segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Bem-vinda de volta, Tristeza

Sinto agora a Tristeza, alegremente, a invadir a minha alma. Sinto-a a ocupar o lugar da Felicidade que, envergonhada pela sua derrota, se retira para parte incerta. E se retira, talvez, para nunca mais voltar.
Sinto agora que todos os meus esforços e sacrifícios foram em vão. Terá valido a pena ter deixado de dizer o que sentia? Terá valido a pena ter deixado de fazer o que queria?
Talvez sim, pois permitiu manter a réstia de Felicidade acesa por mais um dia, por mais uma hora, por mais um minuto. Talvez não, pois permitiu que a sombra da Tristeza assomasse mais um pouco, até cobrir todo o firmamento visível.
Mas afinal de que queixo? Eu, que sempre considerei a Felicidade um estado de alma passageira e etérea, que num momento está real, forte, sólida, e no outro é apenas um rasto de fumo esvoaçante, réstia do que foi instantes antes.
Sempre vi a Felicidade tão fugidia como uma gazela, que assoma à vida dos incautos apenas por uns breves momentos, e nada mais. E quem a considera sua apenas a vê escoar-se pelos dedos, como areia do mar.
Sempre vi a Tristeza tão permanente como a alma, que acompanha a vida dos serenos para sempre, e mais além. É um estado de alma que soa e ecoa como uma balada ao luar numa qualquer praia, acompanhada por umas quaisquer lágrimas fugidias.
Mas não me queixo. Recuso-me. Abraço com força a Tristeza, e dela não prescindo nem prescindirei nunca mais, pois ela é minha! Ela, que verdadeiramente nunca me abandonou, nem por um instante, pois eu é que me esqueci dela, abraçando outra, que agora me deixa….

Bem-vinda de volta, Tristeza

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Os Votos

Ao contrário da maioria dos casamentos realizados em Portugal, troquei Votos com a minha mulher. Agora é mais comum entre nós, resultado de inúmeras cenas de filmes norte-americanos, mas na altura era uma ideia (quase) original.
Já cansado do casamento sem este sequer se ter realizado, olhando para as contas a avolumar-se e sempre a questionar-me como esta ideia peregrina aconteceu, lá me decidi a terminar umas das muitas tarefas a que fui incumbido. Escrever os votos!
Claro que até esse momento a noiva já me tinha “torrado” a paciência com a porcaria dos votos, ao que eu respondia sempre com um sorriso nos lábios “estão quase quase, Amor”.
No meio de um vazio das ideias, resultado do cansaço daquela efervescência toda, resolvi escrever umas coisas quaisquer, sem pensar nas suas reais consequências. Apenas escrever. E “aquilo”, ao fim de dez minutos estava findo!
Depois de terminados, não mostrei os votos a ninguém. Pior, coloquei o raio do papel onde os escrevi num sítio qualquer e nunca mais me lembrei de semelhante coisa.
Mentira, lembrei-me sim, mas com absoluto terror, quando a noiva já estava na ala central da igreja. Mas como bom idiota que sou, conservei o sorriso.
A noiva notou logo que alguma coisa estava mal, e igualmente com um sorriso falso, questionou-me com os olhos se eu me tinha esquecido das alianças, ao que com um sorriso ainda mais falso lhe disse que não, que era outra coisa, mas sem importância.
Já não sei em que momento da cerimónia em que ambos tínhamos de sacar dos papéis (pois somos os dois fraquitos de memória e não dava para decorar) mas só um sacou. E foi aí que ela me lançou um olhar que me apunhalou três vezes, pelo menos. E garanto-vos que senti ali o meu sangue a escorrer…..
E ela pôs-se a ler o que tinha escrito, e eu só abanava a cabeça, em concordância, mas sinceramente não ouvi absolutamente nada, pois estava a tentar dizer aos neurónios que acordassem, que me tirassem daquela enrascada, e aqueles filhos de uma uva só se riam da minha aflitiva situação.
Vi pela expressão triunfante da noiva que ela estava quase a acabar, e se vocês a vissem naquele momento, reparavam logo que era uma expressão de gozo absoluto, como a dizer “e agora como te vais safar desta, meu parvalhão?”. E a minha aflição aumentou exponencialmente.
Estava eu quase a dizer algo parecido com “faço minhas as tuas palavras”, mesmo sabendo que iria o casamento terminar em divórcio logo ali no final do almoço, quando um dos meus neurónios mais conscientes me segredou “tenho aqui umas memórias vagas do que escreveste”.
Enchi o peito de ar, e devolvi retribuir o olhar à noiva, que intrigada julgou logo que ou a tinha enganado, para ela ler os votos dela primeiro, ou que eu os tinha decorado. Afinal nem era uma coisa nem outra.
E com o neurónio a segredar-me ao ouvido, fui dizendo algumas coisas que efectivamente tinha escrito, e eu estava a ficar mais serenado, os convidados iam ouvindo atentos, e o semblante da noiva estava a ficar desanuviado quando….
...o neurónio disse, …por último acho que escreveste - prometo nunca te mentir - mas estava escuro na sala e a tua letra é muito má, e por isso não tenho a certeza”.
Entrei em pânico. O meu cérebro quase explodiu de actividade, pois reconheceu que jamais noivo algum poderia ter escrito esse voto, mas tinha de terminar a minha intervenção e não tinha tempo para inventar nada.
E disse-o: “E prometo nunca te mentir”. A noiva fez uma expressão inicial de espanto legítimo, e depois de loba a olhar para um cordeiro. Vi logo que estava lixado, no mínimo. A minha cabeça latejava imenso, ameaçando explodir.
Foi aí que ouvi todos os convidados a rir à gargalhada. Olhei para eles, indignado, e eles riram ainda mais alto, pois se inicialmente julgaram que me tinha enganado, constataram que afinal eu estava a dizer um voto verdadeiro. Foi mesmo a loucura, pois até o padre se dobrou de tanto rir.
Acordo do meu sonho, ou melhor, do meu pesadelo, completamente suado. É recorrente desde há uns largos anos. E sempre me afecta muito, pois recria o que poderia ter sucedido....
Efectivamente a situação do papel dos votos esteve prestes a acontecer, mas o meu irmão ficou com o papel e entregou-mo na cerimónia. E, claro está, não havia lá nada escrito sobre nunca mentir à esposa....
Ainda deitado na cama, vejo a minha mulher a passar por mim no quarto, depois de sair do banho, e lanço-lhe um alegre “Bom dia Amor. Olho para ti e vejo-te ainda mais linda do que no dia em que te conheci”.
E tanto ela como eu sabemos que não estou a mentir….

