terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O Crápula (2 de 6) Desacato

 


DESACATO


A D. Ermelinda bem chamava pelo Hélder, mas dele nem o cheiro. E a vizinhaça desesperava, pois os berros da matrona a chamar pelo filho eram bem piores que os de um bezerro desmamado.

Claro está que ninguém no seu perfeito juízo se atreveria a mandá-la calar, com receio de consequências físicas e morais irreparáveis. É que a matrona era bruta de língua, para além dos seus braços parecerem uns presuntos curados.

Já a rouquidão ameaçava a garganta daquela verdadeira gárgula, quando vi de relance o desgraçado do Hélder, a esconder-se atrás de um poste de iluminação, com receio de ser esventrado pela sua progenitora.

É evidente que num grupo de adolescentes há sempre um palhaço que quer ver confusão, e neste caso, o Hugo, ao descobrir o medroso do Hélder escondido, desatou a gritar “Ó D. Ermelinda, o seu filho já chegou”, e todos começámos a gritar o mesmo em coro.

É fantástico o poder da motivação, mesmo que seja resultado de raiva ou fúria. A D. Ermelinda era gorda, entroncada, um verdadeiro roupeiro. O seu andar era, naturalmente, pesado. Nunca a tinha visto a correr. Até àquele dia.

Aquela monstrenga demonstrou uma agilidade que nunca teria suspeitado, e desceu desde o 4.º andar até à rua num ápice. Nós acompanhávamos a descida com os urros que ela debitava, como se fosse uma locomotiva descontrolada.

O Hélder estava agarrado pelo palhaço que o denunciou, completamente aterrado de pavor. Ao sentir a D. Ermelinda a aproximar-se, o Hugo largou o Hélder e desatou a correr, cheio de medo, e durante umas horas não se soube nada dele.

O Hélder, depois de se mijar todinho, e a temer pela sua própria vida, correu para dentro da taberna, procurando uma ténue proteção junto do pai, que fazia desse estabelecimento comercial uma sua segunda casa. E como eu o compreendia.

Ao verem o Hélder a correr para dentro da taberna, todos os clientes que lá se encontravam desataram a fugir de lá, tentando regressar às próprias casas antes que fosse tarde de mais. Alguns ainda conseguiram, outros não, coitados.

Um deles foi o pai do Hélder, que agarrado pelo filho, não conseguiu correr como pretendia e antes de transpor a porta da taberna, deu de caras com a sua digníssima esposa, a deitar espuma pelos cantos da boca.

Levou o pai e levou o filho, e o taberneiro e mais uns quantos que pretendiam escapar nos intervalos da chuva. Foi um desacato tão grande que meteu polícia, bombeiros e ambulâncias, e não se falou de mais nada durante meses.

O Hélder foi, obviamente, quem mais levou, e inclusive teve de passar pelo hospital antes de rumar a casa, onde ficou uns tempos, sem permissão sequer de ir à varanda ver as vistas. O puto ainda tentou "pular a cerca" mas a mãe dele pô-lo na ordem de uma forma que nunca esqueceria. Pelo menos durante uns tempos...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

O Crápula (1 de 6) Hélder


Hélder

O Hélder é um crápula. Um verdadeiro cretino. Um canalha na mais fiel acessão da palavra. E se ainda fosse pouco, orgulhava-se disse e a própria mãe apoiava-o incondicionalmente. Ao saber disso, dava-me pena quando o via de mão dada a uma qualquer moça que com ele passeava na rua. "Coitada", murmurava eu.

Mas recordo que o Hélder nem sempre tinha sido assim. Tinha tido uma infância e uma juventude perfeitamente normal, temente a Deus e ao cinto do seu pai, mas principalmente à matrona da sua mãe, que metia medo com os seus berros e braços de lenhador, capazes de arrancar cabeças.

Enquanto viveu com os seus pais, o Hélder foi sempre acólito na missa de domingo, dos mais atentos nas aulas de catecismo, crisma e religião e moral, e até conseguiu tirar umas notas decentes, pelo menos até ao 12º ano, que concluiu já com alguma dificuldade.

