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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Elsa (1)


Estou sentado na carruagem de metro a olhar para o écran do meu telemóvel, alheado de tudo e de todos, aguardando apenas chegar ao meu destino, sem interrupções e sem grandes demoras.

Sinto-me em paz comigo mesmo, apesar da tarde ter sido muito atribulada. Talvez este sentimento tenha a ver com os movimentos ritmados da carruagem do metro. Quem sabe? Mas na minha placidez nem me importa.

Os últimos meses têm sido bastante complicados para mim, com inúmeras desavenças, discussões e desacordos. E como isso me tem desgastado imenso.

Farto-me de ver sem nenhuma atenção as notícias do Sapo, do Observador, do El Pais ou da Globo e levanto os olhos. As pessoas estão tão alheadas como eu estava. Ainda bem, pois desta forma nem reparam em mim, a olhar para elas.

Sempre gostei de olhar para mulheres bonitas. Acho que desde sempre todos gostámos de olhar para o belo. E eu olho não com desejo nem com inveja, mas apenas com admiração pela beleza especialmente dos pequenos pormenores.

Num vislumbre fixo o meu olhar numa mulher pequena e discreta, e tão discreta é que nem reparei nela no primeiro olhar, escondida na sua aura de invisibilidade.

Vejo que ela não se enquadra no meu conceito de grande beleza mas, por alguma razão por mim desconhecida, não consigo tirar os olhos dela.

Por fim, lá recuo no meu olhar, com receio que me perca ou, pior, que seja por ela notado. Finjo olhar novamente para o écran do meu telemóvel, mas este ri-se de mim e parece reflectir apenas a face da tal mulher, pequena e discreta.

Inevitavelmente volto o meu olhar para o seu rosto e perco-me nas suas rugas de tanto sorrir, e os meus olhos dançam ao ver o seu rosto, que parece iluminado de felicidade.

E a partir desse momento essa tal mulher pequena, discreta, tornou-se linda aos meus olhos.

Olho em redor e vejo que ninguém reparava nela. “Serão cegos, ou serei eu?” É que ela transpirava uma tal beleza despojada que já me cegava os sentidos.

Com grande esforço tento retomar o olhar fingido para o écran do meu telemóvel, mas pelo canto do olho detecto que desta vez sou eu o observado. Por ela. E entro em pânico. “Chiça, que ela está a olhar para mim. Fui apanhado!
(continua)

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Uma Carta

Amor, escrevo-te esta Carta por diversas e diferentes razões. Sei bem que não é a mesma coisa estar a transmitir as mesmas palavras, olhando para os teus olhos, mas, dadas as circunstâncias, não me resta outra opção.
O nosso início de relação foi, para ambos, como um lento despertar, uma imensa espreguiçadela de duas pessoas que, estando muito bem sozinhas, começaram a aperceber-se que essa não era a única via, a derradeira solução.
E quando essas duas pessoas, autónomas e desembaraçadas, felizes das suas vidas, se encontraram numa esquina da vida e descobriram, com espanto, que estão melhor uma com a outra, só têm duas hipóteses, ou ficam juntas ou ficam juntas!
E o Amor é lindo quando surge, e mais ainda quando desabrocha. Parece que não há limites para o seu crescimento, qual Big Bang que, de uma centelha explosiva tornou o Universo infinito. E era mesmo essa a sensação. O nosso Amor era infinito.
Mas pessoas houve, daquelas que gravitavam à tua volta como cometas errantes, que não desistiram tão facilmente de ti. E mesmo sabendo que te consideravas minha, não descansei jamais.
Tu eras o Sol e eu a Lua, e juntos reinávamos sob a luz e as trevas. E não havia hora do dia que um de nós não estivesse no firmamento. Mas isso para mim já não era suficiente.
As trevas adensaram-se na minha Alma, vindas das profundezas do meu passado, e os vírus do ciúme e da desconfiança alastraram, e chegou a altura que até as tuas juras de Amor já só sabiam a fel, e não a mel.
Mesmo sabendo que me eras fiel desconfiei. E nesse momento vimos claramente que as Sombras se adensavam e tornaram-se maiores que a Luz, tapando o céu azul que sempre nos cobriu, e soubemos, com tristeza que algo tinha de ser feito.
Sempre me disseste, que Amar é Confiar, mas mesmo assim, sei que Amei e continuo a Amar, mas não confiei. Como a fábula do escorpião e do sapo, mesmo sabendo que ambos morreríamos, feri-te de morte.
Mas agora sei que não era de ti, mas sim das Trevas, da própria Sombra, do Passado que desconfiava. E sei também como sou e não mudo, nem mudarei. Mas mesmo assim sei que te Amei. E Amo.
(Até) Sempre