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A Pirâmide Humana


Já vi a Vida de muitas formas. Muitas mesmo! E agora vejo-a como um intrincado jogo de equilíbrio entre as pessoas.

E nesta visão da Vida, somos todos artistas do Cirque du Soleil, em que cada um de nós ampara e é amparado por um conjunto de pessoas, uns mais próximos e outros mais afastados, mas todos igualmente importantes.

E na minha cabeça, esse jogo de equilíbrio toma a forma de pirâmide humana (por sinal muito popular na Catalunha), encontrando-se nesta estrutura as pessoas mais importantes da minha Vida.

Esta pirâmide, que à primeira vista é sustentada apenas com força muscular e tenacidade, na realidade está suspensa apenas pelo Amor que damos e recebemos dos nossos entes mais queridos.

Nesta estrutura há um acordo tácito de auto-ajuda. Se falhar a força a um, os outros amparam-no, mesmo sabendo que ficarão sobrecarregados e cansados mais rapidamente. Mas quem liga ao cansaço quando a força motriz é o Amor?

Mas que fazer quando sinto estar a ficar animicamente cansado? Que fazer da angústia que sinto por saber que, caso falhe, poderá alguém cair ao chão? Ou muitos até?

Será que apenas a força do Amor será suficiente para todos suster? Antes assim parecia, mas agora sinto que já não. A pressão já era grande e está a aumentar, levando as parcas forças que ainda me restam.

Aguento. Tento desvanecer da minha cabeça os pensamentos de desistência, mas sinto que o Amor que me chega já não me chega, Onde está quando mais preciso dele?


Aguento. Mais um dia. Pelo menos mais um dia. É que pensando bem, o Amor não desaparece assim. E por isso aguento. A bem de todos. A bem de mim!

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sob um Céu Cor de Chumbo

O céu avisava-me que não estava para brincadeiras, ameaçando ruir. Ribombos ouviam-se ao fundo, alertando que os deuses, de tão doidos, atiravam raios para os incautos que por baixo deles, fugiam.
Eu continuei deitado de barriga para cima, olhando desafiante para as nuvens ameaçadoras, que furiosas pela minha audácia, segredavam umas para as outras, juntando-se cada vez mais. E o ribombar cada vez mais próximo.
Via pelo canto dos olhos o intenso brilho dos relâmpagos a varrerem a planície, lançados pelos insanos deuses, cujo riso se confundia com o troar dos trovões. "Malditos", pensei eu, "Sempre a mesma coisa. Os fortes brincam com a fracos". E desafiante, continuei deitado, olhando as nuvens.
Animais passavam por cima de mim, desesperados de medo pela fúria dos elementos, mal sabendo que eram os deuses os verdadeiros causadores. Aqui e ali focos de incêndio iam surgindo, tal a proficuidade de raios que iam varrendo tudo ao seu redor. "Malditos", pensei eu.
De súbito, um deus menor olhou para mim e mesmo antes de lançar um raio, perguntou-me quase incrédulo “Mas tu não tens medo de mim?” pelo que respondi, apenas com o olhar “Não, não tenho medo nenhum de ti”. E continuei deitado de barriga para cima, olhando desafiante.
Os deuses foram parando de atirar raios, perguntando uns aos outros e às nuvens quem era eu, que fazia ali, e porque não tinha medo deles. E mesmo por cima da minha cabeça espreitavam pelo céu abaixo, para mim. E eu olhava para eles, desafiante, sem medo.
O deus menor colocou uma escada e quando esta tocou no chão desceu, indo ter comigo. Olhou para mim e depois olhou para cima, para os outros deuses e nuvens. Acenou para eles e estes responderam. Tudo estava em silêncio, aguardando.
O deus menor deitou-se ao meu lado, olhando nos olhos para os outros deuses, e parecia mesmo que lançava, como eu, um olhar desafiante. Os outros, lá em cima, estavam atónitos com tamanha audácia. E debandaram de onde estavam.
Julgava eu que os outros deuses se tinham ido embora, que tinham ido infernizar outros, mas não, desciam vagarosamente a escada e encaminhavam-se para mim. E eu olhava desafiante para eles, desta vez junto à ceara. E o mesmo fazia o deus menor.

E findou-se a tarde, comigo a olhar para um céu sem nuvens, completamente rodeado de deuses, todos deitados de barriga para cima, e que deliciados, viam um mundo como nunca imaginaram que fosse.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Crónica de um Fim Anunciado (2 de 2)

A ideia da nossa relação agonizar propositadamente punha-me louco! Tinha a certeza que ambos sabiamos perfeitamente onde isto tudo iria acabar. Só não sabiamos era quando. Eu pelo menos não sabia. Ela sabia, certamente.

Eu sei que não lhe posso dizer nada, caso contrário ela incendeia-se ainda mais. Nesse entretanto vai continuar a falar comigo num modo gélido, e apenas para me culpabilizar, ficando desta forma constrangido, frustrado e zangado com o mundo.

O mais difícil para mim é vê-la a interagir com outras pessoas de uma forma amorosa e queriduxa, enquanto que comigo é exatamente o oposto, roçando a brutalidade.

E mesmo que alguém visse a Cristina a tratar-me com a mais gélida frieza, iria sempre pensar que seria uma justa reação ao que eu lhe certamente tinha feito.

Sei que é assim porque já vi isso antes, nomeadamente em muitos casais. A maioria já se separou, mas alguns ainda moram juntos, mas estes claro que não são casais. Já o foram. Agora são fantasmas.

É inegável que as mulheres são implacáveis quando querem acabar com as relações. Por isso quando o querem, iniciam “O Plano!

Quando penso nesse Plano vem-me à ideia aquele ditado brasileiro “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”…. Homem, nestes casos, faças o que fizeres estás sempre lixado! Basta o Plano começar. E eu estou no meio dele....

Chego a casa umas duas horas depois de ter saído. A Cristina está na cama a fingir que dormia, e sei antecipadamente o que vai fazer e dizer….

MERDA, ACORDASTE-ME!” grita, olhando-me com olhos cansados de ler, não de ter estado a dormir. “Podias ao menos ter feito menos barulho! Mas afinal que horas são?” pergunta a si própria em voz alta, como se não soubesse com precisão as horas.

