quarta-feira, 22 de maio de 2019

A Minha Queda


Estou no topo de um penhasco a preparar-me para o que pretendo fazer. Sei que preciso de toda a minha coragem. Mas desta vez sei que vou tê-la.
No fundo receio acobardar-me à última hora, de não conseguir fazer o que pretendo fazer. O que tenho de fazer. E que não posso adiar mais!
Num repente, como se tivesse ouvido um apelo, respiro fundo, abro os olhos, ponho uma expressão de determinação inabalável e penso “É agora, tem de ser agora!
De dentes cerrados e com passos firmes, aproximo-me do penhasco, e olhando pelo última vez o horizonte, penso: “Que vista espetacular. Pena que nunca mais a verei”.
E abrindo os braços, lanço-me em direção ao infinito. Sinto-me a sorrir por dentro. “Então é assim que tudo acaba!” E uma paz inimaginável toma conta de mim.
A sensação vertiginosa parece interminável. Julgava que fosse algo rápido, instantâneo. Mas não. É um tempo que nunca mais acaba. E os pensamentos começam a fluir.
É mesmo verdade o que dizem, que nestes momentos, passa um filme diante dos nossos olhos, com os melhores momentos da vida.
Choro, não pelo forte vento que me chicoteia os olhos, mas pela saudade de tantos que passaram pela minha vida, e que nunca mais os verei.
Tão triste fico que quero parar o que estou a fazer, mas já não posso. Neste momento, nada nem ninguém poderia reverter o que está a suceder.
Mentalmente apercebo-me então que está a chegar o fim. E espero, em verdadeira Paz. E quando este finalmente chega, sinto o corpo a gritar de dor, com todos os torções e choques.
E depois, o silêncio. Apenas o silêncio.....

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Que desilusão. Julgava que era outra coisa…. Diferente. E muito melhor. Acho que nunca mais vou voltar a praticar bungee jumping.
E eu que vim de longe e paguei tão caro para isto…