Até essa altura, o Hélder era o que se podia chamar de um perfeito totó, incapaz de fazer algo moralmente questionável, de contar uma anedota ou história picante, sempre alinhado e aprumado, e acho que nem umas calças de ganga tinha para vestir, por serem demasiado radicais.

As mulheres para ele estavam completamente vedadas, pois a matrona dizia-lhe que nem se podia aproximar delas, pois o foco era o estudo, a profissão, a carreira. Em suma, o futuro. E o convívio com as “deusas do pecado” iriam perturbar-lhe a cabeça, desviando-lhe dos objetivos.

O Hélder não tinha qualquer sentimento de culpa por deixar de sair com os amigos, pela simples razão de não ter amigos. Os seus conhecidos mais próximos era eu e o André, que o conhecemos na turma e vivíamos perto. Mas que nunca fomos a casa dele. Nem queríamos ir, com pavor da mãe dele.

Eu, ele e o André estávamos na mesma turma do 12.º ano, e notei que ele andava diferente. Mas diferente já ele era, relativamente aos demais, mas estava ainda mais estranho que o normal dele. E lembro-me de comentar com o André, mas depressa passou porque os exames aproximavam-se rapidamente, e eram mais importantes que a parvoíce do Hélder.

Lembro-me que nesse verão eu e o André arranjámos namoradas novas, pois as “velhas” ficaram lá atrás, na escola antiga. Estávamos a começar uma vida nova, recheada de projetos, de sonhos, de viagens para fazer, de pessoas para conhecer e para aprender a ser adulto. Era o tempo da juventude responsável, cheios de sangue na guelra.

Eu o André já tínhamos tido várias pessoas nas nossas vidas, fossem elas amigas especiais, namoraditas e até umas namoradas a sério. Sabíamos algumas das regras desse jogo, e que por vezes se caraterizavam pela sua ausência, deturpação, enganos e desenganos, amuos, zangas e o melhor de tudo, a reconciliação. Já o Hélder não sabia nada acerca desse jogo, e esse simples facto veio a revelar-se perigoso.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Viagem só de ida



Sinto os meus dias a passarem cada vez mais depressa, e mesmo que tente parar ou abrandar, vejo o meu tempo a ser sugado, rumo a uma entropia impiedosa.

A humanidade sempre baseou a sua vida nos ciclos solares e lunares, e observando esses medidores de tempo, com justiça celebraram desde tempos imemoriais esses importantes marcos com cerimónias e homenagens.

Com mágoa, reconheço agora que nunca me dei ao luxo de estabelecer uma ligação a esses ciclos naturais, e por isso nunca notei mudanças em mim pela Lua estar cheia ou estar perto de um qualquer solstício.

Talvez por não ter ligação a esses mercadores de tempo tenho a sensação que o tempo corre mais depressa agora do que antes, pois quando era bem mais novo, um ano era realmente muito longo.

Sinto que o tempo à minha volta corre a uma velocidade vertiginosa, em direção a algo que ainda nem consigo imaginar, mas que de certeza me vai engolir sem remorsos.

Tenho assim a sensação estranha e singular de estar a entrar num vórtice, inexorável e firme, que não conhece hesitações nem recuos, apenas avanços e aceitações.

Mas, no entanto, toda esta minha incerteza acerca do futuro, do tempo e do espaço é plenamente compensada com o êxtase de ver este Cosmos sem fim, a rumar, quiçá, em direção a outras formas de Criação ou Destruição. Ou, quem sabe, a outras Dimensões?


terça-feira, 24 de março de 2020

A Guerra dos Mundos - Parte II


Enquanto (quase) todos permanecem em casa, sento-me no sofá e liberto a minha imaginação, propondo-me percorrer todo o mundo recorrendo a um simples drone (imaginário).