Desculpa, ‘mor”, respondo com os olhos a rebentar de rir….. é que quando estamos a ver um filme pela centésima vez, antecipamos os diálogos, e nem sei porquê, dá-me vontade de rir, mesmo que a situação (já) não tenha graça nenhuma.

Deito-me sem lhe tocar e sem sequer lhe dar um beijo de boa noite, como dantes sempre acontecia. E sei que esse "esquecimento" será mais uma acha para a gigantesca fogueira onde estou a ser queimado.


Amanhã será um novo dia. Mais um dia na execução do maldito Plano. Mais um dia dos muitos que aí vêm, e em que tudo avança mais um bocadinho, inexoravelmente. Até ao FIM….

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crónica de um Fim Anunciado (1 de 2)

Mas afinal o que é que se passa, Cristina?” Perguntei-lhe num tom que sabia ser tudo menos amigável. “Porque é que ainda não estás pronta? Sabes bem que combinámos estar em casa da Célia e do Pedro daqui a meia hora.

Estúpido! Pára de me chatear. Olha, por tua causa agora já não quero ir. Vai sozinho!” Respondeu num tom de irritação e de desprezo, calculado ao milímetro.

Já sabia perfeitamente que ela não queria sair comigo. Eu não deito cartas do tarot nem nunca ganhei nada nos jogos da Santa Casa, mas esse sentimento era-me tão evidente que só faltava colocar-lhe legendas.

Rebobinei a “fita” e revi que, numa única e simples frase, ofendeu-me, culpou-me de ter perdido a vontade de sair e ordenou-me que saísse de casa. Maravilhoso….

Claro que utilizei a pressão para que ela anunciasse ao Mundo e de uma vez por todas o que queria ou não fazer. Hoje não me apetecia jogar jogos longos e complicados, cheios de sinais difusos e contraditórios, e que não levam a lado nenhum.

Apesar de ser homem também sei ler sinais, e ajuda muito haver um histórico. Sei que em circunstâncias normais a Cristina já estaria despachada e a pressionar-me para sairmos. Como tudo muda na vida, especialmente na de um casal….

Sabia que não adiantaria demovê-la, porque a Cristina já tinha antecipado mentalmente ter a casa só para si, e só o facto de eu ficar lá (mesmo quedo e mudo numa divisão longe da sua vista) a ia tirar do sério, e começaria uma querela qualquer.

Nos últimos tempos ela começou por diversas vezes discussões violentas e (aparentemente) sem sentido, e eu tinha respondido saindo porta fora.

Como se estivesse a seguir um guião de um filme, logo que saio, invariavelmente Cristina aparentemente cai num calculado e fingido pranto interminável, telefonando a toda a gente descrevendo-me como uma besta insensível, distribuindo pérolas como “Já nem dá para falar com ele. Estávamos só os dois a falar….. Eu assim não sei se aguento mais…

Cristina está a executar o crime perfeito: Quer acabar com a nossa relação, mas atribuir-me as culpas por inteiro! E pior, pois sabe que eu sei o que ela está a fazer.

Mas afinal porque é que ela não diz simplesmente “Já não quero mais, por mim acabou. Já não te amo!”?

Sou um optimista. Claro que todas as relações sofem algum desgaste, mas para mim quase todas têm conserto. Agora esta já não tem, pois acabou um dos itens fundamentais: o Respeito. E isso acaba com o Amor….

Mas não paro de pensar no mesmo. Porque é que a Cristina tem de nos arrastar para uma situação destas?

Porque temos de desgastar a relação até ao limite, desgastar-se a ela própria, a mim, as nossas famílias, amigos e colegas de trabalho?
(continua)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Acabou!


A mulher dos meus sonhos, a Tal, e com quem (tão tardiamente) fiz tantos planos para a vida, diz-me, num repente….
- Acabou!
E foi só. Ali ficou, a olhar para mim.
Não apontou razões nem prolongou o discurso. Não era preciso. Senti que tinha decidido e comunicado. E foi só.
Não discuti, não argumentei, não reclamei. Escutei-a e fiquei imóvel. Nem olhei para ela.
Entrei em transe, instantaneamente. Entrei no passado e no futuro ao mesmo tempo.
Senti-me transportado ao passado, recordando imagens e sentimentos de quando nos conhecemos, nos amámos, nos juntámos como um só….
E vi-me no futuro. Sem ela. E era uma sensação horrivel, pesada, demasiado cruel.
A minha expressão não mudou. Não disse nada. Só imaginava o meu futuro. Sem ela.
E foi aí que as lágrimas irromperam. Caíam como grossas gotas de chuva. Mas eu não as senti excepto quando me começaram a molhar as mãos, que prostradas, ali estavam….
Só pensava no meu futuro. Sem ela.
Pela primeira vez desde que falou, olhei para ela, pois num ténue vislumbre, reparei que tinha mudado subtilmente a sua expressão.
Os olhos dela sorriam.
E vi que os olhos dela sorriram um pouco mais ao ler os meus sentimentos.
E as minhas lágrimas continuavam a cair.
Pensamentos difusos e confusos percorriam velozmente a minha cabeça. Estará ela a gozar com o meu sofrimento? Será ela uma pessoa má, afinal?
O seu sorriso a despontar nos cantos dos lábios fez-me desconfiar, mas não ousei assumir que aquilo tudo estava a ser uma brincadeira.
Mas, e se não fosse? E se estivesse a perceber mal? Não podia arriscar.
Percebendo o que se passava, e já com um sorriso mais largo, ela disse:
- Amor, não acabou nada. Nunca vai acabar. Tu sabes que és o homem da minha vida.
- O quê? Questionei sem convicção, só para ela dizer algo mais. Só para ter a certeza absoluta de tudo o que tinha acabado de acontecer.
- É que eu queria saber mesmo o que sentias por mim. E agora tenho a certeza.
Confesso que fiquei alguns minutos a decidir se a beijava ou se a estrafegava, se gritava ou se ficava calado, se ficava ou se me ia embora…..
Abracei-a.
- Amo-te, mulher da minha vida.
- Também te amo, meu homem.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O Nevoeiro