terça-feira, 7 de maio de 2019

O EX

- O que é que esse tipo queria agora?” Pergunta o Paulo.
- Nada. Só chatear-me!” Respondi eu, demonstrando incómodo pela pergunta.
- Acho que é mais do que isso. Mas tu é que sabes o que queres.” E voltou-me as costas, ostensivamente.
Eu nem lhe liguei. É que as últimas palavras do meu ex continuavam a ecoar no meu coração, forçando-o a bater mais depressa. Desconfiada que estava bastante afogueada e corada, meto-me na casa-de-banho para me acalmar.
É verdadeiramente impressionante o poder de um único e inocente telefonema, e como esse aparentemente simples ato corrói de uma forma poderosa a harmonia de um casal, especialmente se o telefonema for de um ex, cada vez mais presente na minha vida.
Na verdade, não era incómodo nenhum receber telefonemas dele. Antes pelo contrário. E finjo nem saber porquê. E outro prazer em crescendo é de irritar o Paulo. Adoro o seu mal-estar, cada vez mais presente. E os seus ciúmes, tão mal disfarçados.
Assim, e com uma única ligação telefónica do meu ex, obtenho um duplo prazer, tal e qual como o anúncio daquele gelado com dupla cobertura de chocolate. E nem eu própria sei qual me sabe melhor. Por não saber, delicio-me com ambos.
Saio da casa-de-banho já refeita dos calores mesmo a tempo de ver o Paulo a olhar para o ecrã do meu smartphone, que apitando, sinalizava a entrada de uma mensagem. Fico bastante apreensiva, gelada até.
- Que estúpida fui em deixar a merda do telemóvel em cima da mesa. E onde estava eu com a cabeça para as mensagens aparecerem mesmo com o ecrã bloqueado?” Pensei em voz alta. Tremia.
Ao sentir-me aproximar, o Paulo olha para mim nitidamente perturbado e, branco com a cal da parede, pega nas chaves e sai do apartamento. Eu fico sem reação e sem forças para ir atrás dele. E muito menos de ler a mensagem que tinha recebido no meu smartphone.
Recordo que até há uns dias atrás tinha uma relação estupenda com o Paulo. Até lhe tinha dito que ele era o homem da minha vida. Mas tudo veio a mudar rapidamente com o a estúpida insistência do Fernando. Mas porque raio é que a natureza humana tem a tendência para destruir as coisas boas?
O meu ex, o Fernando, é aquele tipo de homem que, ao passarmos por ele na rua, nos atrevemos a olhar segunda vez, nem que seja para apreciar quem estaria a usar aquela esplendida e caríssima fragância.
Ele é de sorriso fácil, charmoso, bonito, sedutor, e que quando se cai nos seus encantos, somos transportadas para uma nuvem cor de rosa a mil metros do chão. Se a vida fosse feita exclusivamente de sonhos irreais, ele era o homem ideal.
Na realidade, o Fernando apenas tem para oferecer esse tipo de sonhos. E ele é muito bom vendedor, pois esse “produto” foi comprado por muitas mulheres. Porém, estas, depois de aterrarem da sua viagem de sonho, nunca mais querem saber dele, porque rapidamente descobrem que a sua (quase) exclusiva atividade é de “pinga-amor”.
Já o “meu” Paulo é o tipo de homem trabalhador, estudioso e esforçado, e cujo amor por mim é como ele: honesto, sereno e confiável. Por vezes tenta ser romântico, mas coitadito, não nenhuma queda para aquilo, especialmente para mim, habituada que estava aos grandes rebates românticos do Fernando.
Eu e o Fernando acabámos tudo por causa das suas traições, cada vez mais descaradas. E sabe Deus como eu gostava dele. Mas estava a fartar-me dele com uma rapidez demasiado grande, pois estava a ficar muito incomodada com os seus esquemas de engate.
Num último esforço para que ele me desse mais atenção, convidei-o a jantar fora, no “nosso” restaurante. Afinal, pensava eu, gostávamos muito um do outro, apesar de desconfiar que estava quase a ser descartada, pois deixara de ser a novidade mais recente.
No jantar não contava que ele viesse atrasado, e que durante o repasto estivesse mais atento às mensagens que ia recebendo e respondendo que a mim, e que antes da sobremesa, ao atender uma chamada, me fizesse o sinal de que “é só um instante”. E não o vi mais nessa noite.
Chorei bastante durante semanas, e ele nem me atendia às chamadas nem me respondia às mensagens. Continuava a gostar dele, mas cada dia menos um bocadinho, até mais nada restar, achava eu.
Passados uns largos meses, o Fernando, talvez por estar sozinho ou por ter ganho alguma coragem, ligou-me. E eu, ao contrário das suas ex, atendi. Nessa altura, claro, já não tínhamos nada, mas ficou a amizade, que se fortaleceu ao longo dos tempos.
Entretanto, o Paulo surgiu por acaso, como é normal nestas ocasiões. Apareceu sem promessas vãs, nuvens cor-de-rosa ou poemas declamados, e o nosso amor foi surgindo, crescendo, infiltrando-se por todos os poros, até não conseguirmos passar um sem o outro. Mas com o Fernando cada vez mais presente.
Com alguma frequência, o Fernando ligava-me e eu ficava deliciada com as suas histórias rocambolescas sobre as suas inúmeras conquistas. Sempre o considerei emocionalmente imaturo, e que jamais passaria desse estado. Era uma criança grande, sem credibilidade.
Mas uma bela manhã, o Fernando convida-me para almoçar. E eu, inocentemente ou talvez não, aceitei. Mas que mal poderia haver? Eu estava bem resolvida, tinha uma excelente relação, era feliz. E ele, apesar de ser um ex, era apenas um amigo.
Mas ter tantas certezas é tentar o Diabo. E isso nunca é aconselhável, pois como sabem, ele é sujo. Uma coisa é ouvir a voz do Fernando ao telefone, outra completamente diferente, é estar com ele, e ver o seu sorriso cativante, com charme a escorrer pelos poros.
Esse almoço fez-me lembrar as poucas coisas boas da relação com o Fernando. E se pensasse nas más, decerto diria para mim mesma que: “Ele está um novo homem” ou “Decerto que aprendeu com os seus erros”. E não demorou muito para irmos “errar” para casa dele.
Só caí na realidade neste preciso momento, gelada de medo com o que estava a acontecer. Ver o homem que eu amo, o homem da minha vida, a abandonar o nosso lar e os nossos sonhos a desaparecerem. E é tão triste, mesmo desesperante ver o meu porto seguro a fechar-se perante mim.
Toda a minha doce e boa realidade estava agora destruída, por causa de uma ilusão estúpida, com uma pessoa que já me tinha enganado por diversas vezes, e que sei não querer mais de mim a não ser usar o meu corpo.
É que tentar o Demo paga-se caro, especialmente se tiver o smartphone à vista. O Fernando tinha escrito o que já me tinha dito ao telefone, momentos antes: “Querida, adorei a nossa tarde de amor. Repetimos amanhã? Beijos!

