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segunda-feira, 2 de abril de 2018

O Tinder Man



Um dia, fortemente amarrotado pela vida e muito mais pelas mulheres, ajoelhei-me em frente ao altar da igreja da minha paróquia, e fiz um pedido solene e expresso: “Meu Deus, se me ajudares a encontrar a mulher da minha vida, serei teu fiel seguidor para sempre”.
E Deus, sempre presente, deu-me logo a resposta!
Ao sair da igreja pareceu-me ver um Anjo a descer dos céus num raio de sol. E com um telemóvel na mão a mostrar-me a salvação, disse: “Oh mongas, já conheces o Tinder?
Eu estranhei um bocado o vocabulário, pois “Oh mongas” não parecem palavras de um Ser Angelical, e desconfiado, olhei melhor. Afinal era o meu amigo Inácio Pernalonga, mas não o reconheci por ter o sol de frente para os meus olhos.
O Tinder é que está a dar”, disse ele, todo entusiasmado. “É só gajas, meu”, e ria-se muito. E babava-se. Enojado, afastei-me dele mas saquei-lhe o telemóvel apenas para ver o que era isso do Tinder.
Logo à primeira vista fiquei bastante impressionado. Era uma coisa mesmo divina. Olhei para o céu e disse baixinho “Obrigado”, e pisquei de leve o olho.
Vi naquele momento que uma luz Luz Divina tinha descido sobre mim, e senti-me perto de Deus e e especialmente da mulher da minha vida. "Desta vez é que era! Viva o Tinder!"
Fui ter com o meu primo Vicente para ele “meter” no meu telemóvel o Tinder. Estava muito nervoso com a emoção, e mais nervoso fiquei quando vi que já tinha as babes todas, e sorridentes!
O meu primo ensinou-me que se as gajas fossem “boas” eu carregava no verde, e se fossem “monstrengas” carregava no vermelho, para elas irem à vida delas. Era a loucura. Para mim era só verde, verde, verde, pois no Tinder as gajas são todas boas e poderosas!
Passados uns dias, já com o dedo gasto de tanto carregar no verde, perguntei ao meu primo “e agora, quando é que elas começam a aparecer?”. Não gostei da cara dele, pois parecia que me estava a considerar estúpido….
As gajas não vão aparecer por carregares no verde. Isto é uma aplicação informática. Sabes o que é uma conta no Tinder?” Tantas coisas esquisitas que o meu primo disse. Ele escusava era de falar tão devagar, como se eu não entendesse as coisas.
Na verdade, não percebi nada do que ele me disse, mas eu não dei parte fraca e acenei com a cabeça, a mostrar ares de entendido.
Só não desisti naquela altura porque o meu amigo Daniel "sacou" no Tinder uma  tipa toda boa, lá do Pinhal Novo, e andou a tarde inteira para cima e para baixo com ela, só para a mostrar! Ele parecia um pavão, todo inchado, os outros roídos de inveja e eu a dizer "vou conseguir!"
Aos poucos, fui aprendendo como funcionava o Tinder, mas levava sempre com tampas, desprezo ou silêncio das “gajas”. E sentia-me triste e frustrado....
Quando estava mesmo quase a desistir de vez, farto daquilo tudo, “atinei” finalmente, e desde então as gajas não pararam, para minha profunda felicidade!
Tenho é de vos confessar que o meu primo ajudou um bocadito, especialmente quando ele colocou no meu perfil uma fotografia de um tipo parecido com o Brad Pitt, todo sorridente e musculado, encostado a um Ferrari…

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sob um Céu Cor de Chumbo

O céu avisava-me que não estava para brincadeiras, ameaçando ruir. Ribombos ouviam-se ao fundo, alertando que os deuses, de tão doidos, atiravam raios para os incautos que por baixo deles, fugiam.
Eu continuei deitado de barriga para cima, olhando desafiante para as nuvens ameaçadoras, que furiosas pela minha audácia, segredavam umas para as outras, juntando-se cada vez mais. E o ribombar cada vez mais próximo.
Via pelo canto dos olhos o intenso brilho dos relâmpagos a varrerem a planície, lançados pelos insanos deuses, cujo riso se confundia com o troar dos trovões. "Malditos", pensei eu, "Sempre a mesma coisa. Os fortes brincam com a fracos". E desafiante, continuei deitado, olhando as nuvens.
Animais passavam por cima de mim, desesperados de medo pela fúria dos elementos, mal sabendo que eram os deuses os verdadeiros causadores. Aqui e ali focos de incêndio iam surgindo, tal a proficuidade de raios que iam varrendo tudo ao seu redor. "Malditos", pensei eu.
De súbito, um deus menor olhou para mim e mesmo antes de lançar um raio, perguntou-me quase incrédulo “Mas tu não tens medo de mim?” pelo que respondi, apenas com o olhar “Não, não tenho medo nenhum de ti”. E continuei deitado de barriga para cima, olhando desafiante.
Os deuses foram parando de atirar raios, perguntando uns aos outros e às nuvens quem era eu, que fazia ali, e porque não tinha medo deles. E mesmo por cima da minha cabeça espreitavam pelo céu abaixo, para mim. E eu olhava para eles, desafiante, sem medo.
O deus menor colocou uma escada e quando esta tocou no chão desceu, indo ter comigo. Olhou para mim e depois olhou para cima, para os outros deuses e nuvens. Acenou para eles e estes responderam. Tudo estava em silêncio, aguardando.
O deus menor deitou-se ao meu lado, olhando nos olhos para os outros deuses, e parecia mesmo que lançava, como eu, um olhar desafiante. Os outros, lá em cima, estavam atónitos com tamanha audácia. E debandaram de onde estavam.
Julgava eu que os outros deuses se tinham ido embora, que tinham ido infernizar outros, mas não, desciam vagarosamente a escada e encaminhavam-se para mim. E eu olhava desafiante para eles, desta vez junto à ceara. E o mesmo fazia o deus menor.

E findou-se a tarde, comigo a olhar para um céu sem nuvens, completamente rodeado de deuses, todos deitados de barriga para cima, e que deliciados, viam um mundo como nunca imaginaram que fosse.