De vez em quando sinto-me envolvido numa grande neblina, que tudo cobre, tudo envolve, não me deixando nada ver para além de um palmo à frente do nariz. E por mais que lhe tente fugir, ela estará sempre por cima de mim. Como um urubu!
Dado que não tenho nenhum farol que me alumie ou que emita sinais sonoros, avisando-me de iminente colisão ou encalhamento, nestas ocasiões não me resta senão viver de acordo com os marinheiros, ou seja, parado, aguardando que as nuvens baixas se dissipem para poder seguir a minha viagem.
Ao longo dos anos tenho aprendido que há sempre uma razão para tudo, há sempre um motivo para que determinada situação se nos depare na vida, mesmo que não desconfiemos qual é. Pelo menos nesse momento. E o nevoeiro não é excepção.
Tenho constatado que mesmo o que parece muito negativo normalmente tem um lado positivo. E não em raras ocasiões em que me deparei com situações desesperantes, e descobri que mais não eram que portas para momentos de paz e, por incrível que pareça, de felicidade.
Assim, e nessa perspectiva de haver um lado positivo no que surge como negativo, o nevoeiro traz-me, por exemplo, a vantagem de impedir que esteja demasiado exposto, escondendo-me do escrutínio público, e de estar permanentemente disponível.
É que se há alturas em que não me importo nada de estar sob os holofotes, outras há que necessito de recolhimento, de introspecção, de maior intimidade. Ciclicamente preciso de pensar na vida, no passado e principalmente no futuro, e no que realmente quero.

O nevoeiro traz-me de volta a mim mesmo….

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Lurdes

Contrariamente à maioria das pessoas, eu sempre acreditei que entre dois desconhecidos que acabam de estabelecer contacto, as primeiras impressões de pouco ou nada valem, pois nos subsequentes encontros cada um deles se encarregaria de mostrar do que realmente é feito.
Tinha essa ideia porque uma das minhas maiores amigas afirmou que me detestou na primeira vez que me pôs a vista em cima. Para minha defesa, refiro que nessa ocasião eu estava completamente engripado, rabugento, ranhoso. Verdadeiramente improprio para consumo. E consegui alterar essa primeira impressão altamente negativa nos meses seguintes.
Mas entretanto passei a acreditar que as primeiras impressões valem mesmo muito, e do seu sucesso ou insucesso resultará a hipótese de haver - ou não - uma segunda oportunidade de conhecer (melhor) a outra pessoa, e também de nos darmos a conhecer.
Esta mudança ocorreu com a Lurdes (nome fictício). Nós conhecemo-nos por intermédio de um grande amigo em comum, o Filipe (outro nome fictício) há mais de uma década. O nosso encontro foi rápido, muito formal e por isso deveras estranho. Pensem numa apresentação estúpida e ficam com a ideia.
Consequentemente, nenhum dos dois manifestou vontade nenhuma de voltar a ver o outro. Não pensem que fomos antipáticos, pois não foi isso que aconteceu. Foi como encaixar peças da Lego nas da Playmobil. Simplesmente não dava.
A Lurdes ficou com o meu número de telefone, cortesia do nosso amigo comum, acompanhado da tradicional frase: “se precisares de alguma coisa, liga a este meu amigo”. Claro que isso nunca aconteceu, e nunca iria mesmo acontecer, fosse qual fosse a situação. Acho que ela preferiria ligar ao próprio Demo do que a mim!
Eu não fui “premiado” com o número de telefone da Lurdes, mas mesmo que o tivesse, decerto que também a iria ignorar.
Um dia, e quase sem darmos por isso, “amigamo-nos” no Facebook. Não me lembro sequer de lhe ter pedido amizade, e a Lurdes disse-me que pelo lado dela nunca iria tomar essa iniciativa. Naquela altura ela queria mesmo era que eu estivesse sossegado no meu cantinho, bem longe dela.
Apesar de sermos “amigos” no Facebook, o sentimento da primeira impressão mantinha-se entre nós dois quase intocado. Na realidade, porém, a indiferença existente afinal poderia não ser tão grande como julgávamos….
Eu continuava a demonstrar ao Filipe que a minha curiosidade em relação à Lurdes era mínima, limitando-me a perguntar “então como está a tua amiga?”, num tom de voz mais de cortesia do que por interesse. Ficava deste modo a saber algumas coisitas sobre ela, mas bem poucas.
Mal sabia eu que pelo seu lado a Lurdes fazia o mesmo. Perguntava por mim ao Filipe com alguma frequência, e sabendo dos meus feitos, conquistas e derrotas.
Com o passar do tempo desapareceu a má primeira impressão, e a minha curiosidade em relação à Lurdes aumentou muito, muito ajudado pelas referências cada vez mais elogiosas por parte do Filipe, às suas grandes qualidades.
Espaçadamente ia “visitá-la” ao site do Mark Zuckerberg, apenas para verificar que ela é como eu, não mostrando quase nada nas redes sociais sobre a sua vida privada. Só fez aumentar mais a minha curiosidade sobre essa “personagem”.
Sem querer levantar suspeitas sobre este meu crescente interesse, comecei a insistir junto do Filipe para “combinarmos alguma coisa”, ao que ele me respondia que sim, claro, mas agora não, depois disto e daquilo, e tal e treta. E eu nada…. Que empata, este Filipe!
Mas de uma forma estranha, sempre acreditei que esta situação se ia alterar, que as objecções e desculpas iriam terminar um dia, e que com paciência e perseverança, o destino acabaria por prevalecer.
Agora para nós dois o que vale são as segundas impressões. E confesso que estas valem ouro!
Por vezes ponho-me a pensar no que a minha vida teria sido se estivesse mais preparado, focado ou sintonizado com algumas das muitas pessoas que conheci ao longo dos anos.
Basta pensar como teria sido diferente a minha vida se tivesse mostrado quem verdadeiramente sou, na primeira vez que conheci a Lurdes…..

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O Pilha-Galinhas 4 - O Gato Vadio (final)

