura e do habitáculo, saber quando era necessário colocar o pisca da esquerda e o da direita, o limpa pára-brisas e as suas múltiplas velocidades, estar atenta aos outros automóveis, aos erráticos transeuntes, aos semáforos, aos sinais verticais, às passadeiras…...

Num frio mas soalheiro dia a notícia alastrou-se mais rápido que o vírus da gripe numa sala de espera de um Centro de Saúde!

É que alguém tinha visto a D. Luisa sentada no lugar do condutor de um automóvel novo, branco leite! E ainda por cima sem o marido ao lado.

Foi um escândalo. Todos comentavam “Já viram isto?”, “Eu com esta idade já não posso anda a fugir daquela mulher” , “Com o andarilho não consigo correr nas passadeiras!” ou ainda “Vou-me mudar. Não quero correr riscos”.

Assistiu-se então naquele bairro às cinco fases habituais de uma muito má notícia:

A negação Não, a D. Luisa jamais iria conduzir num automóvel

A raiva Eu mato-a. Eu desfaço aquela gaja!

A negociação D. Luisa, mas afinal o que quer para que não conduza?

A depressão Eu jamais irei sair de casa novamente!

A aceitação Foi o destino. Não posso fazer nada em relação a isso….

Andava tudo incendiado para aqueles lados. É que para cúmulo o automóvel que a D. Luisa tinha adquirido não era dos chamados “Papa Reformas”, que com o seu motorzito, que caso choquem com algum incauto transeunte não matam mas desmoralizam.

Não, a D. Luisa tinha investido num 1200cc, por isso, perigosíssimo. Nas mãos dela, claro.

Cientes de que aquela zona se tinha tornado mais perigosa que Alepo, as companhias de seguros tinham feito disparar os prémios dos seguros de acidentes pessoais de todos os moradores da zona, para consternação de todos.

Instantaneamente os preços das casas entraram em profunda baixa, as lojas começaram a fechar e toda a economia da zona entrou em profunda depressão.

Foi o transbordar do copo!


(continua)