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sexta-feira, 13 de abril de 2018

O Último Romântico (O Início)

Foge daqui, filho de uma meretriz sarnenta, senão dou-te com a cabeça numa pedra!”, gritei, fingindo um rosno feroz. E felizmente fugiu, pois pelo seu tamanho, comparado com o meu corpo franzino, quem ficaria em maus lençóis seria eu, e não ele.
Um brutamontes lá da escola estava prestes a maltratar a rapariga dos meus sonhos, que jazia no chão do recreio da escola, meio aparvalhada com o sucedera, especialmente o meu acto de coragem. E para minha surpresa notou que era eu o seu salvador, sorrindo-me.
Claro que não tardou que eu levasse uma “surra das antigas”, pois o André, o grande e gordo André tinha fugido porque julgara que era um grupo que o estava a ameaçar, e não um franganito sozinho, armado em herói, defensor das meninas, chamado Carlos.
Cheguei a casa nesse dia bastante amassado, para aflição da minha mãe e da cara zangada do meu pai, que me disse solenemente “filho meu não entra em casa a dizer que lhe bateram, mas sim que se fartou de bater!
Ainda tentei dizer ao meu pai que “eu bater bati-lhe, mas foi poucochinho…”, mas achei que não valia a pena, pois até falar me doía, e só queria ficar sossegado para ver se no dia seguinte conseguiria ir direito para a escola.
Jurei para mim mesmo que não me iria mais meter em brigas por garotas. “É que não vale a pena!”. E assim adormeci. Mas lembro-me perfeitamente que, apesar desse juramento, sonhei a noite toda a ser um herói, a derrotar os maus e a receber beijos das miúdas.
Miúdas? Não! Não eram beijos de umas miúdas quaisquer, mas apenas da dos meus sonhos. Acho que nasci num tempo errado, pois sou uma mistura esquisita de cavaleiro andante medieval e de romântico do século XIX.
Estão a ver as ideias tolas do D. Quixote? Agora misturem-nas com a dos românticos e o resultado é: “As mulheres são umas preciosidades tais que deviam viver numa redoma de vidro, afastadas e protegidas de todo o mal!
E quem é que “safaria” as senhoras e senhoritas de todo o mal? Eu, claro! É que apesar do juramento da outra noite, continuei a meter-me em todas as brigas que implicassem a defesa de elementos do “sexo frágil”, apesar da minha fraca figura e de, reconhecidamente, “nem ter cara para levar um estalo”.
Sinceramente não sei como me tornei assim. No fundo acho que sempre fui “menino da mamã”, apesar de o negar veementemente quando me diziam tal coisa. E por isso fui levado a pensar que os elementos do sexo feminino eram muito frágeis, carecendo da minha protecção.
Que estupido eu era. Bem, e continuo a ser…”, penso, tantos anos passados e tão farto das coças que tenho recebido das mulheres, ao longo desta vida. É que se a maioria das mulheres não tem corpo de homem para entrar em brigas, possui armas poderosas. E usam-nas mesmo muito bem.
Quando paro para pensar na minha vida, recordo episódios que me fazem sorrir e outros que me fazem espantar pela minha ingenuidade e quiçá, grande estupidez. E são essas histórias que me proponho contar-vos. Se para isso estiverem dispostos, claro.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Elsa (4)

No tempo dos meus pais, raras eram as pessoas que trocavam de emprego. Na verdade, na maior parte das vezes elas nem os escolhiam, pois estes eram arranjados pelos padrinhos. E se estes não fossem padrinhos pelo santo baptismo, passavam a ser pelo santo emprego.

E tal como não se mudava facilmente de emprego, também não se mudava de clube, de religião e principalmente de cônjuge. Mas como tudo isto acabou no espaço de uma única geração.

Invejo os meus pais pela vida que tiveram, e ainda mais pela sua relação. Longe de ser perfeita (eu sempre desconfiei das coisas que parecem perfeitinhas), foi suficientemente estável para permanecerem juntos.

Assim, e naturalmente, desejei sempre ter o que os meus pais tiveram, e de todos antes deles, e que agora caiu em completo desuso: ter alguém para a vida!

Disse-me uma vez um amigo que “não te preocupes que pois mulheres há sempre”. Ele tinha razão, pois efectivamente, mulheres há e haverá sempre.

A grande diferença entre mim e ele é que eu queria encontrar alguém especial e ele queria encontrar alguém que o achasse especial.

Sinceramente não sei qual dos dois estava a ser mais exigente. O único facto concreto é que ele, desde então, teve muitas. E eu não…

Eu queria encontrar a “A Mulher”, uma especial, com um M de Mulher muito grande. E nada mais! Só isso”. Rio-me ao pensar nisso.

Por vezes dei por mim a formular a pergunta “será esta?” Mas o simples acto de me questionar significava que tinha dúvidas e se tinha dúvidas é porque essa não era a tal. É realmente mesmo muito simples.

De repente, deixei-me disso. Senti que estava a viver num casulo sentimental, e apesar de continuar a ser um bocadito “assediado”, resistia às pressões porque, pensava eu, não estava preparado para ter uma relação tal como ambicionava.

Se eu fosse uma pessoa com temor à solidão, teria aceite uma ou outra situação, pois valeria tudo menos ficar para tio, até ficar com alguém que não amasse, ou que tivesse de mentir acerca dos sentimentos. Será que uma mentira piedosa dessa índole doí menos que as outras?

No fundo, que mal faz estar numa relação sem lá estar, realmente? Não é essa a realidade para tanta gente ao redor deste globo? Será o Amor o único vínculo que  une duas pessoas? Não será tão válida uma relação sem Amor como uma prenhe desse tão nobre sentimento?

Bem sei que posso começar, manter e acabar uma relação sentimental e íntima sem dizer uma única vez “Amo-te”, sem verter uma lágrima, sem ter tido uma discussão. Mas não é decerto esse tipo de relação que quero na minha vida!
(continua)