O aparelho levanta voo, munido das mais potentes camaras fotográficas, de vídeo, de infravermelhos, de captação do mais ínfimo som e, pasme-se, de pensamentos.
Por isso, se não quiserem que os vossos pensamentos sejam detetados, coloquem um cone de folha de alumínio na cabeça e finjam-se de estátuas, pelo menos até o meu drone passar.
Faço-o subir aos céus sem receio de atrapalhar os aviões, pois eles permanecem em terra. Só umas gaivotas curiosas se aproximam, mas depressa se afastam. Elas têm de aproveitar o céu de novo só para elas.
E assim percorro o mundo, vendo as imagens captadas pelo meu drone através do écran infinito da plena e pura imaginação. E com alta resolução de 8k.
E vejo com felicidade os restantes animais a refazerem as suas vidas, os céus a ficarem mais azuis, as águas mais cristalinas. A neve na beira das estradas branca, as chuvas menos ácidas, e os peixes a voltarem aos canais de Veneza.
Vejo as pessoas confinadas com os seus entes queridos, mas maldizendo a sua sorte, mesmo que estejam todos com saúde, a manter os seus empregos, e a nada faltar em casa.
É que a maior parte de nós ansiava por mais tempo livre para passar com a família. Agora queixamo-nos de estarmos com eles, que não aguentamos mais, que precisamos de “respirar”.
Nestes casos, só me lembro do António Variações, que cantava a quem o queria ouvir “porque eu só estou bem aonde eu não estou”, na sua icónica canção “Estou além”. E tal como todos nós agora, era a ansiedade que o dominava.
Vejo muitos divórcios e separações a acontecerem na China após o fim da quarentena. E o mesmo vai acontecer no resto do mundo. Só alguns poucos estão realmente preparados para estar com a cara metade 24 por 24.
Procuro agora pelos donos do mundo, pela espécie superior, pelos escolhidos. Vejo-os aterrorizados e derrotados por algo que nem é considerado como ser vivo é. Onde está agora a “nossa” superioridade cientifica e tecnológica?
É altura de nós, humanos, sairmos do pedestal da nossa soberba e de tratarmos o mundo como ele realmente merece. Este fenómeno é um grande aviso de que temos de mudar urgentemente.
É altura de sabermos que, quando a espécie humana um dia desaparecer, o mundo vai continuar a girar e a avançar inexoravelmente, e que nós, humanos, nem sequer seremos lembrados, pois as espécies que por cá ficarem não fazem registos.
Irónico. Os extraterrestres que invadiram a Terra no livro “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells foram chacinados por uma bactéria. E nós estamos a ser obrigados a mudar de vida por um simples vírus.
António Xavier
Piloto de Drones (Imaginários)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Vencedores e Vencidos


Vitor é um Vencedor. Pelo menos ele tem a certeza de que o é. Vê-se sempre muito melhor que os outros, e não admite a mais pequena e honesta crítica.
Vitor nunca admite uma Derrota. Para ele, se um projeto não avança é porque há apenas um adiamento, um atraso, um  desencontro de agendas. Nada que lhe faça perder o sono.
Mas afinal o que é um Vencedor? E o que é que o distingue do um Vencido? Neste jogo não há meio-termo? Haverá alguma votação a determinar o que cada um é? E não se pode mudar de Vencedor para Vencido ou vice-versa?
Para o Vitor, na vida só há Vencedores ou Vencidos. Ele acredita num Destino em que os Bebés, antes de nascerem, levam com um carimbo na testa que os define como Vencedores ou Vencidos. Para sempre.
Claro que ele levou com um carimbo na testa especial, único entre milhões, que o tornou um Vencedor Nato, Super, Mega e Ultra. E por isso, acredita, está destinado a transformar o mundo.
Infelizmente, todos os grandiosos projectos em que se envolve e acredita surgem e morrem muito rapidamente, uns atrás dos outros, a maioria sem sequer sairem da sua  cabeça.
Mas apesar de tudo, considero o Vitor um Vencedor, pois ele nunca desiste nem nunca perde a esperança de que o seu futuro será risonho e radioso.
É que Vencedores não são só aqueles que atingem os mais altos patamares de poder, conhecimento, riqueza ou fama, mas também todos aqueles que verdadeiramente acreditam nos seus sonhos. Mesmo que nunca se concretizem….

