segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O 150º POST

Hoje pretendo partilhar convosco algo diferente. Não vou escrever sobre um tema ou sobre uma personagem. Antes quero partilhar convosco um marco importante para mim: a publicação do 150ª Post no xabiverde.blogspot.pt!
Para mim, escrever é fácil e agradável, pois é um exercício de libertação. Deixo apenas fluir livremente a palavra e a ideia, e é a própria alma que se solta das angústias, desesperanças, medos, ódios, paixões e sonhos.
Questionam-me se sinto tudo o que escrevo, e a resposta é: por vezes. Dias há em que todo o meu ser está na palavra, e esta precisa de sair, sob risco de intoxicar tudo o resto.
Outras vezes há em que temo encarnar demasiado outros, tal o sentido de dever que tenho de contar as suas histórias, recheadas de fortes sentimentos e de personalidade. Ainda me lembro a alegria que senti ao contar as histórias do Zé do Tuk-Tuk ou do Mongas, o Submisso.
Assim, e depois de ter escrito 149 posts desde 2014, tendo resultado em mais de 53.000 visualizações lidas lá pelos 4 cantinhos do mundo (confesso que relativamente a esse ponto fiquei bastante surpreendido), e de ter (re)começado a desenhar rabiscos para acompanhar os textos, cheguei a uma encruzilhada criativa.
Obviamente poderia continuar na mesma linha, mas achei seria mais do mesmo, uma não inovação e de redescoberta. Achei que com estas marcas, uma mudança impunha-se.
Comecei com textos de meia dúzia de linhas, abordando com ligeireza temas e pensamentos. Aos poucos introduzi-lhe personagens. Estes textos ficaram um pouco mais extensos, alguns até com pequenos capítulos. E assim continuei, ganhando experiência, esperando por este momento.
E agora, com o 150º post, pretendo marcar uma viragem, e escrever um ContoE conto, claro, com todos vocês.

Assim, até breve. E boas leituras.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Eu, Platão e o Amor

Segundo Platão, o Amor é uma grave doença mental. Esse brilhante filósofo ateniense é autor de mais frases sobre o tema, mas nenhuma foi tão caustica.
Mas afinal porque é que uma das maiores mentes de sempre, tão brilhante, racional e avançada, pode considerar o Amor uma grave doença mental? Que forte razão teria ele para proferir uma tão afirmação destas?
Mais estranho ainda é constatar que, mesmo depois de tão brilhante pensador ter proferido a “Morte” ao Amor Romântico, todos continuaram a querer ficar com tal doença mental.
Mas será que ensandeceram de vez? Será que gostam de ser masoquistas? Não gostam de si próprios? O Amor valerá assim tanto para que se arrisquem a ficar tontinhos de todo, e para sempre?
Acho que Platão tinha toda a razão! De que serve o Amor, afinal? Come-se? Bebe-se? Livra-nos do frio? Defende-nos das doenças? É fundamental para a nossa reprodução como espécie? Não, pois não?
O Amor (aparentemente) não tem lógica nenhuma e por isso não serve para mais nada a não ser ficar definitivamente maluco, especialmente quando as relações amorosas correm mal. E aí tudo se tende a agravar ainda mais!
Só podem sofrer de uma grave doença mental aqueles que saem de uma relação frustrada para entrarem de cabeça numa outra, a maioria das vezes ainda pior.
Sejamos realistas. O Amor só serve para que comerciantes pouco escrupulosos possam ganhar uns cobres valentes no dia dos Namorados! E para mais nada. É apenas um mito e uma falácia!
Eu cá vou seguir o conselho de Platão e deixar o Amor de lado. E já e definitivamente. Para o meu próprio bem e de todos vocês que comigo privam.
Adeus Amor. Até nunca mais!

Nota da Editora: Este blogue irá ser interrompido por uns tempos devido ao espancamento sofrido pelo autor, alegadamente pela sua namorada, após ele lhe ter lido o conteúdo deste texto.
O autor ainda terá dito (antes de levar com uma panela na cabeça) “Amor, mas afinal tu estás com uma grave doença mental!, caindo depois inanimado no chão, com um estúpido sorriso na face).

