terça-feira, 24 de março de 2020

A Guerra dos Mundos - Parte II


Enquanto (quase) todos permanecem em casa, sento-me no sofá e liberto a minha imaginação, propondo-me percorrer todo o mundo recorrendo a um simples drone (imaginário).

O aparelho levanta voo, munido das mais potentes camaras fotográficas, de vídeo, de infravermelhos, de captação do mais ínfimo som e, pasme-se, de pensamentos.
Por isso, se não quiserem que os vossos pensamentos sejam detetados, coloquem um cone de folha de alumínio na cabeça e finjam-se de estátuas, pelo menos até o meu drone passar.
Faço-o subir aos céus sem receio de atrapalhar os aviões, pois eles permanecem em terra. Só umas gaivotas curiosas se aproximam, mas depressa se afastam. Elas têm de aproveitar o céu de novo só para elas.
E assim percorro o mundo, vendo as imagens captadas pelo meu drone através do écran infinito da plena e pura imaginação. E com alta resolução de 8k.
E vejo com felicidade os restantes animais a refazerem as suas vidas, os céus a ficarem mais azuis, as águas mais cristalinas. A neve na beira das estradas branca, as chuvas menos ácidas, e os peixes a voltarem aos canais de Veneza.
Vejo as pessoas confinadas com os seus entes queridos, mas maldizendo a sua sorte, mesmo que estejam todos com saúde, a manter os seus empregos, e a nada faltar em casa.
É que a maior parte de nós ansiava por mais tempo livre para passar com a família. Agora queixamo-nos de estarmos com eles, que não aguentamos mais, que precisamos de “respirar”.
Nestes casos, só me lembro do António Variações, que cantava a quem o queria ouvir “porque eu só estou bem aonde eu não estou”, na sua icónica canção “Estou além”. E tal como todos nós agora, era a ansiedade que o dominava.
Vejo muitos divórcios e separações a acontecerem na China após o fim da quarentena. E o mesmo vai acontecer no resto do mundo. Só alguns poucos estão realmente preparados para estar com a cara metade 24 por 24.
Procuro agora pelos donos do mundo, pela espécie superior, pelos escolhidos. Vejo-os aterrorizados e derrotados por algo que nem é considerado como ser vivo é. Onde está agora a “nossa” superioridade cientifica e tecnológica?
É altura de nós, humanos, sairmos do pedestal da nossa soberba e de tratarmos o mundo como ele realmente merece. Este fenómeno é um grande aviso de que temos de mudar urgentemente.
É altura de sabermos que, quando a espécie humana um dia desaparecer, o mundo vai continuar a girar e a avançar inexoravelmente, e que nós, humanos, nem sequer seremos lembrados, pois as espécies que por cá ficarem não fazem registos.
Irónico. Os extraterrestres que invadiram a Terra no livro “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells foram chacinados por uma bactéria. E nós estamos a ser obrigados a mudar de vida por um simples vírus.
António Xavier
Piloto de Drones (Imaginários)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Vencedores e Vencidos


Vitor é um Vencedor. Pelo menos ele tem a certeza de que o é. Vê-se sempre muito melhor que os outros, e não admite a mais pequena e honesta crítica.
Vitor nunca admite uma Derrota. Para ele, se um projeto não avança é porque há apenas um adiamento, um atraso, um  desencontro de agendas. Nada que lhe faça perder o sono.
Mas afinal o que é um Vencedor? E o que é que o distingue do um Vencido? Neste jogo não há meio-termo? Haverá alguma votação a determinar o que cada um é? E não se pode mudar de Vencedor para Vencido ou vice-versa?
Para o Vitor, na vida só há Vencedores ou Vencidos. Ele acredita num Destino em que os Bebés, antes de nascerem, levam com um carimbo na testa que os define como Vencedores ou Vencidos. Para sempre.
Claro que ele levou com um carimbo na testa especial, único entre milhões, que o tornou um Vencedor Nato, Super, Mega e Ultra. E por isso, acredita, está destinado a transformar o mundo.
Infelizmente, todos os grandiosos projectos em que se envolve e acredita surgem e morrem muito rapidamente, uns atrás dos outros, a maioria sem sequer sairem da sua  cabeça.
Mas apesar de tudo, considero o Vitor um Vencedor, pois ele nunca desiste nem nunca perde a esperança de que o seu futuro será risonho e radioso.
É que Vencedores não são só aqueles que atingem os mais altos patamares de poder, conhecimento, riqueza ou fama, mas também todos aqueles que verdadeiramente acreditam nos seus sonhos. Mesmo que nunca se concretizem….