sexta-feira, 12 de abril de 2019

"A Esperança é a Última a Morrer" e outras Parvoices

De tantas vezes ouvir dizer que “a esperança é a última a morrer”, qualquer dia começo mesmo a acreditar que isso é mesmo realidade. Mas acho difícil mudar de opinião acerca da esperança, da fé, do acreditar que certas coisas acontecem, apenas e só porque se quer muito.
Na realidade, não me lembro que me tenha surgido algo na vida apenas por a ter desejado. Quando era criança queria ter um cavalo e uma vaca, apesar de viver num apartamento de cidade, com três pequenas assoalhadas.
Não me querendo dizer que não nem me chamar de maluco, a minha mãe perguntava-me onde eu iria por os animais, ao que eu respondia “debaixo da mesa”. Assim, mesmo querendo muito ter um cavalo e uma vaca, nunca os tive. Poderá ter sido nesse episódio que perdi a fé no apenas querer.
Ao longo dos anos tenho observado que quem mais diz que “a esperança é a última a morrer” são as mesmas pessoas que nada ou pouco fazem para alcançarem o que querem. E quando isso acontece, dizem, sem qualquer pinga de frustração: “é porque não era para acontecer” ou "o Universo não quer". 
Apesar de ter visto essa cena muitas vezes, confesso que o meu espanto continua a ser tão espontâneo e legitimo como se fosse a primeira vez. Fico com cara de parvo, pois continuo a não conseguir entender. Mas isso, obviamente, é uma limitação minha, não deles.
É o mesmo que querer ganhar muito o Euromilhões sem apostar, ficando à espera que o vento me coloque um boletim premiado nos pés....
Isso lembra-me a personagem interpretada pelo Vasco Santana no filme “Canção de Lisboa” de 1933, aquele que faltava à Universidade 7 dias por semana, apesar desta só funcionar de segunda a sexta-feira.
Nesse filme, apesar do “Vasquinho da Anatomia” querer muito concluir o curso de Medicina, não pegava num único livro para estudar, e muito menos frequentava as aulas. E apesar de toda a sua fé, otimismo e esperança, o “Universo” continuava a recusar dar-lhe o diploma.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O Meu Inesquecível Primeiro Primeiro Encontro (2 de 2)

