terça-feira, 4 de outubro de 2016

O Zé do Tuk-Tuk (1 de 3)


O Tuk-Tuk voava a grande velocidade através dos incrivelmente estreitos becos de Alfama, como se o próprio demo o perseguisse, e de perto. Para além do ruído estridente da buzina, Zé gritava a plenos pulmões “sai-me da frente ó mongas” a cada cruzamento, ou seja, a cada metro e meio, sem contar com as portas das casas que davam para a rua, ou seja, de vinte em vinte centímetros. Lindo.

As duas turistas dinamarquesas, enfiadas nos desconfortáveis bancos da infortunada viatura, e ambas já com idade para mais juízo, iam ruborizadas pela emoção e com um olhar tão maroto e traquinas que não enganavam ninguém. Também pudera, nunca tinham tido tanta carga de adrenalina junta. E lá iam, agarradas como podiam aos ferros do animal, tentando não se baldarem.

Mas aquelas gajas é que foram as culpadas, sô guarda, embebedaram-me….”, disse mais tarde e muito menos bêbado, Zé, na Esquadra do Terreiro do Paço, onde prestava declarações junto do Agente Duarte, que apesar de batido “em cenas doidas” e já ter visto muita macacada, estava totalmente aparvalhado com o que dizia aquele energúmeno, sentado perante ele.

Lentamente, o Agente Duarte puxa a cadeira para ficar mais perto de Zé e deixa mesmo de escrever, e abaixa-se um pouco para ouvir ainda mais atentamente, criando um efeito de pura cumplicidade entre eles. À volta do Zé já estavam uns catorze ou quinze mamíferos, a maior parte deles polícias, mas já à mistura também havia turistas e carteiristas. A fauna toda, portanto.

Acto contínuo Zé puxa de um cigarro e acende-o, ao mesmo tempo que saboreava a primeira bafo pergunta “posso fumar?” e uma mão responde “caga nisso”, pois toda a gente queria é que ele contasse a história todinha, pois esta prometia.

A carripana do Zé chega com estardalhaço à Casa dos Bicos vindo sabe-se lá de onde e desce de uma só vez os três ou quatro degraus que aquela estranha construção tem à frente, enquanto diz qualquer coisa como “Saramagooooo” numa entoação que nem por sombras parecia com uma língua, viva ou morta.

Por falar em língua, com este último golpe da carripana as dinamarquesas tinham aterrado de queixos junto a um ferro horizontal que separava os condutores dos conduzidos. E uma delas tinha trincado fortemente a língua e urrava de dor e de ódio, e a outra, bêbada de ginja de Alfama e de tinto de Azeitão, urrava de adrenalina e de riso.

A dinamarquesa, ao ver o seu próprio sangue, agarra o cabelo do Zé como se não houvesse amanhã e este, assustado dá ainda mais gás à geringonça demoníaca que, guinchando como uma porca, põe-se aos ziguezagues pela Rua do Comércio, assustando de morte quem por lá andava.

A “camone” continuava a arrancar furiosamente o escalpe do Zé, enquanto este ia olhando para trás dizendo “atão minha, qé qé isso?” e nem viu que o seu Tuk-Tuk estava completamente desgovernado e pronto para chocar em qualquer coisa. E afocinhou brutalmente na porta da frente da sede dos Impostos!

Choveram dinamarquesas por toda a Rua do Comércio e arredores, e uma delas foi aterrar em cima da Carlinha, a segurança que estava à entrada do edifício, e que nem viu o trambolho enorme a vir na sua direcção pois estava absorta em contar aos amigos por whatsapp que tinha acabado de apanhar o raríssimo Pokemon Dewgong! Atenção aos menos atentos. Apanhar esse espécime não é para todos, garanto-vos.

(continua)