terça-feira, 30 de maio de 2017

A Bruxa

A Bruxa mexia e remexia o seu caldeirão, enquanto um gato vesgo e meio pelado dormitava em cima de um molho de ervas secas. E enquanto mexia e remexia o seu caldeirão cantarolava uma canção cheia de fel e veneno, tal a raiva que lhe enchia os fígados.
A Bruxa mexia e remexia o seu caldeirão, enquanto pensava que nem sempre tinha sido assim, pois já tinha sido menina e moça. E enquanto mexia e remexia o seu caldeirão, pensava no seu amor perdido, no seu cavaleiro andante, comido por um dragão feroz.
E uma lágrima fugidia caiu para dentro do caldeirão….
A Bruxa mexeu e remexeu o seu caldeirão ainda com mais vigor, enquanto de lá de dentro saiam sombras fantasmagóricas, que subiram até ao tecto da feia cabana. O gato, assustado, eriçou os seus poucos pelos, e até os seus olhos olharam a direito.
A Bruxa deixou de mexer e remexer o seu caldeirão e pousou a colher. Estava cansada mas muito satisfeita. De dentro do seu caldeirão saía, desorientado, o seu cavaleiro andante, e refeito das mordidas do terrível dragão.
A Bruxa ajeitou as pestanas e as sobrancelhas num espelho sujo por falta de uso, limpou as suas vestes o melhor que pode e colocou um chapéu para conter o seu cabelo, e esperou que o seu amado abrisse os olhos, para a ver.
A Bruxa viu o seu amado a abrir os olhos e ao vê-la, sorriu, sorriu como se estivesse no paraíso, e ela respondeu sorrindo também, abraçando-o como se nunca tivessem sido separados pelo destino, e ele respondeu ao seu abraço, emocionado…..
Mas se pensavam que o cavaleiro andante ia ficar assustado com o aspecto da bruxa, leiam de novo e irão reparar que em lado nenhum está escrito que ela era feia ou repugnante!
Pelo contrário, a Bruxa era mesmo muito bonita, apesar de já não ser menina e moça.
Feia era a cabana, e sim, o gato era vesgo e meio pelado, mas de resto de feio ele não tinha nada.

Que preconceito que temos sobre as bruxas….. e no fundo, sobre muito mais…..