O empregado do restaurante olha para mim, agarrado às suas ancas e responde: “”. Surpreendido, largo-o e caio redondo no chão com estrondo. Se a Maria realmente já tivesse chegado, de certeza que estava a olhar para mim, não que soubesse que era eu, mas porque dei tanto nas vistas que todos os clientes do restaurante viram a cena. E todos se riram muito. E durante demasiado tempo.
Pelas minhas contas, eu estava mais de uma hora atrasado, e ainda precisava de saber qual das senhoras presentes era a Maria. Se é que era alguma delas, pois o empregado podia ter dito que ela já tinha chegado só por dizer, ou por achar que eu era tão parvo que merecia ser enganado.
Não vos disse, mas com a minha timidez e pouca sorte genética, aliada à grande falta de experiência na arte da sedução, resolvi não incluir a minha fotografia. Ela fez o mesmo, e não me cabia perguntar-lhe das suas razões. O resultado é que nem eu nem ela sabíamos como eramos na realidade.
Quando ela me pediu para me descrever, acho que distorci um bocadinho a realidade. Mas foi só um bocadinho. É que nestes casos não convêm exagerar. Disse-lhe que parecia o George Clooney. Mas realmente pareço na posição das mãos quando eu e ele bebemos café. Ele no anuncio da Nespresso e eu na Padaria Portuguesa.
E ela disse que parecia mesmo a Cameron Diaz, e por isso lancei um olhar pela sala em busca de uma loura. Encontrei uma. Era realmente parecida com a Cameron Diaz. E fiquei parado. Ela mesmo lindíssima. E como sou tímido, sabia que não iria conseguir dirigir-lhe uma palavra sequer.
Antes de acontecer fosse o que fosse, sinto a minha mão a ser tocada por outra mão. Surpreendido, julguei que fosse o empregado a quem lhe agarrei as ancas que me quisesse conhecer melhor, mas não era. “És o Tomáz?” Pergunta uma mulher na mesa ao lado de onde estava. “Sou”. Era a Maria. Foscasse. Não se parecia nada com a Cameron Diaz. Esta gaja é mesmo muito exagerada.
Sento-me atabalhoadamente na mesa dela, sentindo uma enorme emoção. Afinal, era o meu primeiro primeiro encontro, perfeitamente às cegas, em Ranholas, tinha o meu automóvel avariado ou possivelmente morto, estava atrasado mais de uma hora, e principalmente, estava a conhecer presencialmente a Maria, e que ainda por cima não se parecia nada com a Cameron Diaz.
Olha lá, o teu espelho está mais avariado que o meu, não está? Então onde é que és parecido com o George Clooney?” Atira sem cerimónias a Maria. Ri-me, mas graças à minha timidez não lhe respondo, e ponho-me a olhar para o prato, vazio, que estava posto à minha frente. Responder o quê, ela também não era propriamente uma sósia da Cameron Diaz.
Até posso dizer que correu bem o meu primeiro primeiro encontro, apesar de tudo. Mas afinal, não havia nada para que pudesse correr mal.
E no final do dia fomos os dois para a cama, e passámos uma noite absolutamente fantástica.

Bem, é claro que cada um dormiu na sua casa, na sua própria cama, ou vocês estavam a pensar o quê? Que somos alguns tarados? Somos ainda muito novos para isso, não?
(fim)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O Meu Inesquecível Primeiro Primeiro Encontro (1 de 2)