Sem sequer ter dado pelos dias terem passado, numa bela manhã, ouço lá fora uma voz de homem “- Ó de casa”.
Espreito pela janela e vejo um jovem parado, para lá do portão. Desconfiei logo e nem queria acreditar no que os meus olhos viam.
Apesar de ter vontade de sair disparada de casa para falar com ele, armei-me em difícil e respondi “Que quereis?”
“- Queria dar-lhe uma coisa” respondeu ele de pronto, e acrescentou, num tom mais baixo, mas ainda audível “E pedir-lhe perdão”.
Dei por mim a sorrir, mas apesar do formigueiro que estava a sentir por todo o corpo, continuei no mesmo tom. E na mesma atitude  “- O que for que me quereis dar deixe aí à entrada. E o perdão vá pedir a Deus. A igreja é ao fundo da rua.”
E corri a cortina, mas não sem antes o mirar mais uma vez. Realmente ele não era nada de deitar fora.
Arrependi-me da minha arrogância imediatamente depois de sentir que ele se estava a ir embora, e saí disparada de casa, disposta a chamá-lo de volta.
Estava a imaginá-lo de cabeça baixa e passo arrastado em direcção à igreja, quando, para minha grande surpresa, deparo com um jipe a afastar-se.
“- Os pilha-galinhas agora andam de jipe??!!” Pensei. E vejo o veículo a descer a rua, em direcção à igreja.
Ele tinha-me deixado um pequeno pacote na entrada e tive de enxotar o meu cão, pois ele andava de volta do embrulho a abanar o rabo, contente por sentir o cheiro da sua “amada”. Sinceramente cão, desiludes-me cada vez mais!
Trouxe o pacote para dentro de casa e coloquei-o em cima da mesa da sala. Não ia abri-lo naquele momento, pois ainda estava com esperança que ele passasse por minha casa de regresso da igreja.
Passados três dias sentei-me numa cadeira da sala e ao encher-me de coragem, abri o pacote. Este estava embrulhado na perfeição, com excelente papel e amarrado com um bom fio. Lá dentro encontrei uma dúzia de ovos e uma carta! Ovos? Só podia estar a gozar comigo.
Li a carta. Mas que carta! Julgava eu que já ninguém escrevia assim, nesta era de sms e emails. À mão, com caligrafia inglesa, com caneta de aparo de um azul cativante. Senti-me nas nuvens com o que estava escrito.
Para além de rasgadas desculpas, o “pilha-galinhas”, de seu nome Pedro, alegava que não tinha necessidade económica nenhuma para andar a roubar criação, e que apenas o fazia pela emoção que isso lhe proporcionava. Mas que doentia justificação, pensei.
A missiva terminava com muitos agradecimentos por não o ter morto, e que agora dá outro valor à vida e que largou de vez o vício de adrenalina.
E acrescentou o seu número de telemóvel, dizendo que gostaria muito que eu lhe ligasse.
“- Mas o tipo é completamente doido varrido?” Pensei. Mas parte de mim ficou totalmente alvoroçada. Talvez fosse pela letra, pela educação, pela forma de abordagem ou simplesmente pela sua sinceridade. Fiquei desde logo tentada a enviar-lhe uma sms, mas contive-me a tempo.
“- Se ele estiver mesmo interessado em falar comigo, virá procurar-me outra vez. Eu sou uma mulher séria e não ando atrás de homem algum.” E continuei a minha vida.
Mentira! Ele não me saía da cabeça. Eu tinha de o conhecer pessoalmente. E comecei a engendrar um plano para o efeito. Ia começar a frequentar a feira da outra aldeia para o ver.
De sacola ao tiracolo lá comecei eu a comprar hortaliças e fruta no mercado da aldeia do lado. Mas dado o meu objectivo secreto de o ver, as compras demoravam sempre muito tempo a serem feitas.
Um dia pareceu-me vê-lo de relance, mas para meu grande azar, surgiu de repente um conhecido meu a cumprimentar-me, e quando despachei o “chato”, já tinha perdido de vista o Pedro.
Ele tornou-se uma obsessão para mim. Liguei-me a todos os habitantes da aldeia dele que tivessem Facebook, Instagram ou Whatsapp, no intuito de encontrar alguém amigo dele nas redes sociais. Mas não encontrei nada. Parecia que procurava um fantasma.
Comecei a frequentar todas as actividades possíveis e imaginárias nessa aldeia, e ninguém falava dele. Pensei mesmo que ele se tinha evaporado ou tinha sido engolido pelas entranhas da terra.
As pessoas dessa aldeia ao verem-me lá quase todos os dias, já gozavam comigo e perguntavam-me quando me mudava. E eu, cada vez mais desesperada, aguentava.
Li a carta dele vezes sem conta, à procura de mais pistas que me levassem ao seu paradeiro. Estranhamente ligar para o seu telemóvel ou enviar sms continuava a não ser opção para mim. Que justificação é que teria agora para lhe ligar?
E confesso que muitas vezes romanceei o “nosso primeiro encontro”. Estranhamente considerava que o Carlos era o homem ideal para mim.
E assim se passaram semanas. De grandes esperanças e de maiores frustrações.
Num belo final de tarde, a Berta, de quem nada sabia desde há semanas, entrou em casa minha casa muito contente. Contente demais para o meu gosto, pois sabia que quando ela andava nestes propósitos, coisa boa não era.
“- Mana, estou muito apaixonada!” Disse-me num repente, abraçando-me com força e emoção.
Ao ouvir essa frase, tentei com todas as minhas forças mostrar-lhe uma cara alegre, mas a minha inveja pela felicidade devia ser por demais evidente. 
E sentei-me, de braços cruzados. A Berta, a transbordar de felicidade e totalmente alheia aos meus sentimentos, começou a descrever o modo como se conheceram.
“- Semanas atrás, estava eu na igreja, quando entrou um homem…..”
E ao ouvir essa frase, desfaleci…..
Fiquei assim a saber que na vida temos de seguir os impulsos no momento certo, pois um único instante de hesitação pode ser demasiado tarde. Tarde demais até para arrependimentos.
 FIM

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O Pilha-Galinhas 3 - O Gato Pilha-Galinhas