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Procrastinação

Olho de novo para as folhas em branco e continuo a sentir-me incapaz de escrever o que pretendo. Só a simples ideia de o fazer repugnava-me, enchia-me de tremores e de suores frios. “Não consigo!” E era verdade. Não conseguia, de modo nenhum.
Ao fim de uns intermináveis minutos, depois de me tentar distrair vendo as pessoas na rua, aproximo-me lentamente da secretária, como se fosse um ato meramente casual. Afago as costas da cadeira, a testar a sua resistência e consistência, como se a estivesse a comprar.
Sento-me num impulso, como se fosse fazer outra coisa e começo a brincar com a caneta, mirando-a de vários ângulos, como se a não conhecesse. Passo os dedos pelas alvas folhas, como se procurasse rugosidades ou imperfeições. Nada. São perfeitas.
Respiro fundo uma e outra vez, como se estivesse a ter um ataque de asma, doença que nunca tive, e passei de seguida para uma mais que fingida concentração total. Endireitei as costas até estas se queixarem, e retomei a sua curvatura natural, sentindo-me parvo pelo que tinha acabado de fazer.
Sentia-me como se estivesse na praia com o sol quente a queimar-me a pele e com os pés na água, mas por falta de coragem não banhava o resto do corpo. E por a água estar fria como o caraças.
Desta forma, lá me mentalizei que o melhor era despachar rapidamente o que tinha a fazer. Chega de sofrer por não fazer e de sofrer por não ter feito, num ciclo interminável e insano. No fundo, chega de procrastinação.
Respirei fundo mais uma vez e disse para mim mesmo “É agora!”. E foi. Comecei a escrever…







quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Sangue


Este texto não está relacionado com um qualquer episódio sangrento, género muito popular e inesgotável, e onde por vezes a realidade supera toda e qualquer ficção.
O Sangue a que me refiro é a Família. E esta, como sabemos, não se escolhe!
Um conhecido meu contou-me que a mãe dele diz ao marido dela (e pai do meu amigo) a frase "Tu a mim não me és nada, sangue são os meus filhos".

Ou seja, a esposa considera o marido (e pai dos seus filhos) como um Estranho. E essa simples frase fez-me compreender muitas coisas...
Na realidade, o que foi dito está inteiramente certo. Ele não é sangue dela. Nunca será. Mas colocar para sempre o seu próprio marido em plano subalterno a qualquer membro da família dela não tem lógica. Para mim, claro. Ele, pelo contrário, nunca lhe disse nada disso, pois considera-a família.
Nos casamentos católicos, o pai (ou quem o representa) desfila na igreja de braço dado com a noiva, e ao aproximar-se do altar, em simbolismo, entrega a mão da noiva no noivo, formalizando a transmissão. A partir desse momento, a família dela passa a ser o do seu futuro marido.
Mas desengane-se o noivo, pois em quase todas as ocasiões, foi apenas mera encenação, uma fachada. A Mulher nunca será dele, mas sim da Família.
Claro que esta postura, esta filosofia de vida, acaba invariavelmente por reflectir-se negativamente ao nível da convivência, do respeito e das opções do dia-a-dia, conscientes ou inconscientes. Em caso de dúvida, o Sangue prevalece.
Soube de um caso real, de um marido recém operado, que viu a sua a esposa viajar para o estrangeiro para ir tomar conta do cão do filho de ambos, que ia de férias. Ela não podia dizer que “não” ao Sangue. O ciclo repete-se. Vezes sem conta.
Para mim, Família é Sangue E quem está comigo! E declaro-me totalmente incompatível com o Tipo Sanguíneo acima descrito. É-me tóxico. Mata-me.
Com essas Filosofias de Vida não admira que esses pseudo-casais se separem, pois, na realidade, um nunca foi nem será nada para o outro!