Acelero o meu velho automóvel até ele começar a gemer. Ou será que ele está é a voar baixinho, tal a velocidade? Mas qual velocidade? Ele só passaria dos 100 quilómetros por hora se fosse a cair de um penhasco abaixo. Senão, dá um máximo de 60 à hora e é com muito boa vontade. E sorte.
Estou mais do que atrasado para o meu primeiro primeiro encontro, tenho o telemóvel descarregado, não tenho dinheiro na carteira, o automóvel está quase sem gasolina, não sei bem onde o vou estacionar, nem conheço o local onde ela marcou o nosso primeiro encontro.
Afinal, o que é que poderia correr mal? Tenho tudo para que corra certo. Ou será que não?
Sou um tipo muito tímido, e que me intimido com todo o tipo de mulheres, especialmente com as que são muito belas. Só de pensar começo a tremer. E quando uma me olha fixamente, fujo! Mas fujo mesmo, não só de olhar mas piro-me dali rapidamente.
Para piorar, a minha genética não me facilitou nada. Se eu fosse um gajo giro, podia ser tímido à vontade que elas vinham ter comigo. Como não sou, estou francamente lixado. Na escola, nem as feias se queriam aproximar de mim. Foi duro. Mas agora tudo mudou.
A minha sorte é que as redes sociais facilitaram-me a vida. Assim, não preciso de andar por aí a ver raparigas, a tentar falar com elas, como no tempo dos meus antepassados. Só tenho de teclar, esperar que elas apareçam, e vou assim falando com umas e com outras.
E foi assim que eu conheci a Maria, moça de bom trato e de boas famílias, e que segundo ela nunca teve namorado, apesar de já ter 26 anos. Bem, eu tenho 25 e também nunca tive namorada nem perto disso. Nada de estranho para mim, portanto.
Pela placa, acabo de chegar a Ranholas, localidade do concelho de Sintra, o meu destino final. Agora só tenho de achar a Rua… Porra Chiça Merda. Esqueci-me do nome da rua. Começo a suar muito, apesar de estar bastante frio. Ora aí está outra coisa de que me esqueci. A outra foi do carregador do telemóvel para o automóvel, produto de primeira necessidade, especialmente para quem tem, como eu, um telemóvel velho e com a bateria viciada.
O meu carro por fim farta-se e fina-se ali mesmo, mesmo a tempo de o conseguir encostar na borda do passeio. Para uma pessoa distraída, parecia mesmo que estava a estacionar, mas só eu e o meu automóvel é que sabíamos que ele tinha morrido ali. Mas isso era coisa para me preocupar depois. Agora precisava mesmo é de encontrar a Maria.
Como Ranholas não é grande, dou de caras com o Restaurante Kyonagi, local onde eu e a Maria combinámos encontrar-nos. Cheio de estilo, entro como se fosse habitual na casa. Mas o diabo é sujo e fez-me tropeçar na entrada e e na queda agarro-me às ancas de um empregado. Para não perder o estilo, e naquela posição mesmo muito estranha, pergunto ao empregado, de baixo para cima: “Sabe se a Maria já chegou?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A minha Ceia de Natal (2 de 2)

