quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Pilha-Galinhas 1 - O Gato escondido com o rabo de fora

De súbito, ouço um tal grito de horror que julguei que ia pôr em alvoroço todas as gentes deste pequeno e pedregoso vilarejo, perdido nas ásperas serranias beirãs.


Olho pela janela e verifico que afinal ninguém se tinha incomodado. À parte da minha curiosidade, nem eu própria me incomodei, para além do mais, sabia que daí a pouco alguém me iria contar a sua razão, e tudo ficaria por aí.
Interrompo os meus pensamentos com o barulho da porta dos fundos a bater. Sei logo que é alguém de casa. É que ninguém me entra pelos fundos que não seja dos meus!
“- Mana, estou de cabeça perdida. Então não é que me vieram dizer que a Filomena anda a dormir com o meu homem. Logo com aquela p… de m…da que se dizia minha amiga. Com o meu homem, mana!”
 “- Mas tu não sabias?” Atirei-lhe eu. E fiz-lhe a pergunta ao mesmo tempo que colocava a minha melhor cara de dúvida que consegui.
Perante a sua negação verbal, acompanhada dos dedinhos cruzados e beijados da minha irmã, levantei os ombros e virei-lhe costas, exasperada.
“- Como é que a Berta não sabia? Realmente nunca me falou no assunto. É que toda gente sabe. Fogo, o corno é mesmo sempre o último a saber. Ou então estará ela em negação….” Pensei rapidamente.
Eu desconfiei logo quando os vi todos contentes e animados, durante as festas.
É que com o meu homem foi também assim….
Rapidamente deixo de pensar nesse meu penoso assunto quando vejo pelo canto do olho a minha irmã a sair pela porta da frente, o que significava que não se iria esconder.
Ela queria “festa!” E se ía ter com a Filomena, a minha mana ía tê-la. E saio logo atrás. Vejos outros a juntarem-se à “procissão”. E logo depois o “andor” pára em frente à casa da Filomena.
“- Ó minha p… de m…da, sai-me aí de casa que eu quero-te ir à tromba!”
A minha irmã quis levantar tanto a voz que esta soou demasiado aguda. E muitos riram à socapa da vozinha dela.
Realmente chamar “p… de m…da” com voz de menina da primária não intimida nada. Desatei a rir por dentro. Mas a minha cara continuou séria. Como convém.
Não se ouvia nada. Nem sequer um “ai”. Nem na rua nem na casa visada. Até os cães deixaram de ladrar, expectantes.
E não é que a gaja saiu mesmo?! De mãos nos bolsos do avental, cigarro apagado no canto da boca e chinela solta atrás, aproximou-se da minha irmã, a medi-la.
Ao vê-la nesses propósitos, a “cornuda” da minha irmã começou a rodeá-la, e colocando também as suas mãos nos bolsos do avental, mediu-a de cima a baixo. Como convém.
“- E que comece o combate!” Disse entre dentes.
Batida de ver cenas destas, já sabia de cor os passos que iriam anteceder os puxões de cabelos, e por isso fui para a porta dos fundos da casa da Filomena. Queria ver uma coisa no quintal dela.
“- Ó mana, larga lá essa gaja que temos aqui um porco para esfolar!“ Gritei-lhe eu, ao qual a minha irmã responde “- Eu já estou a ir!”
Eu tinha dado com o Carlos, o futuro ex-mais que tudo da minha irmã, por sinal muito mal escondido no pequeno milharal existente no quintal, por detrás da casa da Filomena.
Senti-o carregadinho de medo, pois ele sabia bem que estas duas manas eram lixadas como o caraças. E duras como os cornos. Quase que senti pena dele. Quase.
Ao ver-se acossado, saíu de detrás das espigas o meu “querido” cunhado, com uma cara de sonso de que não estava a fazer ali nada de mal. Mas eu cheirava o seu  pânico.
“- Olá Rosa. Tu por aqui?” Disse o otário, ao mesmo tempo que os seus olhos de osga vesga procuravam um sítio para escapulir. E eu a topá-lo….
“- E tu, mongo, que andas por aqui a cheirar? Vieste tratar da canalização, foi?” Respondo-lhe eu de braços cruzados, ao mesmo tempo que num passo curto e rápido, lhe corto o caminho de fuga.
A minha irmã chega entretanto à horta, e vi pela sua cara que estava mais do que pronta para lhe cortar ali mesmo as partes pudendas.
Ao vê-la avançar daquela forma o Carlos recua, pondo uma mão à frente da cara e a outra junto às partes, suplicando para ela não lhe dar uma surra ali mesmo, na horta da sua amante.
Entretanto a Filomena chega, e por momentos julguei que ela ía se colocar entre a minha mana e o Carlos, protegendo da surra o seu homem, e assumindo deste modo a relação. Mas não. Ela tinha-o deixado sozinho, entregue à sua sorte.
Eu senti ali mesmo o Carlos a quebrar. Ele baixou a cabeça, derrotado, sentindo que tinha perdido as duas. Soube então que tinha sido usado. O espertalhão tinha sido enganado.
“- Ide-vos. Se vos quereis bater que o façam lá fora!” Ordenou a dona da casa. Era o que nós queríamos ouvir. Se não ía haver pancadaria ali, iríamos para outro sítio.
Empurro o Carlos para ele ir à minha frente e vamo-nos embora, passando pelas gentes que cada vez em maior número se aglomeram em frente à casa da Filomena.
Claro que as piadas não demoraram: “Elas vão capá-lo ali em baixo no terreiro!” e “Pelo cheiro o Carlos borrou-se todo!” E riam-se muito. E eu também me ria. Mas por dentro. Só por dentro. Como convém.
Pelo percurso tomado soube que a minha irmã decidiu que ía para casa com o Carlos. Fazia bem. Se queria fazer ou dizer alguma coisa, que o fizesse dentro de portas.
A minha irmã é mais impulsiva que eu, mas quando se acalma, faz tudo muito bem pensado. E sem arrependimentos.
Numa situação destas eu agiria sem pensar, por impulso. E depois ficaria meses a remoer os remorsos e o arrependimento.
Deixei-os à porta de casa. O Carlos fez o trajecto todo de cabeça baixa, e sem largar um único lamurio. Parecia a marcha de um condenado à morte.
Quem visse a minha irmã diria que estava ufana, pois parecia que estava a trazer um troféu de caça para casa, mas eu sabia bem que era só fachada, apenas uma defesa dela.
A Berta estava era a sofrer muito com toda esta situação, e eu sofria com ela e por ela. E o pior é que tudo isto estava a reavivar-me o que eu sempre desejei esquecer de vez.

E uma falsa e estranha calmaria irrompeu neste pequeno e pedregoso vilarejo, perdido nas ásperas serranias beirãs, quando a minha irmã por fim cerrou a porta de casa.
(continua)