sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ciúmes (2 de 2)


Mas voltando à videoconferência…..
Como habitualmente, partilhei com a Teresa a lista de oradores. Ela olhou com atenção e aprovou-os tacitamente, pois nada disse. Limitou-se a devolver-me a folha.
Depois entreguei-lhe a lista dos participantes, aqueles que apenas podem intervir ou questionar, enviando um email, e ela reparou logo que no extenso grupo havia uma ex minha no grupo.
Pior que tudo, na tal lista constavam os nomes de duas amigas minhas, de longa data, e que para ela eram muito suspeitas – ou seja, fazia grandes cenas de ciúmes quando sabia que tinha falado com alguma delas.
- Jorge, o que é que estas gajas estão a fazer ali? O que é que elas querem? Como souberam disto? E questionava-me com as mãos nas ancas, o que significava grandes sarilhos.
- Teresa, por favor não armes agora uma cena que eu tenho de fazer uma vídeo chamada com um dos oradores e preciso de estar bastante calmo.
- Claro que sim, amor! É que nem te incomodo mais. E apanhando a mala, bateu com estrondo a porta da rua.
Para mim era preferível ela ter continuado ali, a questionar-me. Ela sabia bem que sair porta fora, zangada comigo, e ainda por cima acompanhada de um sarcástico “amor” era para mim altamente enervante. Desisti de falar com o orador.
Quando ela voltou, uma ou duas horas depois, eu encontrava-me numa grande azáfama, pois estava a minutos de se iniciar a videoconferência. Ela tocou-me levemente no ombro e piscou-me o olho.
Reparei que ela estava a ligar o seu portátil no quarto, pois era uma das participantes. Achei-a calma e acalmei-me.
Tudo estava perfeito.
Começou a videoconferência. Senti que todos os oradores estavam fortemente determinados em que a sessão fosse um sucesso.
Como moderador, estava atento a todos os pormenores, incluindo ler as questões e mensagens dos participantes, direccionando-as para quem considerasse mais capacitado para responder ou comentar.
Já mais de metade da videoconferência tinha decorrido quando uma das oradoras, aspirante a mais protagonismo, e de seu nome Virgínia, resolveu brilhar.
Começou a falar com ainda melhores argumentos e com mais emoção. E o tempo que falava começou a ultrapassar o dos outros todos juntos. E claro que isso não passou despercebido a ninguém.
Compreendi que dado o evento estar a ser um sucesso, a Virgínia sprintar, tal como o faria se estivesse numa maratona e quisesse ganhar a corrida.
E na sua ânsia de se destacar, e não querendo perder oportunidades, começou a insinuar-se a mim como moderador e organizador, falando em encontros de trabalho de preparação para futuros eventos.
Eu sorria para a câmara, pois era mesmo isso que eu queria. Queria competição e audácia.
Confesso que sempre a admirei o trabalho da Virgínia e por isso tinha insistido para que ela participasse como oradora e não como participante.
Mas a coisa começou a descontrolar-se um pouco, pois nós os dois começamos a trocar elogios um ao outro, e eu parei de ler e direccionar as questões e comentários dos participantes aos restantes oradores.
Pior. Quando as lia, comentava apenas com a Virgínia, como se só estivéssemos os dois no mundo. E como isso, naturalmente, fui perdendo o interesse dos outros oradores, e também de alguns dos participantes.
Notei de súbito a armadilha em que tinha caído! Estava a flertar com a Virgínia em frente a todos. Incluindo da Teresa!
Tinha de decidir depressa o que fazer.
A primeira hipótese foi de voltar ao contexto inicial, devolvendo o protagonismo aos restantes oradores, recolocando a Virgínia no seu devido lugar.
Imediatamente refutei mentalmente a hipótese.
- Fui estúpido mas os outros oradores não o são, e já não vão pegar na palavra, pois estão sentidos. Tenho de ir depressa para um plano B, pensei.
Sabia bem o que tinha em casa e imaginei que a Teresa nessa altura já andava a “cuscar” as páginas da Virgínia no Face, Instagram, Twiter, etc.
Os ciúmes da Teresa pela Virgínia já deviam estar no “ponto”.
Arrisquei. Ia tornar aquele evento memorável! E a Teresa iria ajudar-me. Ai se não ia!
- Virgínia, os comentários que tem feito até agora só são superados por uma única coisa, disse, sorrindo, perante a camara.
- E que coisa é essa, Jorge? Retrucou imediatamente a Virgínia, também sorrindo….
- A sua espantosa beleza!…. e para nem falar do seu enorme charme…..
Pelo ecrã consigo ver o que a camara estava a captar atrás de mim, e vejo a Teresa a sair do quarto e a dirigir-se rapidamente para onde eu estava.
E ao vivo e a cores, a camara regista o preciso momento em que ela me acerta com um forte estalo na cara. Uma e outra vez. Com todos a ver….

- A sério, Teresa? Estás a ter uma cena de ciúmes aqui e agora? Mesmo no meio da minha Videoconferência? A sério? A SÉRIO?