domingo, 14 de maio de 2017

Transilvânia (3 de 3)


Quando desperto julgo estar no Reino das Profundezas. Mas com medo do capeta não abro os olhos.
O primeiro sentido a apurar é o do olfacto. Olha que o raio do capeta cozinha mesmo bem, se a comida souber tão bem como cheira!
O segundo sentido é o do tacto, pois quando coloco a mão na minha testa descubro que tem um pano a cobri-la.
Será que os capetas enfaixam os pobres desgraçados que lhes calham? Nunca tinha ouvido dizer…
Abro os olhos num repente e vejo apenas uma mulher a cozinhar, com um filhote ao tiracolo. Eles os dois não se parecem nada com seres das profundezas.
Olho em redor e vejo que estou numa cabana de chão batido, rudemente construída.
As frechas das tábuas das paredes deixam passar a luz do fim da tarde, e a comida está a ser feita numa simples fogueira no centro da habitação.
Desperto num supetão. Mas onde raio estou eu afinal? E quem é esta gente?
Mas ao tentar levantar-me as forças faltam-me. E apago. Outra vez…. Isto está a tornar-se um hábito….
… | …
Acordo numa cama de hospital na capital do país, a centenas de quilómetros de onde tinha estado.
Ao meu lado está um tipo que até pelo pigarrear topo que é português. Um engravatado da Embaixada.
Diz-me que os contactaram ao descobrirem a minha nacionalidade, que eu estava bastante ferido e não sabiam mais o que fazer, e tinham receio que me finasse lá por aquelas bandas.
Ainda estou a conversar com o tipo quando olho para o lado e me assusto de morte, pois no quarto acaba de entrar um dos mal encarados que me queriam fazer mal, lá nas montanhas!
Eu tentei-me levantar um pouco mais os braços para me defender mas não consegui. Estava espantosamente fraco.
O mal cheiroso cumprimenta o tipo da Embaixada. Conheciam-se. Compreendi então que foram esses tipos que telefonaram….
Eles não eram, de todo, os maus da fita!
E eu a julgar que as estacas de madeira e as balas de prata que vi no automóvel deles eram-me destinadas.
Afinal eles andavam a caçar era outro tipo de bicho….
… | …
Estava então de regresso à nacional pátria, desta vez de avião. Um verdadeiro luxo para mim, pois o meu modo de viajar mais habitual é na cabina de camiões TIR.
Sentia-me realmente muito triste por ter estado na Transilvânia e de não me lembrar de nada. Rigorosamente de nada!
Era como se tivesse tido uma forte amnésia desde que tinha entrado naquela região, e que me tivesse deixado apenas fragmentos de visões, muito sombrias, por sinal.
Tinha percorrido as suas frondosas florestas, é certo, mas a maior parte do tempo passado a fugir de caçadores de seres imaginários e de lobos. E pouco mais.
Restava apenas tinha uma prova de que lá tinha estado!
…. dois pequenos furinhos no pescoço……
(fim)