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Procrastinação

Olho de novo para as folhas em branco e continuo a sentir-me incapaz de escrever o que pretendo. Só a simples ideia de o fazer repugnava-me, enchia-me de tremores e de suores frios. “Não consigo!” E era verdade. Não conseguia, de modo nenhum.
Ao fim de uns intermináveis minutos, depois de me tentar distrair vendo as pessoas na rua, aproximo-me lentamente da secretária, como se fosse um ato meramente casual. Afago as costas da cadeira, a testar a sua resistência e consistência, como se a estivesse a comprar.
Sento-me num impulso, como se fosse fazer outra coisa e começo a brincar com a caneta, mirando-a de vários ângulos, como se a não conhecesse. Passo os dedos pelas alvas folhas, como se procurasse rugosidades ou imperfeições. Nada. São perfeitas.
Respiro fundo uma e outra vez, como se estivesse a ter um ataque de asma, doença que nunca tive, e passei de seguida para uma mais que fingida concentração total. Endireitei as costas até estas se queixarem, e retomei a sua curvatura natural, sentindo-me parvo pelo que tinha acabado de fazer.
Sentia-me como se estivesse na praia com o sol quente a queimar-me a pele e com os pés na água, mas por falta de coragem não banhava o resto do corpo. E por a água estar fria como o caraças.
Desta forma, lá me mentalizei que o melhor era despachar rapidamente o que tinha a fazer. Chega de sofrer por não fazer e de sofrer por não ter feito, num ciclo interminável e insano. No fundo, chega de procrastinação.
Respirei fundo mais uma vez e disse para mim mesmo “É agora!”. E foi. Comecei a escrever…







quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Sangue


Este texto não está relacionado com um qualquer episódio sangrento, género muito popular e inesgotável, e onde por vezes a realidade supera toda e qualquer ficção.
O Sangue a que me refiro é a Família. E esta, como sabemos, não se escolhe!
Um conhecido meu contou-me que a mãe dele diz ao marido dela (e pai do meu amigo) a frase "Tu a mim não me és nada, sangue são os meus filhos".

Ou seja, a esposa considera o marido (e pai dos seus filhos) como um Estranho. E essa simples frase fez-me compreender muitas coisas...
Na realidade, o que foi dito está inteiramente certo. Ele não é sangue dela. Nunca será. Mas colocar para sempre o seu próprio marido em plano subalterno a qualquer membro da família dela não tem lógica. Para mim, claro. Ele, pelo contrário, nunca lhe disse nada disso, pois considera-a família.
Nos casamentos católicos, o pai (ou quem o representa) desfila na igreja de braço dado com a noiva, e ao aproximar-se do altar, em simbolismo, entrega a mão da noiva no noivo, formalizando a transmissão. A partir desse momento, a família dela passa a ser o do seu futuro marido.
Mas desengane-se o noivo, pois em quase todas as ocasiões, foi apenas mera encenação, uma fachada. A Mulher nunca será dele, mas sim da Família.
Claro que esta postura, esta filosofia de vida, acaba invariavelmente por reflectir-se negativamente ao nível da convivência, do respeito e das opções do dia-a-dia, conscientes ou inconscientes. Em caso de dúvida, o Sangue prevalece.
Soube de um caso real, de um marido recém operado, que viu a sua a esposa viajar para o estrangeiro para ir tomar conta do cão do filho de ambos, que ia de férias. Ela não podia dizer que “não” ao Sangue. O ciclo repete-se. Vezes sem conta.
Para mim, Família é Sangue E quem está comigo! E declaro-me totalmente incompatível com o Tipo Sanguíneo acima descrito. É-me tóxico. Mata-me.
Com essas Filosofias de Vida não admira que esses pseudo-casais se separem, pois, na realidade, um nunca foi nem será nada para o outro!

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O Segredo mais bem guardado

Será o Segredo do Amor maior do que o Sentido da Vida, da Origem do Universo ou para onde vamos depois de morrermos? Se é que vamos para algum lado!
Será o Mistério do Amor ainda mais complexo que o da Fé, da Vida e de tudo o que nos rodeia?
Para todas essas questões, a minha resposta imediata é Sim. E quanto mais penso no assunto, menos certezas tenho. E eu que já tive tantas sobre esse tema! Foram-se todas.
Será o Amor um Sentimento ou vários misturados? Será apenas uma Atração Carnal? Será uma Dependência Química? Será uma demonstração de Carência Afetiva?
Será o Toque, o Cheiro, o mergulhar nos olhos da Pessoa Amada? Será a forma de falar, de se movimentar, de estar sentada sem nada fazer? Não sei. E duvido que alguém saiba.
O Amor serve para quê, afinal? Rigorosamente para nada. Deve ser um vírus inventado por alguém perturbado e que, por pura maldade, não criou a vacina! E desta forma lixou toda a humanidade.
O Amor não alimenta ninguém, mas por causa dele perde-se o apetite. O Amor não ajuda ninguém, mas quando falta, não resta vontade de fazer nada, apenas de estar num quarto sozinho a olhar o vazio!
estudos sobre o Amor para todos os gostos, seja demonstrarem que quem Ama Vive Mais Tempo, ou que quem Não Ama Tem Mais Saúde (pelo menos mais Saúde Mental devem ter, digo eu)!
E eu, sem nada saber sobre o assunto, sinto que o Amor é Um Todo, mistura de mil e uma coisas, diferente para cada um, e que varia de acordo com a química da pessoa que amamos. Deve ser por isso que é tão Poderoso!
Por ser o Amor um tema tão Complexo e Fascinante, proponho que seja criada uma Cadeira num Curso de Áreas Sociais. Mas o melhor seria um Curso Superior de Amor. Isso seria verdadeiramente Divino!
Eu até poderia até pedir a Deus que me livrasse de vez do Amor, para bem do meu Coração e da minha Sanidade Mental, mas não peço, pois uma Vida sem Amor seria apenas um arrastar de dias. Até à Morte.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Relações "Fast-Food"