Finalmente consegui que todos se reunissem na sala de jantar, mas ninguém tomou a iniciativa de se sentar. Sai a pergunta habitual “Há lugares marcados?”, e respondo “Só o meu, porque preciso de estar aqui para poder ir à cozinha sem incomodar ninguém”.
E fico deliciado a observar os olhares e as movimentações. O quererem ficar aqui ou ali, ao lado deste mas não com aquele ao lado. Se o casal está bem, ficam juntos, mas se não está, fica cada um no seu canto. O habitual.
A minha Ceia de Natal é digna de um filme. Todos alegres, contentes, sorridentes, a comer, a beber e a brindar. Tomara que fossemos sempre assim, mas infelizmente não somos. Por isso é tão importante a minha Ceia de Natal para mim e para esta cambada de cabeçudos. Para podermos ser assim, nem que seja uma vez por ano.
Reparo que a Mónica nem tocou no peru, e muito menos deixou que o filho o comesse. Malandro, eu quis servi-la, mas a sacana disse logo que tanto ela como o filho estavam já muito cheios do bacalhau. O puto estranhou e disse que queria peru, estendendo-me o prato, mas levou logo uma cotovelada da mãe para ficar quieto e calado.
Já o marido dela lambuzou-se todo do peru debochado. E a Mónica ainda o serviu mais umas duas vezes, pelo menos. Cabra do caraças. A regra dos três segundos serve para o teu marido, mas não para ti nem para a tua cria.
O repasto continua, com tudo o que de normal acontece, inclusive o derramar de vinho tinto na toalha. Raio que os parta a todos. Dizem que significa dinheiro, mas para mim significa é que tenho de lavar a toalha umas trezentas vezes para ver se sai esta nódoa de vinho tinto gigante.
Vendo-os tão animados, decido que é a altura. Vou à cozinha e pego numa garrafa de Moet e Chandon. Os convidados ouvem o barulho característico da abertura do champagne, e quedam, expectantes. Vem aí coisa boa.
Apareço com a garrafa de Moet e Chandon numa bandeja e com copos cheios de champagne borbulhante. Ofereço o primeiro copo à pessoa que mais dá ares de entendido em vinhos, e que olhando mais para o rótulo do que para o líquido, diz “Excelente”. E sirvo a todos.
Resolvo não dizer a ninguém que afinal o "excelente" Moet e Chandon é apenas uma garrafa vazia, e que a enchi de champagne do Lidl que me custou 4,50€. Pelas vezes que repetiram, gostaram muito, e pelo menos assim já podem dizer “Eu até bebi Moet e Chandon na Ceia de Natal!
Para finalizar o jantar, e como prenda antecipada, o cão larga uma bufa tão nauseabunda que metade se levanta para fugir, enquanto a outra corre atrás do desgraçado. E eu fiquei sentado, impávido e sereno, com desejos de castrar o bicho. Mas fiquei-me apenas pelos pensamentos.
Ao aproximar-se a meia-noite, as crianças, com a antecipação da abertura das prendas, começam a guinchar de excitação, como se fossem ratos a serem espremidos. Uma delas não aguenta mais e precipita-se para a pirâmide de prendas. E as outras seguem-na, em catadupa.
Perante esta guinchadeira, os convidados toparam logo que os meus copos de champagne não eram de cristal, senão tinham-se partido, tais as notas estridentes. As crianças começam a rasgar papel como se não houvesse amanhã, enquanto os seus babados pais faziam vídeos.
No meio do ruido do rasgar de papel, de guinchos e amuos, do ladrar do cão, de pessoas que se alhearam e das que são piores que os miúdos, aqui estou eu, à espera que me calhe alguma coisita, sentado, a beberricar um Moscatel.
Aparece-me o marido da Mónica com uma prenda que, pelo formato e peso, só pode indiciar um livro. Abro-o, com um sorriso, e vejo claramente que é daqueles que estavam com um desconto de 80%, no molho dos autores desgraçados e desesperados, à entrada do Continente.
Dou-lhe um abraço e digo, falso como Judas “Grande amigo, tens muito bom gosto. Já andava de olho neste livro. Obrigado”. Acho que nem ele acreditou nos meus “sinceros” agradecimentos. Só desperto da minha própria falsidade quando levo com um pacote leve na cabeça, o que significa que acabo de receber o que mais desejo.
Meias”, e abro um grande sorriso, desta vez totalmente sincero. Não é que adore meias, que precise de meias, que tenha algum fetiche por meias. É que todos os anos, pelo Natal, recebia meias. E para mim não há Natal sem meias. Só por isto valeu a pena toda esta confusão. Finalmente tenho Natal. “Obrigado a todos!
Desejo a todos vocês uma excelente Ceia de Natal. E muitas e boas prendas no sapatinho.
(fim)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A minha Ceia de Natal (1 de 2)