Depois daqueles episódios ficámos conhecidas no nosso pedregoso vilarejo como “as manas cornudas!”
Garanto que não é nada agradável ser uma dessas irmãs, mas sei que podia ser algo ainda pior. Existem sempre situações piores, mesmo que estejamos no fundo do poço.
Sabia perfeitamente que o falatório e a risota não iriam diminuir nas semanas mais próximas, isso era mais que sabido, e restava-nos agora aguentar ou desistir. E tanto eu como a Berta decidimos resistir, pelo menos por mais um tempo.
Confesso que ainda me custa compreender como isto nos aconteceu, mas o facto é que nos aconteceu, e logo às duas. Maldição? Talvez, mas prefiro nem pensar nisso.
Caramba, por merecimento não foi decerto, pois tanto eu como a Berta nos empenhámos nos respectivos relacionamentos. Na verdade, tenho uma suspeita que só nos aconteceu por isso mesmo: porque nos empenhámos demais.
Sem generalizar, verifiquei ao longo dos anos que as mulheres menos ansiosas e que mostram inclusive um certo desinteresse em relação aos maridos, são aquelas que têm uma união mais estável, e mantêm os respectivos cônjuges na linha!
Claro que esta postura tem de estar dentro de certos limites, não sendo negligenciados, por exemplo, os deveres do casamento, caso contrário esse desinteresse levará à rotura, mais cedo ou mais tarde.
Contrariamente, aquelas que estão demasiado atentas à satisfação das mais pequenas necessidades dos cônjuges, são as que, a prazo, ficarão como eu e a minha irmã.
Será que os homens são como os gatos, que não se interessam por um rato cativo, preferindo ir atrás de um rato que lhes foge, nem que seja pelo prazer da caça.
Semanas após os acontecimentos relatados, o falatório na mercearia da Vicência mudou de tema, para minha grande satisfação. Estavam a desaparecer galinhas nos galinheiros da nossa aldeia.
Todos apontavam teorias, que incluíam raposas, lobos, espíritos maus e até espanhóis, porque diziam que o preço dos ovos em Espanha estava bastante alto, daí a ladroagem.
Outros diziam ainda que os culpados eram os habitantes da aldeia vizinha. Típico. Para nós, os da aldeia vizinha são sempre os culpados por tudo o que de mal acontece no nosso burgo. E eles, pelo seu lado, dizem o mesmo de nós. E andamos assim desde o século XIII, mais coisa menos coisa. E vai continuar.
Não liguei a nada do que andavam a dizer principalmente porque as minhas galinhas estavam no seu devido lugar, e acreditei mesmo que ficasse imune à crise dos roubos das galinhas.
Assim, um dia, e tal como veio, desapareceu o falatório acerca desse assunto. Depreendi que deixaram de faltar galinhas nos galinheiros. E esqueci o assunto, ainda por cima porque entretanto arranjei um feroz e valente cão.
A Berta andava atarefada a deitar coisas fora e a arejar a casa. Livrar-se dos cheiros, das recordações e hábitos é uma excelente purga. Lembro-me de ter feito o mesmo e de como me senti bem. Dizem que quando aparece essa vontade, a libertação está próxima.
Mas numa qualquer noite escura ouço uma agitação nas traseiras da minha casa, e sobressalto-me. O cão ladrou mas apenas uma ou duas vezes, tendo sossegado logo a seguir. Desconfiada por natureza, fico à “coca”.
De repente, vejo um vulto a correr pelo meu quintal. Procuro com a vista o meu cão, já a prever um violento ataque. Mas para minha grande surpresa, vejo-o a namorar, todo contente e feliz, uma robusta cadela. “- Até tu, cão, te deixaste engrupir pelo mais velho truque do mundo?” Estava pasmada.
Abro a porta das traseiras com uma sapatada e aponto a carabina. E eis que a “dócil” cadela mostrou que estava bem treinada para uma situação dessas, e imediatamente larga o “namoro” com o tanso do meu cão e tenta abocanhar o meu braço, impedindo-me de mirar.
O meu cão ficou surpreendido com a ferocidade da “bicha” - será que o parvo julgava que a cadela estava porventura perdida de amores por ele? – E começou a correr em direcção ao “pilha-galinhas”.
Foi a maior confusão! Dei um safanão à cadela e elevei a arma, mirei e disparei. Ouvi um grito seco e surdo, e o “pilha-galinhas” aterrou!
Silêncio absoluto. “- Matei o cabrão e agora estou feita”, pensei. “- E por uma merda de umas galinhas”. Tinha-me armado em forte e corajosa, mas depois de ver o triste resultado, arrependi-me imediatamente.
Perdida nesses pensamentos, e apesar dos ganidos dos cães, consegui ouvir uns ténues gemidos, vindos do local onde, pensava eu, “jazia” morto o ladrão.
Aproximo-me, já não de arma engatilhada na mão, mas quase a suplicar que ele não estivesse muito ferido. Parecia estar, pois o sangue era mais que muito,e  eu tinha de fazer alguma coisa!
Assim, o sossego do nosso vilarejo foi quebrado com as sirenes da ambulância do INEM. E toda a gente ficou a saber da história. E claro está que até a GNR apareceu. Mas em vez de enviarem soldados daqueles para “lavar a vista”, enviaram dois sem graça nenhuma.
O “pilha-galinhas” era um homem novo, mas confesso que nem lhe vi bem a cara. Como pelo menos os gemidos soavam em português, lá se foi por água abaixo a teoria dos assaltantes espanhóis. Era apenas um espertalhão que andava a utilizar uma cadela para distrair os cães.
Garanto-vos que nunca mais olhei para o meu cão com os mesmos olhos. No fundo é tão parvo como boa parte dos homens. Basta verem um “rabo de saias” e saem logo disparados a abanar o rabo. Melhor amigo do homem o caraças. Pelo menos da mulher não é de certeza!
Na manhã seguinte enchi-me de coragem e resolvi fazer duas coisas: ir ao posto da GNR e depois visitar o “pilha-galinhas” ao hospital.
No posto da GNR declarei que não iria apresentar queixa do assaltante, mas o meu propósito real era saber se iria ter problemas por ter atingido o ladrão com uma arma de fogo. Após a explicação saí de lá ainda menos descansada!
No hospital vi que o meu “amigo do alheio” estava num quarto com um GNR a guarda-lhe a porta. Quando lhe expliquei ao que vinha, o soldado julgou que eu queria era vingar-me e não me deixou entrar, de jeito nenhum.
Eu já tinha visto uma cena parecida num qualquer filme romântico lamechas, do qual nem me lembro nem do seu nome nem dos protagonistas, e nesse filme deixaram a rapariga entrar. E foi muito romântico. Mas este GNR não tinha visto esse filme. Só deve ter visto filmes do “Rambo” ou parecidos.
Dado que não podia falar com ele, tentei saber mais acerca desse tal “pilha-galinhas” e assim, determinada, dirigi-me à secretaria do hospital, disposta a contar uma historieta qualquer a quem me surgisse pela frente.
Apesar de ter sido atendida pela irmã de uma amiga minha, esta só me disse que o "malandro" morava na aldeia vizinha. Compreendi a posição dela. Afinal, eu tinha disparado contra ele. 
Confesso que fiquei ainda mais curiosa em conhecê-lo. Não sabia é que havia de realizar esse desejo tão cedo.....