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Na Corda Bamba

O significado de corda bamba é, entre outros, “situação instável” ou “difícil de controlar”. E é mesmo assim que me sinto!
Não sou nem nunca fui artista de circo. Nunca me vi a equilibrar-me num fio ou arame, e muito menos com aquela vara comprida nas mãos, como os equilibristas a sério.
Mas sinto-me numa corda bamba e sem nenhuma rede por baixo. Portanto, numa situação instável e difícil de controlar.
Mas passemos aos factos, pois só assim vocês me compreenderão. Ou não….
Tenho orgulho em afirmar que amo a minha cara-metade de uma maneira profunda. À séria mesmo, como dizem.
Mas, se gosto tanto dela, porque se sinto numa corda bamba? Falta de confiança na relação não é. Falta de sentimento também não. E ausência de objectivos comuns ainda menos.
Quando não havia amor na minha vida, sentia que tudo estava correcto e nos seus devidos lugares. Não havia lugar a dúvidas e as certezas eram a nota dominante. Orgulhava-me de ter os pés bem assentes no chão!
Mas quando surgiu o amor, e em quantidade suficiente para encher um camião TIR ou mesmo o MEO Arena, as certezas desvaneceram-se, como por milagre.
Paradoxalmente, é quando brota do meu coração amor suficiente até para enfrentar um touro bravo em pleno no Campo Pequeno, é quando sinto estar numa corda bamba.
Quanto mais amo, mais frágil o sinto!
O Amor é um sentimento precioso e mimoso, e mesmo crescendo, aos meus olhos está cada vez mais carente e frágil, a precisar de atenção constante.
E apesar de desejar ter uma relação cada vez mais forte e sólida, quero ainda mais ter um amor frágil. Para o proteger e acarinhar cada vez mais.
Assim, ao olharem para cima podem-me ver, na corda bamba, sem vara nem rede.
Mas Feliz!

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Uma Carta

Amor, escrevo-te esta Carta por diversas e diferentes razões. Sei bem que não é a mesma coisa estar a transmitir as mesmas palavras, olhando para os teus olhos, mas, dadas as circunstâncias, não me resta outra opção.
O nosso início de relação foi, para ambos, como um lento despertar, uma imensa espreguiçadela de duas pessoas que, estando muito bem sozinhas, começaram a aperceber-se que essa não era a única via, a derradeira solução.
E quando essas duas pessoas, autónomas e desembaraçadas, felizes das suas vidas, se encontraram numa esquina da vida e descobriram, com espanto, que estão melhor uma com a outra, só têm duas hipóteses, ou ficam juntas ou ficam juntas!
E o Amor é lindo quando surge, e mais ainda quando desabrocha. Parece que não há limites para o seu crescimento, qual Big Bang que, de uma centelha explosiva tornou o Universo infinito. E era mesmo essa a sensação. O nosso Amor era infinito.
Mas pessoas houve, daquelas que gravitavam à tua volta como cometas errantes, que não desistiram tão facilmente de ti. E mesmo sabendo que te consideravas minha, não descansei jamais.
Tu eras o Sol e eu a Lua, e juntos reinávamos sob a luz e as trevas. E não havia hora do dia que um de nós não estivesse no firmamento. Mas isso para mim já não era suficiente.
As trevas adensaram-se na minha Alma, vindas das profundezas do meu passado, e os vírus do ciúme e da desconfiança alastraram, e chegou a altura que até as tuas juras de Amor já só sabiam a fel, e não a mel.
Mesmo sabendo que me eras fiel desconfiei. E nesse momento vimos claramente que as Sombras se adensavam e tornaram-se maiores que a Luz, tapando o céu azul que sempre nos cobriu, e soubemos, com tristeza que algo tinha de ser feito.
Sempre me disseste, que Amar é Confiar, mas mesmo assim, sei que Amei e continuo a Amar, mas não confiei. Como a fábula do escorpião e do sapo, mesmo sabendo que ambos morreríamos, feri-te de morte.
Mas agora sei que não era de ti, mas sim das Trevas, da própria Sombra, do Passado que desconfiava. E sei também como sou e não mudo, nem mudarei. Mas mesmo assim sei que te Amei. E Amo.
(Até) Sempre

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Relações no Século XXI (2 de 2)