Estou deitado na minha cama a olhar para o tecto. Nem sei se estou a dormir ou acordado. Só sei que as horas teimam em não passar, e eu aqui, a pensar na minha vida, e especialmente na pergunta, à qual não consegui obter qualquer resposta:
Onde estava eu com a cabeça para convidar esta cambada toda para a minha Ceia de Natal?
Pouco passa das seis e meia da tarde e toca a campainha da porta, significando que pelo menos uns convidados acabaram de chegar. Raio que os parta, pois toda a gente sabe que, nestas ocasiões, quando se marca para as sete da tarde é para chegarem lá para as oito.
Afinal era só a vizinha da frente a avisar-me que tenho a luz da escada acesa. E também para me desejar um Feliz Natal e blá blá blá. Está bem, está bem, igualmente, etc etc. Simpática. Mas fez-me perder tempo que não tenho para assar o meu peru gigante.
Passados uns minutos toca outra vez a campainha, mas agora sei que são já uns caraças de convidados, que por julgarem que Lisboa tem sempre imensas filas de trânsito, teimam em sair cedo de casa. E é escusado dizer-lhe alguma coisa. Ponto.
Chegam carregados de prendas, de doces, de casacos, de gritaria, a pedir e a dar abraços e beijos, como se não me tivessem visto há, pelo menos, uns oito meses. Porra, estivemos juntos na semana passada, cabeçudos de um raio.
Bem antes das sete da tarde já lá estava todo o maralhal, aos pulos. E eu sem ter o recheio pronto, com um sorriso amarelo, sem conseguir prestar a devida atenção a todos, pois ainda tinha tanto ainda para fazer. Eles bem falavam comigo, mas eu só olhava para o lado, inquieto.
A coisa acalmou-se quando todos se cumprimentaram, e eu, de fininho, escapuli-me para a cozinha para ultimar as coisas. Recheio de peru e o próprio, batatas, bacalhau, peru, arroz, molhos, aperitivos, vinho, sumos, água. Fora os doces, que são sempre por conta dos convidados.
A coisa parece estar a correr bem. A pouca ajuda que se disponibilizou para fazer alguma coisa mostra-se eficaz e eficiente, tratando de tudo o que eu não deitei a mão. O resto da malta fica fora da cozinha, a coçar as partes furibundas. Há sempre pessoas que nem se oferecem para fazer coisa nenhuma. Devem julgar que os outros são criados deles.
O peru está no forno, o bacalhau na panela, a mesa está quase pronta, e o cabrão do cão portou-se tão bem que ainda nem fez nenhuma necessidade dentro de casa. Estou feliz. Permito-me conviver um pouco, mas sempre de olho na cozinha.
Toca o despertador. Tinha chegado finalmente a hora. O peru está assado. Olho para a crosta. Está tostadinha. Espeto o palito. Sai seco. Olho para o molho. Está grossinho. Olho para mim. Estou orgulhoso de mim mesmo. Temos cozinheiro. Só me falta a estrela Michelin.
Cuidadosamente, retiro a bandeja do peru do forno. Está bem quentinha. Tento pousá-la no fogão, mas já lá estava a panela do bacalhau. Tento desviá-la, mas as batatas cozidas também lá descansam. Olho para a mesa e vejo que está ainda mais cheia que o fogão.
Sinto o calor abrasador a bandeja a penetrar-me os dedos, pois tinha apenas um pano de cozinha entre estes e a bandeja do peru. Julgava que este processo ia demorar uns meros segundos, mas já estava a demorar uma eternidade. De repente, o calor atinge-me.
Largo a bandeja e o peru cai estrondosamente no chão, rebolando, e ao pousar, abre as suas pernas, parecendo uma meretriz debochada. Eu urro de dor das queimaduras dos dedos mas ninguém me liga nenhuma. Só importa mesmo é o cabrão do peru!
Ai o peru, ai o peru”, grita a Mónica. E apanha o bicho todo desconjuntado e atira-o para dentro da bandeja, já sem molho nenhum. Este estava a formar poça, para gaudio do oportunista do cão, que se estava a deliciar tanto do molho como do recheio, todo espalhado pelo chão da cozinha.
Depois de fechar a porta com o pé, ocultando o desastre nuclear que tinha ocorrido dos olhares desatentos, digo à Mónica que coloque o cabrão do peru noutra travessa, e siga a marinha que vai mesmo assim para a mesa. Ela olha para mim, espantada.
Segue a regra dos três segundos” digo com firmeza, enquanto banhava os meus desgraçados dedos em água fria. “Mas quais três segundos? Foi mais três minutos, não?”, diz ela, e com toda a razão. Mas fazer o quê? Comer biscoitos na Ceia de Natal?
Esse peru ia para cima da mesa nem que o cabrão do cão lhe tivesse mijasse em cima!”, digo, abrindo muito os olhos. Ela, de sorriso amarelo, diz que sim com a cabeça, enquanto tentava ajeitar as pernas todas debochadas do peru na travessa.
Os meus dedos parecem batatas fritas cobertas de ketchup, tal o inchaço e a cor vermelha que apresentam. Tendo ouvido barulho, aparece na porta a careca do Binho, a perguntar “Está tudo bem por aqui?”, ao qual eu respondo, furioso: “Põe-te já nas putas, meu cabrão!
(continua)