quarta-feira, 10 de maio de 2017

Transilvânia (1 de 3)

Orgulho-me de dizer que já nasci aventureiro!
Lembro-me de em petiz pisgar-me lá de casa e ir sei lá para onde. É que bastava uma nesga na porta da rua e lá ia eu….
Os tempos eram outros e claro que eu não ia longe, pois era topado e devolvido à procedência, sem mais delongas e chatices.
Não é que eu não gostasse de casa ou dos meus pais. Era sim o apelo do desconhecido que me era irresistível.
Com a juventude veio a porta aberta e já não me devolviam à procedência. E aproveitei para ganhar o mundo, com a bênção paterna. Não tinham outras hipóteses.
E ao procurar o mundo visível, aproximou-se de mim foi o oculto, especialmente o das criaturas fantásticas. E isso despertou-me instintos ainda mais aventureiros.
Num qualquer verão estando eu plantado na estação de comboios de um vilarejo do centro da Europa, deparei-me com o esquema de circulação de comboios da zona.
Um ramal esquecido seguia para nordeste, para uma região montanhosa e manhosa por natureza. Mesmo daquelas que eu gosto.
E assim apanhei o comboio para a Transilvânia, com um sorriso tão fino nos lábios como nunca tive!
E com um pôr-do-sol delicioso adormeço no comboio, mais vazio que a minha carteira, num banco de pau, como nos velhos tempos.....
… | …
Acordo com uma gritaria infernal de uns tipos que me ladeiam, aparentemente pelo estúpido do condutor se ter enganado no percurso.
Sinceramente não percebo nada do que se está a passar nem do que dizem, mas isso no fundo é o menos. É que quero lá saber do seu linguajar.
A verdade é que não tenho ideia como vim parar dentro daquele automóvel a cair aos bocados, no meio de um verdadeiro grupo de trogloditas, com caras de poucos amigos.
Tentando não demonstrar medo, apercebo-me que é noite lá fora, e que a caquéctica viatura cheira a tudo, menos a coisas boas e agradáveis. E transporta estranhas armas. E à vista!
E incomoda-me constatar que os piores cheiros não vêm verdadeiramente do automóvel mas sim dos seus ocupantes, nos quais eu me incluo, sem nenhuma ponta de orgulho.
Mas não me ouso queixar, pois no fundo vou bem sentadinho, apesar de mais espremido que uma laranja da Bahia em máquinas de sumo.
É que consigo imaginar situações muito piores que esta, tal como viajar amarrado no capot ou na bagageira. Ou mesmo ir a pé por este desolado e desabitado lugar, no meio da noite.
De repente o automóvel pára e eles enxotam-me do seu interior, com uns gestos que não se me augura nada de bom…
Começam a falar uns com os outros, e pela forma como me olham, claro que estão a falar de mim. E eu a topar tudo mas sem compreender nada.
O romeno aldrabado e com sotaque é lixado, pois se tens esperança de reconhecer algumas palavras, da estrutura não percebes pevide. E apenas podes ler as caras deles, mais nada.
Os tipos sentam-se à volta de uma fogueira a descascar fruta com umas naifas de meter medo ao susto. E eu a pensar que se a fruta é para a sobremesa, eu vou ser o prato principal!
Bem bebidos, começam a dizer merdas uns aos outros, empurrando-se e rindo muito das suas piadas incompreensíveis.
Já tinha visto que eles de espertos tinham muito pouco, razão pela qual nem se lembraram de me amarrar. Mas de súbito arrepiei-me!
Eles não precisam! São quatro manfios com um aspecto “Deus me Acuda”, no meio de uma floresta de montanha, e eu nada conheço daquelas bandas.
Assim, eu iria fugir para onde? Ainda por cima numa noite escura para caraças, e se houvesse luar, as nuvens fantasmagóricas estariam a cobri-lo totalmente.
De repente dois deles começam a andar à pancada na brincadeira, acho eu, e os outros, já fortemente tocados, desatam a rir. E eu, em vez de me por a rir também, fugi!
Aquelas bestas ainda foram atrás de mim, aos gritos e aos tiros para o ar, mas eu já estava deitadinho num buraco, no meio de uma moita.
Ainda os ouvi lá ao longe durante mais algum tempo, enquanto ia à minha vida, no sentido contrário.
"Raio que vos partam, malucos de merda!"
(continua)