(continua)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Pilha-Galinhas 2 - O Gato que ficou sem rabo

Não soube nada da minha irmã durante diversos dias, apesar de morarmos na mesma rua. Descansada eu não estava, mas sabia que se ela precisasse de mim viria procurar-me.
Fiquei a saber que o tema da conversa ainda era a Berta e o Carlos quando cheguei à mercearia da Vicência, pois todos se calaram quando eu entrei. E os estúpidos que tão mal fingiram que não estavam a dar à língua sobre este assunto.
Mísero vilarejo onde um mexerico fica na ponta da língua durante semanas. Claro que este tema só passaria quando surgisse outro com igual ou superior importância. Mas como poderia isso acontecer, se não se passa nada ali?
Passados uns momentos, e para minha surpresa, surge a Berta, com uns enormes óculos escuros, e percebi logo que não estava à espera de me ver, e muito menos de falar comigo, pois cumprimentou-me com um bocadito mais de frieza do que eu esperava ou que estava habituada. Mas compreendi.
Demorámos o mínimo possível na mercearia, e reparei que nesse entretanto ninguém saiu de lá, e inclusive todos ficaram a fingir que liam os rótulos dos produtos. Até mesmo os pitosgas! Raio que os partam a todos.
Eu saí para reentrar passados uns dois ou três minutos, de propósito, para os surpreender na coscuvilhice. E apanhei-os a todos a bichanar, esses cretinos da pior espécie. E chamei-lhes de tudo, ficando eles todos de bico e calados, sem se atreverem sequer a levantar o pescoço.
Quando saí de vez, vi a Berta a sorrir. Ela conhecia-me e gostava da minha maneira de ser, pois mesmo quando as coisas corriam mal, eu fazia-lhe surpresas só para lhe agradar.
“- Pus o pulha a andar, sabias? Dei-lhe um dinheirito e uma mala de roupa. E que nunca mais me aparecesse à frente.” Disse-me ela num tom baixo e lento, como se estivesse sob efeitos de calmantes. Fiquei preocupada.
“- Ah ele já foi? E a Filomena?” Foste falar com ela?” Perguntei-lhe.
“- Aquela p….? Não. Nem vou. Ela só se aproveitou da nossa fraqueza. É que ela nunca gostou de mim.”
A minha conversa com a Berta terminou ali, pois ela virou para casa sem me convidar para entrar. Fiquei parada durantes uns instantes para ver se ela ainda me dizia mais alguma coisa, mas depois segui o meu caminho.
Cada vez mais esta história se estava a parecer com a minha, e fiquei ainda mais incomodada, pois o déjà vu era por demais evidente.
Eu era muito mais ingénua do que a minha irmã, quando tudo isso me aconteceu.
Eu e o Gonçalo namorámos bastante tempo e ele por vezes  parecia estar hesitante em estabelecer um compromisso mais sério comigo. Só se decidiu quando o ameacei deixá-lo se não ficássemos noivos, pois com a minha vida não brincava ele.
Eu tinha-o colocado entre a “espada e a parede” por saber perfeitamente que o Gonçalo tinha como lema “levo as coisas sempre até ao fim” e por isso casámos logo a seguir.
A cerimónia de casamento foi feita com pompa e circunstância, de acordo com a tradição familiar e local, que assim o exigia a jovens de famílias de algumas posses. Foi um dia feliz para mim. Não sabia eu que tinha sido esse o último dia feliz com o Gonçalo.
Estúpida. Tinha sido melhor se tivesse ficado quieta. Mas na altura nem desconfiava o que seria para mim a “maravilhosa” vida de casada. Ainda acreditava nos contos de fada, e quando me alertaram para os perigos, ignorei.
Uma pessoa quando se casa fá-lo para se libertar do jugo dos pais e ao mesmo tempo para ir viver com a pessoa que ama. Estava casada e, julgava eu, bem casada. O meu marido era desejado e eu invejada nas redondezas.
Assim, ao casar, julgava que a minha vida fosse mudar, e para melhor. Enganei-me e redondamente. Coitada de mim. Era tão tapadinha na altura. Mas no entanto julgava-me mais esperta que os outros, e teimosa, só via o que queria ver.
Mas eu não sabia é que para o Gonçalo, casar era arranjar uma mulher que substituísse a sua querida mãezinha a tratar dele. Literalmente! E mais. Era ter muito mais liberdade do que ela lhe dava.
Sim, a minha querida sogrinha conhecia a peça que tinha parido, e daí lhe ter dado sempre uma rédea curta enquanto ele esteve debaixo do seu tecto. E sim, ela era muito mais esperta e muito menos ingénua que eu.
Queridas, desconfiem sempre de um tipo que vive e sempre viveu em casa da mãe! O mais certo é que apenas vos queira para fazer o mesmo que o Gonçalo me fez a mim: criada para todo o serviço. E sem remuneração.
Passada uma semana já me estava a começar a arrepender, mas continuei firme e hirta, pois não queria dar o braço a torcer.
A partir daí foi a descida aos infernos, cheio de monólogos, de perguntas sem resposta, de mais ausências que presenças, de mais choro que riso…..
“- Gonçalo, a que horas chegaste ontem à noite?”
“- Amor, porque não ficas hoje em casa?”
“- Gonçalo, não saias hoje porque a minha operação é já amanhã.”
“- Amor, por favor, hoje fica comigo.”
“- Gonçalo, sabias que ontem foram os meus anos e nem sequer apareceste.”
Até que um dia a dura verdade bateu-me à porta. Aquela que eu já sabia ou pelo menos desconfiava fortemente. Mas que continuava em plena negação.
Um tio dele, farto de esperar e de desesperar para que o sobrinho tomasse uma posição de Homem, veio a minha casa contar-me tudo. Que o Gonçalo tinha outra família, e que a tinha ainda antes de casar comigo.
E não é que a família do Gonçalo afastou-se completamente do tio, pois consideraram que ele tinha cometido uma traição. Em que ninho de víboras estava eu metida, afinal?
Claro que o Gonçalo negou, renegou, zangou-se e até insinuou que o tio estava interessado em mim. Que todos os que andavam a espalhar boatos eram uns mentirosos e que apenas tinham inveja da nossa felicidade.
Mas o rabo do Gonçalo estava bem preso, e um dia ficou sem ele quando o meu pai apareceu lá em casa, e mais que farto das suas balelas, expulsou-o. Só aí o Gonçalo compreendeu. Vi-o nos olhos abertos de espanto.
E eu dei-lhe um dinheirito e uma mala de roupa. E disse-lhe que nunca mais me aparecesse à frente.
(continua)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Pilha-Galinhas 1 - O Gato escondido com o rabo de fora

De súbito, ouço um tal grito de horror que julguei que ia pôr em alvoroço todas as gentes deste pequeno e pedregoso vilarejo, perdido nas ásperas serranias beirãs.