Quem nunca se questionou sobre como e porquê alguns casais estão juntos? É que não se compreende à primeira vista, nem sequer à segunda.
Esses casais poderão simplesmente estar juntos por promessa, teimosia, comodismo ou simples receio da mudança! O que é certo é que ainda não viram bem o que se anda a passar, mesmo ao lado….
O conceito de família tradicional desapareceu com as mulheres a trabalhar fora de casa e a ganharem independência perante os homens.
E (alguns) homens tornaram-se também autónomos e independentes, e deixaram de "precisar" das mulheres.
Até há pouco tempo, as relações eram "arranjadas" pelos pais. E tudo ia funcionando, e inclusive haviam muitos poucos divórcios (pudera, eram proibidos!)
No século XX surgiu o conceito de relação por amor, e os casais ficariam juntos enquanto estivesse acesa a “chama do amor”. O amor é, dizem, um ato de vontade, uma decisão, uma promessa, mais que um sentimento.
Tudo isto era muito lindo e romântico, mas as separações por (falta de) amor tornaram-se demasiado frequentes.
Mas a história não podia ficar por aqui, pois surge a moda da união por paixão! E há muito boa gente a afirmar que amor e paixão é a mesma coisa, e como os influencers do Youtub confirmam, tornou-se lei!
Porém, a paixão, por ser tão intensa e física, acaba muito rapidamente, e as uniões nela baseadas duram ainda menos do que as do amor!
Com esta rapidez, surgem relações de consumo rápido, e com troca instantânea de parceiros. Mas não deve ser mau, pois há cada vez mais pessoas a optarem por esta forma de se relacionar.
É a relação fast-food! Escolhes o que queres, comes e já estás pronto(a) para novo relacionamento!
Sem apego nenhum” parece ser a palavra de ordem desta tendência.
Assim, estamos numa sociedade cada vez mais egocêntrica, solitária e não solidária, baseada no prazer intenso e imediato, e em que impera a intolerância em relação ao outro.

Ou seja, apaixonamo-nos cada vez mais e amamos cada vez menos.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Volta. Por Favor, Volta

Acordo alagado em suor, a sufocar um grito, e fico acordado, no meio da intensa escuridão em que se encontra o meu quarto. Sinto-me a morrer aos poucos. 
Assusta-me o silêncio da minha voz interior. Porque terá desaparecido? Estará zangada comigo? Voltará algum dia? Ela que volte, pois preciso tanto dela.
Os meus sonhos já tinham desaparecido há muito, e assim tudo o que me é íntimo desapareceu. Sinto-me um expatriado no meu próprio mundo!
Limpo o suor com uma toalha e olho-me ao espelho. Não me reconheço, de tão transfigurado.
Estou assim desde que a Carla acabou o nosso relacionamento. Não sei se a ela lhe acontece o mesmo, mas duvido. Sempre foi uma filha-da-mãe fria, mesmo gelada, e o mais provável é que durma serenamente. E que já nem lembre de mim.
Sentem que a vossa cara metade é a “mulher da vossa vida?” Se sim, são uns verdadeiros sortudos. Agora imaginem como ficavam se ela, de súbito, desaparecia.
A Carla era a luz da minha vida, e eu seria capaz de fazer tudo por ela. E aquela cabra, apesar disso – ou talvez por isso – deixou-me.
E não consigo deixar de imaginar que ela pode ter voltado para os braços do seu ex, o tal que tanto a destratou durante anos.
Não consigo perceber as mulheres, mas é sabido que nenhum homem jamais percebeu uma mulher. Não sei é se a culpa dos homens, das mulheres, ou de ambos. Mas é um facto.
A Carla deixou-me, como despedida, um papelito em cima da mesa da cozinha, a dizer “Adeus”. Seca, fria, insensível. Perante isto, perdi até a vontade de lhe ligar e de perguntar: "Porquê?". Eu podia não gostar da resposta.
Não tenho voz para lhe fazer serenatas, nem feitio para lhe enviar mensagens lamechas, de aparecer no trabalho dela com um ramo de flores e bombons. Se calhar faço mal. Podia ser que assim ela voltasse.
O que me está a acontecer é igual à letra da canção “Amar pelos Dois”, do Salvador Sobral. Ele retrata tão bem que sinto que já lhe aconteceu. “Meu bem, ouve as minhas preces. Peço que regresses, que me voltes a querer”.

Volta Carla, por favor volta, não sabendo tu que jamais te perdoarei por me teres deixado.
Volta Carla, volta, para ficares eternamente arrependida de teres deixado com quem estás agora.
Volta Carla, que eu estarei aqui à tua espera, de braços abertos. E eternamente teu!