Assim, e sem ler nem escrever, ali estava eu a falar com a Sandra. Ou melhor, falava ela e eu só dizia que sim com a cabeça, pois o som estava tão alto que só lhe via os lábios a mexer. E que lábios, senhoras e senhoras. Encheram logo ali o meu imaginário de sensualidade. Eu já estava de quatro por ela.
Não imaginava nada do que ela falava, pois eu só via aqueles lábios a mexerem e aqueles lábios mexiam comigo. E comecei logo a vê-la com outros olhos, a imaginá-la na minha vida, e a assumir cada vez maior importância.
Eu continuava a dizer que sim com a cabeça, como se fosse um boneco de mola, pois já estava noutra dimensão, apaixonado, mesmo sem lhe ter ouvido a voz. E se a minha cabeça dizia que sim, a minha alma, também.
Sim, eu sei. Agora sei. Sou “parvo até à quinta casa” e mais além, se fosse possível. Mas se isso era pouco, devo acrescentar ainda mais pormenores a esta história, que agora me parece surreal.
Claro que na única ocasião na noite que tive, pedi-lhe o número de telemóvel. Mas ela fez melhor pois apenas pediu o meu (não deu o número dela, mas isso nem sequer notei). E. levitando, pedi-lhe o cartão do bar e paguei-lhe a despesa. Isto estava a evoluir bem, na perspectiva dos dois.
Claro que a Sandra não me ligou nos dias seguintes, mas eu não perdi a esperança. Assim, o meu elo de contacto para com a Susana passou a ser a sua amiga, Graça, e passei a ser ainda mais amigo do meu amigo P., pois sem ele passaria a estar perdido no mundo, pois nunca mais encontraria a Sandra.
E como fiquei animado quando soube que o P e a Graça se iam encontrar, no mesmo bar, e que ela ia levar a Sandra e o P me ia levar. Parecia que eles iam levar os cachorros a passear, mas eu não me importei. Não me importei mesmo nada.
Nessa altura, como bom cachorrinho, já tinha “fuçado” o Face do P à procura da Graça e o da Graça à procura da Sandra. Bem podia procurar, pois, soube depois, a Sandra tinha posto o seu segundo nome e com uma fotografia de quando era criança. Não achei estranho.
Claro que não se acha estranho a nada quando se é tão burro como eu. Essa noite foi fantástica, pois declarei o meu amor incondicional à Sandra, ao que ela me disse ao ouvido “Olha, não percebi nada do que disseste. Vou à casa de banho. Toma conta da minha bebida”.
Os nossos progressos como casal foram fantásticos. Após mais umas saídas a quatro, e enquanto o P e a Graça falavam no futuro, eu consegui que a Sandra me ligasse para o telemóvel para poder ficar com o número dela. E nem queria acreditar na minha sorte!
A partir daí, fomos os dois jantar fora inúmeras vezes. Ela recusava-se a ir a minha casa, e eu também nunca fui a casa dela. E nem sequer podia saber onde era. Achava eu que tinhamos começado a namorar, mas era um bocado estranho, pois perante os meus olhos e de quem nos visse, não havia nenhum indício disso.
Desde o início que me senti um bocadinho posto de parte, especialmente no mundo virtual, pois ela postava apenas fotos das suas saídas (sem mim, claro) no Facebook e no Instagram, especialmente com os seus amigos manhosos. De mim não havia o mínimo vestígio.
Quando falava com a Sandra acerca de nós, invariavelmente ela dizia que “Depois se vê, e agora deixa-me sossegada”, e voltava às mensagens e a rir-se sozinha. Mas eu estava cada vez mais caidinho por ela.
De repente, tudo mudou, pois a Sandra começou a ver-me com outros olhos porque os seus olhos viram-me com outra mulher. Era apenas a minha vizinha de baixo, que por acaso nos cruzámo na Av. de Roma, mas que para a Sandra passou a ser uma ameaça grave aos seus planos. Eu nem imaginava que ela tinha alguns....
A partir desse momento as coisas entre nós partiram para outro nível, e começámos a namorar mesmo a sério. Eu fiquei ainda mais entusiasmado, mesmo sem saber a razão de tamanha reviravolta. Só soube muito tempo depois, como é habitual na minha vida.
Se eu e a Sandra não tivemos nenhum futuro sério foi porque ela não quis. Ela dizia sempre que sabia que eu gostava muito dela, mas que ela não era mulher para casar e ter filhos, que gostava era de boa vida, de ter a sua liberdade, de sair sem dar satisfações a ninguém. Vocês sabem.
Devem estar a pensar “Coitado, tanto investimento passional para nada”. No fundo compreendi o que ela queria, e como gostava dela, fiz-lhe a vontade. Fiz-lhe mesmo todas as vontades. Até ao mínimo e ínfimo pormenor.
Bem, e rematando a história para não vos maçar mais, acabei por casar com a Graça e temos dois filhos, o Luís e a Filomena. E mais feliz não posso estar, pois tenho tudo o que sempre quis ter. Amor e estabilidade emocional.
Eu e o P continuamos a ser muito amigos, sendo ele visita muito assidua de minha casa, e inclusive é o padrinho do Luís. Nós escolhemo-lo por eles os dois serem muito parecidos fisicamente. Mesmo muito, e até me chegar a meter-me impressão. Estranhamente, a Graça não os acha nada parecidos.
E eu? Eu continuo a andar com a Sandra. E com a vizinha de baixo também, pelo menos até a Graça me desmascarar a sério e "pôr-me os patins", tal como fizeram todas as anteriores.
Ao contar-vos esta história fiquei seriamente desconfiado que é por eu ser assim que as mulheres da minha vida me deixaram sempre pendurado….