Olho pela janela e verifico que afinal ninguém se tinha incomodado. À parte da minha curiosidade, nem eu própria me incomodei, para além do mais, sabia que daí a pouco alguém me iria contar a sua razão, e tudo ficaria por aí.
Interrompo os meus pensamentos com o barulho da porta dos fundos a bater. Sei logo que é alguém de casa. É que ninguém me entra pelos fundos que não seja dos meus!
“- Mana, estou de cabeça perdida. Então não é que me vieram dizer que a Filomena anda a dormir com o meu homem. Logo com aquela p… de m…da que se dizia minha amiga. Com o meu homem, mana!”
 “- Mas tu não sabias?” Atirei-lhe eu. E fiz-lhe a pergunta ao mesmo tempo que colocava a minha melhor cara de dúvida que consegui.
Perante a sua negação verbal, acompanhada dos dedinhos cruzados e beijados da minha irmã, levantei os ombros e virei-lhe costas, exasperada.
“- Como é que a Berta não sabia? Realmente nunca me falou no assunto. É que toda gente sabe. Fogo, o corno é mesmo sempre o último a saber. Ou então estará ela em negação….” Pensei rapidamente.
Eu desconfiei logo quando os vi todos contentes e animados, durante as festas.
É que com o meu homem foi também assim….
Rapidamente deixo de pensar nesse meu penoso assunto quando vejo pelo canto do olho a minha irmã a sair pela porta da frente, o que significava que não se iria esconder.
Ela queria “festa!” E se ía ter com a Filomena, a minha mana ía tê-la. E saio logo atrás. Vejos outros a juntarem-se à “procissão”. E logo depois o “andor” pára em frente à casa da Filomena.
“- Ó minha p… de m…da, sai-me aí de casa que eu quero-te ir à tromba!”
A minha irmã quis levantar tanto a voz que esta soou demasiado aguda. E muitos riram à socapa da vozinha dela.
Realmente chamar “p… de m…da” com voz de menina da primária não intimida nada. Desatei a rir por dentro. Mas a minha cara continuou séria. Como convém.
Não se ouvia nada. Nem sequer um “ai”. Nem na rua nem na casa visada. Até os cães deixaram de ladrar, expectantes.
E não é que a gaja saiu mesmo?! De mãos nos bolsos do avental, cigarro apagado no canto da boca e chinela solta atrás, aproximou-se da minha irmã, a medi-la.
Ao vê-la nesses propósitos, a “cornuda” da minha irmã começou a rodeá-la, e colocando também as suas mãos nos bolsos do avental, mediu-a de cima a baixo. Como convém.
“- E que comece o combate!” Disse entre dentes.
Batida de ver cenas destas, já sabia de cor os passos que iriam anteceder os puxões de cabelos, e por isso fui para a porta dos fundos da casa da Filomena. Queria ver uma coisa no quintal dela.
“- Ó mana, larga lá essa gaja que temos aqui um porco para esfolar!“ Gritei-lhe eu, ao qual a minha irmã responde “- Eu já estou a ir!”
Eu tinha dado com o Carlos, o futuro ex-mais que tudo da minha irmã, por sinal muito mal escondido no pequeno milharal existente no quintal, por detrás da casa da Filomena.
Senti-o carregadinho de medo, pois ele sabia bem que estas duas manas eram lixadas como o caraças. E duras como os cornos. Quase que senti pena dele. Quase.
Ao ver-se acossado, saíu de detrás das espigas o meu “querido” cunhado, com uma cara de sonso de que não estava a fazer ali nada de mal. Mas eu cheirava o seu  pânico.
“- Olá Rosa. Tu por aqui?” Disse o otário, ao mesmo tempo que os seus olhos de osga vesga procuravam um sítio para escapulir. E eu a topá-lo….
“- E tu, mongo, que andas por aqui a cheirar? Vieste tratar da canalização, foi?” Respondo-lhe eu de braços cruzados, ao mesmo tempo que num passo curto e rápido, lhe corto o caminho de fuga.
A minha irmã chega entretanto à horta, e vi pela sua cara que estava mais do que pronta para lhe cortar ali mesmo as partes pudendas.
Ao vê-la avançar daquela forma o Carlos recua, pondo uma mão à frente da cara e a outra junto às partes, suplicando para ela não lhe dar uma surra ali mesmo, na horta da sua amante.
Entretanto a Filomena chega, e por momentos julguei que ela ía se colocar entre a minha mana e o Carlos, protegendo da surra o seu homem, e assumindo deste modo a relação. Mas não. Ela tinha-o deixado sozinho, entregue à sua sorte.
Eu senti ali mesmo o Carlos a quebrar. Ele baixou a cabeça, derrotado, sentindo que tinha perdido as duas. Soube então que tinha sido usado. O espertalhão tinha sido enganado.
“- Ide-vos. Se vos quereis bater que o façam lá fora!” Ordenou a dona da casa. Era o que nós queríamos ouvir. Se não ía haver pancadaria ali, iríamos para outro sítio.
Empurro o Carlos para ele ir à minha frente e vamo-nos embora, passando pelas gentes que cada vez em maior número se aglomeram em frente à casa da Filomena.
Claro que as piadas não demoraram: “Elas vão capá-lo ali em baixo no terreiro!” e “Pelo cheiro o Carlos borrou-se todo!” E riam-se muito. E eu também me ria. Mas por dentro. Só por dentro. Como convém.
Pelo percurso tomado soube que a minha irmã decidiu que ía para casa com o Carlos. Fazia bem. Se queria fazer ou dizer alguma coisa, que o fizesse dentro de portas.
A minha irmã é mais impulsiva que eu, mas quando se acalma, faz tudo muito bem pensado. E sem arrependimentos.
Numa situação destas eu agiria sem pensar, por impulso. E depois ficaria meses a remoer os remorsos e o arrependimento.
Deixei-os à porta de casa. O Carlos fez o trajecto todo de cabeça baixa, e sem largar um único lamurio. Parecia a marcha de um condenado à morte.
Quem visse a minha irmã diria que estava ufana, pois parecia que estava a trazer um troféu de caça para casa, mas eu sabia bem que era só fachada, apenas uma defesa dela.
A Berta estava era a sofrer muito com toda esta situação, e eu sofria com ela e por ela. E o pior é que tudo isto estava a reavivar-me o que eu sempre desejei esquecer de vez.

E uma falsa e estranha calmaria irrompeu neste pequeno e pedregoso vilarejo, perdido nas ásperas serranias beirãs, quando a minha irmã por fim cerrou a porta de casa.
(continua)