Estas mulheres são mesmo umas desgraçadas sem coração!!!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Relações no Século XXI (1 de 2)

Se eu estivesse numa reunião estilo AA, levantava-me e diria “Boa noite, sou o Fernando e sou perito em relações falhadas”. E o grupo responderia “Boa noite Fernando”. E eu começaria a relatar a minha vida amorosa. E no fim, todos nós choraríamos.
Sim, sou um perito em relações falhadas. Posso mesmo dizer, sem qualquer ponta de orgulho, que sou um verdadeiro especialista mundial, com um curriculum recheado de experiências traumáticas.
Considero mesmo que já nasci com esse raro e precioso dom de escolher as piores mulheres para amar. Evidentemente que não as escolho por saber que são más ou vis. Muito antes pelo contrário, a meu ver são todas umas Santas!
A minha triste sina começou logo no jardim-de-infância, quando vi uma coleguita a sorrir para mim e instantaneamente ofereci-lhe o coração. Durante o tempo em que fomos inseparáveis sucedeu uma situação muito estranha.
As minhas chuchas, as minhas queridas Nuc, estavam a desaparecer a um ritmo alucinante, e eu não sabia como nem porquê. E os meus pais ameaçaram-me cortar o fornecimento desse produto de primeira necessidade.
Foi a partir desse dia que a Ansiedade me começou a dominar, e nunca mais me quis largar desde então. É a minha companheira inseparável, mais para o mal que para o bem, e que por vezes chama a sua irmã Desespero para, juntas, me azucrinarem a porca da vida!
Desabafava os desaparecimentos das chuchas à minha querida amiga Nuxa, que me ia dizendo que de certeza era o tal, ou a tal, ou mesmo a menina Rosa, a responsável da nossa sala, que mas andava a roubar. E eu sempre a acreditar nela.
Este estúpido que vos fala nunca desconfiou que era a minha querida Nuxa que as roubava, com total impunidade e descaramento, levando-as para o mercado negro existente nesse mesmo jardim-de-infância, que se chamava, ironicamente de “Chuchas e Companhia”!
Só muitos anos mais tarde é que a Nuxa me contou esse episódio, ainda por cima a rir. E aproveitou e acabou com a nossa relação porque a confrontei com umas supostas traições dela, relatadas pelo meu grande amigo Zé.
Claro que esse Zé apenas me confidenciou a traição da Nuxa com um tipo qualquer, porque ela o tinha trocado por outro, no fundo traindo a nós dois. Mesmo assim continuei a admirá-la por ela ser uma mulher muito dada. Mesmo muito dada.
Entre a Nuxa infantil e a Nuxa mulher sabida aconteceu-me um sem-fim de casos, paixões e paixonetas, de flirts e namoraditas, fossem grandes ou pequenas, branquinhas ou escurinhas, louras, morenas ou ruivas. Houve de tudo e se mais houvesse. Todas diferentes. Mas todas iguais.
A todas e a cada uma tratava como se fosse uma princesa, uma rainha, uma deusa que me punha a adorar. A todas coloquei no pedestal e a todas chamava “Amor”. E sentia-me feliz com todas e com cada uma.
E com todas e com cada uma sentia-me o homem mais feliz do mundo, atrevo-me a dizer. Dizia sempre para comigo “Esta é que é. Ainda bem que me livrei daquela outra”. Claro que não me tinha livrado de ninguém, pois tinha sido, mais uma vez, escorraçado!
Na verdade, todas elas me tinham dado com os pés, e a maioria com requintes de malvadez. Mas algumas tinham-me respeitado, pelo menos minimamente, talvez mais com pena do triste que sou, pois nem valia a pena fazer mais, não com medo de qualquer minha reacção brusca ou bruta.
Mas não vos quero maçar com as minhas muitas histórias, pois decerto que ultrapassaria as “Mil e uma noites”. Assim, só quero mesmo contar-vos a minha história com a Sandra.
Conheci a Sandra num bar na Av. 24 de Julho, em Lisboa. Bem, conhecer é força de expressão, pois eu limitei-me a estar lá, acompanhado por um amigo de longa data, o P, que com genes de engatatão, “sacou” a amiga da Sandra num ápice. E a esta veio de "brinde"....
(continua)

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Halloween 2017



Acordo num negrume tal que nem sabia ao certo se continuava desacordado ou se tinha despertado de vez. Não vislumbrava luz em lado nenhum.
O breu diante dos meus olhos era tão intenso que parecia mesmo que o podia agarrar com as mãos, se assim o quisesse.
Os meus olhos queriam saltar das órbitras, tentando captar a mais ténue luminosidade, mas esta teimava em não aparecer.
Em pânico, pus-me de pé, mas não me atrevi a dar um único passo, pois podia estar à beira de um precipício sem o saber.
As minhas mãos tacteavam o escuro, em busca de algo, mas com medo de tocarem em algo tenebroso ou nojento.
Muito a medo, movi um pé uns milímetros, mas acho que só o movi dentro do sapato. Depois é que consegui que a sola se movesse, mas muito pouco.
Abaixo-me lentamente para tocar no chão, mas sem me debruçar, para saber um pouco mais onde estou, e os meus dedos tocam ao de leve num chão seco e liso.
Atrevo-me a colocar um pé adiante do outro, e aguardo, como se esperasse que algum bicho me mordesse ou que um bando de aranhas subisse pelo meu corpo acima.
Aguardo e nada acontece, e ouso colocar o outro pé diante do outro, ao mesmo tempo que temo cair num buraco interminável.
Ouço ao longe um barulho que considerei temível, e sinto os pelos da minha nuca a eriçarem-se como se estivessem encantados. Senti que estava perdido.
Assoma-me à cabeça que mesmo que a fera que fez o barulho não me conseguisse ver, conseguiria cheirar-me.
E como eu devo cheirar, de medo e de mais alguma coisa que surgiu agora mesmo. É que não vos disse, mas a coragem não veio comigo ao nascer, e tarda em aparecer.
Senti vontade de correr mas os meus pés ficaram presas ao solo, como se os meus sapatos estivessem colados ao solo com Araldite.
Dou um passo mais afoito e bato logo com um joelho em algo, provocando-me uma dor lancinante, sentindo que a perna tinha ficado toda desfeita em bocados, estando o sangue a jorrar a rodos.
Fiquei com medo de tocar na perna, e apenas a tento levantar, sentindo a meia a ficar toda ensopada. Penso na fera e na sua excitação ao cheirar o meu sangue.
Sinto-me a desmaiar, a desfalecer, a morrer, e os meus últimos pensamentos vão directos para a minha mãe que, coitada nunca mais me verá.
Choro convulsivamente com pena da minha mãe, não de mim nem por mim, pois eu já me considero morto, e nunca ninguém saberá o que me aconteceu.
Nem penso como cheguei ali, a esta situação desesperada, ao negrume, à beira do abismo, com a perna desfeita. Tudo está perdido para mim.
Estou sentado no chão seco e liso, com as lágrimas a escorrerem pela cara abaixo, à espera que a fera me devore, que as aranhas me piquem, que a falta de sangue me mate.
Sento-me direito, como se a aproximação da Morte me desse uma dose de coragem e consequentemente, de última dignidade.
Levanto a cabeça, como se quisesse enfrentar a fera olhos nos olhos. As lágrimas secaram e os meus olhos ficaram de súbito cheios de raiva.
Elevo a voz, já não temendo nada, nem sequer a fera que me rondava – “Vem Morte. Vem, minha desgraçada sem coração. Quero ver-te com coragem para me levares!
De súbito ouço uma voz e uma luz.
Será que é Deus que já me vem buscar?”, penso, surpreendido.
Não era. Mas quase…..
- Gui, deixa-te de brincadeiras aí no quarto e vai levar o Benji à rua. E olha que já está a ficar tarde para jantar…..